Elza Soares abraçou sua vocação de sobrevivente e renasce mais uma vez neste novo disco, A Mulher do Fim do Mundo, um dos seus melhores trabalhos e que a colocam como voz relevante – mas subestimada – do pop nacional. Em 11 faixas inéditas Elza usa sua própria história como força motriz para a interpretação de uma mulher que passou por diversos tropeços, batalhas, alegrias, tristezas, mas que ao final, mesmo bastante ferida, superou tudo.

O disco é fruto de uma parceria com compositores da nova geração, Rodrigo Campos, Kiko Dinucci, Romulo Fróes, Marcelo Cabral, Guilherme Kastrup e Celso Sim. Essa turma é responsável pelos trabalhos mais inventivos da música popular atual e vêm tirando da letargia gêneros tradicionais como o samba ao mesmo tempo em que os reaproximam das raízes africanas. Eles pensaram as letras e arranjos especialmente para Elza, o que ajudou a explorar o melhor do timbre de voz da cantora.

A narrativa explora uma mulher alquebrada que não tem rodeios para contar sua história. Ela narra sem pudor seus desejos em tom apocalíptico. O fim do mundo, a favela, é mostrado com toda sua crueza, mas também beleza. Em “Maria da Vila Matilde“, Elza é uma mulher que cansou de apanhar e que denuncia o valentão à Lei Maria da Penha. A faixa é um hino contra a violência doméstica e é bem oportuno que seja Elza a romper o silêncio para falar do tema na MPB. “Cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim”, canta ela neste samba rock.

Em “Luz Vermelha” ela apresenta uma periferia sem maquiagem ou falso glamour. O fim do mundo é narrado através de vielas sujas, ruas vazias e “poços cheios de merda”. Já em “Benedita”, um rock de guitarras afiadas, ela canta a história de uma transexual que “guarda a navalha na boca e o cartucho na teta”, um cotidiano violento comum nas quebradas brasileiras. Já “Pra Fuder” ela canta em ritmo de marchinha o tesão sem nenhuma vergonha ou disfarce. “Me derreto toda / toda pele vai arder”.

A Mulher do Fim do Mundo é a prova que faltava para a redenção de Elza Soares, personagem importante da história da música nacional, mas que por pouco não foi calada pelo ostracismo. Elza é difícil de se abater e não desiste. Aos 79 anos, em ótima forma, pede que a deixem cantar até o fim.

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