Foto: Gregory Harris/RCA Records.

Foto: Gregory Harris/RCA Records.

O retorno triunfal de D’Angelo
Um dos maiores nomes do R&B retorna 14 anos depois com um trabalho carregado de teor social em um momento explosivo na história racial dos EUA

Por Maurício Ângelo
Da Movin’UP

Com seus dois discos lançados em 95 e 2000, D’Angelo foi catapultado a ícone, carregando a bandeira do neo-soul como um dos melhores e mais intrigantes artistas da “nova” música black, fundindo com maestria elementos do soul, r&b, hip-hop, jazz e rock. Naquele momento e com aquela riqueza de detalhes e escolas, D’Angelo não tinha adversários.

O que, no entanto, se encaminhava para uma carreira de longo reinado no topo das paradas, sucesso de público e crítica, desembocou num ostracismo quase inexplicável, temperado com conhecidas histórias de artistas que não sabem administrar a fama repentina.

De lá pra cá, a música negra americana continuou seu processo de intensa pasteurização, especialmente no hip-hop, perdeu referências como James Brown, Michael Jackson, Solomon Burke e Bobby Womack, os outros nomes da geração de D’Angelo enfraqueceram (como Erykah Badu e Lauryn Hill) até um lento ressurgimento de qualidade em gravadoras menores e nomes “alternativos” como Sharon Jones, Lee Fields, Charles Bradley, Michael Kiwanuka, entre outros, ganharam cartaz.

Neste cenário confuso e 14 anos depois, “Ain’t That Easy” chega abrindo o disco com o peso de ser o cartão de visitas do novo D’Angelo e faz um estrago: grooveada na medida, sexy, quente, dançante e bem construída, vai direto para o topo das melhores músicas do ano e entra instantaneamente entre as obrigatórias do repertório.

Já “1000 Deaths”, ao contrário, investe em camadas saturadíssimas, infinitamente sobrepostas, gerando uma maçaroca sonora que, apesar de intensa, soa gratuita e pouco eficaz (ainda que o final seja bem interessante). Os ecos de Funkadelic ficam (muito) evidentes aqui e, assim que o disco se desenvolve, em todas as faixas. O que passa longe de ser um problema considerando que George Clinton e cia produziram um dos maiores legados da história da música negra. E, claro, Sly & Family Stone, Curtis Mayfield, Stevie Wonder (etc) transpiram no disco

“The Charade” volta aos trilhos, mostrando que (felizmente) pouquíssimos artistas tem o domínio tão pleno das texturas que criam quanto D’Angelo, uma das suas mais notáveis capacidades que fica evidente também em “Sugah Daddy”.

A organicidade fluída de “Really Love” impressiona – que música! – assim como “Back To The Future (Part I)” chega “smooth” e mais calma, “The Door” coloca o vocal de D’Angelo em primeiro plano, usando toda a técnica e variedade que fizeram sua fama, assim como o encerramento em “Another Life” é aquele tipo de composição que não tem ninguém fazendo tão bem em 2014 quanto D’Angelo, apesar de mais de uma década parado.

Além de tudo, o disco chega carregado de teor social num momento em que os Estados Unidos se veem (novamente) debatendo a questão racial e o abuso policial (Ferguson, Eric Garner, etc), longe de simbolizar um messianismo próprio, o sentido é coletivo, conforme o próprio D’Angelo explica:

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Em suma, Black Messiah mostra um artista único que não perdeu a mão, com todos seus predicados e o talento espetacular de produzir uma música que só ele é capaz, mantendo suas características e indo além. Ao contrário da maioria das previsões, D’Angelo – mais do que merecido – está de volta ao topo.

D'Angelo_-_Black_Messiah_Album_CoverD’ANGELO
Black Messiah
[RCA/Sony, 2013]
Compre: iTunes | Ouça Spotify, Deezer, Rdio

9,5

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* Maurício Ângelo é jornalista e editor da revista online Movin’UP, onde este texto foi publicado. Veja outros textos dele.

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