Músico chileno reafirma a tradição da música de resistência na América Latina e agrega temas como vivência LGBT, intolerância e questões de classe

Crítica: Alex Anwandter faz pop latino contra a tirania
NOTA9

O chileno Alex Anwandter lançou seu olhar crítico sobre a América Latina neste seu quarto álbum de estúdio. Mas fez isso com um som cheio de apelo popular, muita poesia e um desejo incansável de propor diálogos com os diversos povos do continente.

Latinoamericana chega depois do ótimo Amiga, de 2016. O disco é o mais político dos discos pop lançados este ano e trata de temas que vão fundo na história do Chile, mas também abordam as bases históricas do continente como um todo. Anwandter, que também é cineasta, ainda abordou com segurança lugares de fala que lhe são caros, como a vivência LGBT e latina e crise da masculinidade e questões de classe.

A força política das letras do disco é o que lhe dá vigor, mas as intersecções que Anwandter faz com diversos estilos mostra a sofisticação criativa e o domínio que possui do pop. “Locura”, o primeiro single, esbanja uma mistura de irreverência latina com puro dance para pistas. Há ainda diálogos com o funk dos ’90, tecnopop, além de momentos de puro classicismo e melancolia ao piano. Por vezes parecemos ouvir influências da eletrônica vanguardista do LCD Soundsystem (a ótima “Canción del Muro”) e do rock setentista de David Bowie (“Ódio a Todo El Mundo”).

Para firmar sua proposta de se integrar com toda a América do Sul, o disco traz duas faixas cantadas em português, “Um Girassol da Cor do Seu Cabelo”, regravação de Milton Nascimento e “Olha Maria”, de Tom Jobim. A presença dessas faixas revolve um denominador comum de lutas latinas contra a ditadura e soam como lembretes de um passado compartilhado. Segundo o músico, as covers reforçam ainda mais uma identidade comum de artistas engajados em questões sociais.

Latinoamericana está comprometido com um discurso de integração do continente, mas faz isso de forma crítica, sem romantizar. A ideia, como fica claro na faixa-título, é invocar a identidade dos povos latinos como uma grande frente ampla a lutar contra a intolerância. O ativismo musical de Anwandter encontra por vezes com uma melancolia baseada em solidão, sobretudo em temas ligados à sexualidade. Dessa forma, o disco trafega entre uma inquietude política e uma introspecção bastante emotiva, o que só comprova o quanto esse álbum é complexo e belo.

Alex Anwandter vem dando várias entrevistas de como sua carreira e esse disco especificamente tem servido como uma forma de se contrapor ao crescimento da extrema-direita na América Latina (e também nos EUA, onde ele vive atualmente). Mas seu disco tem uma força poética para ser bem mais do que um produto factual. É, sim, fruto de sua época, mas também aglutina sentimentos que falam diretamente a todo latino. Com todas as suas contradições, nuances e camadas, é um disco insurgente que resgata a tradição musical da música de resistência latinoamericana.

ALEX ANWANDTER
Latinoamericana
[Nacional Records, 2018]

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