Estreia da banda catarinense traz um registro do amadurecimento dos próprios integrantes. Tão honesto que ficou bom

Crítica: Adorável Clichê e os conflitos da vida adulta
NOTA8

As angustias, as crises existenciais, os receios e outros sentimentos conflituosos são muito presentes na vida de qualquer indivíduo. Mas quando é chegado o processo de transição entre a adolescência e a fase adulta, tais sentimentos afloram de uma forma mais intensa, o que causa alguns obstáculos nesse momento de mudanças, quase como um ritual de passagem para um novo ciclo.

Obras que abordam esse processo turbulento são muito comuns no cenário pop-rock, mas poucas conseguem relatá-lo de forma tão sincera e madura. Esse é o caso de O Que Existe Dentro de Mim, primeiro álbum de inéditas da banda catarinense Adorável Clichê. Formada em 2013, a banda é composta por Gabrielle Philippi (vocal e guitarra), Marlon Lopes da Silva (vocal e guitarra), Diogo Leal (bateria) e Lucas Toledo Lugones (baixo).

Nesse ano, durante o início de agosto, o público teve contato com pequenos fragmentos do que estariam presentes no disco de estreia dos catarinenses. “Traços e “Crescer”, canções que anteciparam a chegada do disco, são composições que sintetizam assertivamente o conceito apresentado pela banda, enquanto a primeira embala o ouvinte na sonoridade onírica do dream pop, a outra soa mais pulsante devido aos riffs sujos de guitarra.

É entre guitarras e vocais adornado de efeitos que dão uma sensação introspectiva, que o ouvinte é convidado ao universo de sentimentos amargos que se embaralham na mente da interprete, e que ganham forma a cada verso entoado. São canções que trazem uma carga íntima, de experiências sufocadas pela rotina de compromissos e horários de quem vive num centro urbano. “A rotina envelhece mais/ Que todos os cigarros/ E minha vida passa mais/ Rápido que os carros se vão”, resume a banda em “Traços”.

O apego pelo passado, o medo da velhice, relacionamentos que não deram certo e o anseio por uma vida independente dos pais guiam a banda na construção de um registro que pincela em tons amenos as preocupações que surgem nessa transição. É um mergulho num mar de medos, mas também de sonhos, que se confrontam diariamente para se sobrepor um ao outro.

Para dar contornos mais tangíveis a esses sentimentos, a banda evoca situações e elementos urbanos. “Lá fora/ A poluição/ Só serve para mostrar / O que há dentro de mim”, confessa desanimada a interprete em “Poluição”, mas, ainda no refrão da mesma faixa, não deixa de acreditar em dias melhores ao entoar “Fecho os meus olhos/ E acredito/ Que as luzes da cidade vão se acender/ Mais uma vez”. Em outros momentos do disco, os catarinenses exploram os momentos de fuga dessa realidade acinzentada, como na canção “Compressa”. “Eu tenho tanto pra pensar/ E tanta coisa pra fazer/ E os carros passam buzinando/ E o barulho me faz esquecer/ De tudo”, canta Gabrielle Philippi.

Enquanto os vocais de Gabrielle soam desalentados, as guitarras sujas preenchem as canções com ruídos e com uma carga palpitante. O que parece ser um contraste, também pode ser entendido como uma metáfora entre o desânimo de enfrentar o cotidiano maçante da vida adulta (refletido nos vocais) e os inúmeros pensamentos que perturbam a mente de quem deve deixar o passado para se enquadrar na nova fase (os riffs de guitarra).

Mesmo com um catálogo singelo de nove canções, Adorável Clichê entrega um disco conciso e com versos que devem dialogar com muitos jovens que se veem lidando com a mesma situação. Com uma sonoridade que transita por uma atmosfera anuviada, característica do dream pop, mesclada com uma densidade devido às guitarras, “O Que Exise Dentro de Mim” é um belo exemplar do que há de novo no rock nacional.

ADORÁVEL CLICHÊ
O Que Existe Dentro de Mim
[Nuzzy Records, 2018]

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