AULA DE AÇÃO
Por Fernando de Albuquerque

MAD MAX 2 – A CAÇADA CONTINUA
Geroge Miller
[The Road Warrior, EUA, 1981]

No começo dos anos 2000, como é de costume, o British Film Institute fez uma lista dos melhores filmes de cada década. E o nome mais emblemático dos anos 80 a figurar na seleta foi Mad Max 2 – A Caçada Continua, de George Miller. Tanto reconhecimento à um despretencioso filme de ação pode soar forçoso, mas o fato é que o segundo filme da trilogia Mad Max é uma das mais poderosas aulas de cinema contemporâneo. No enredo, Max Rockatansky, encabeçado por Mel Gibson, é sobrevivente de um mundo pós-guerra nuclear. Vivendo em um ambiente completamente desértico, a gasolina é o grande elemento do embate entre a gangue de saqueadores e um grupo de amotinados que vivem numa espécie de fortaleza no meio do nada. Max não pertece a nenhum dos grupos já que prefere seguir seu caminho sempre sozinho. Uma espécie de lobo solitário pós-contemporeâneo.

Quem tem combustível tem liberdade do futuro. Esse é o vaticínio deste filme que serviu de prenúncio, ou mesmo como uma grande sátira à verve pós-industrial, de uma história que se passa após uma guerra que devastou os campos de petróleo do Oriente Médio. Em meio à brutalidade e ao terror, o ex-policial Max tem poucos motivos para viver – sua mulher e filho foram caçados e mortos por uma quadrilha de motoqueiros – e por isso tem coragem. Dirigindo seu V-8, um carro patrulha, velho e envenenado, mas ainda potente, percorre as estradas, indiferente ao perigo, em uma interminável busca por gasolina. Acaba, assim, caindo numa emboscada preparada por Wes (Vernon Wells), uma criatura excêntrica e cruel, que pilota uma moto negra e prata. Abandonado no deserto, Max encontra uma pequena comunidade liberada pela Mulher Guerreira (Virginia Hey). No local existe uma refinaria arduamente defendida, embora cada vez mais enfraquecida pelos ataques dos bizarros guerreiros de Lord Humungus (Kjell Nilsson), figuras que anunciam uma nova era de bárbaros.

As batalhas que se travam em torno do terminal petrolífero têm o sabor de um dos mais estonteantes filmes de ação já exibidos. Em Mad Max 2 – A Caçada Continua… o futuro pós-nuclear encontra o passado mitológico com resultados nada menos que selvagemente espetaculares. Todos esses elementos traduzem, então, uma visão desprovida de ilusões do realizador que na verdade se configura como o reflexo de um futuro próxomo. Mad Max 2 antecipou a problemática, quase iminente, da cultura fast food em que o consumo rápido de bens culturais faz o homem encarnar, em todas as instâncias, um lobo para si mesmo, contrabalançando aqui pelo heroísmo de Max e pela inocência das crianças amotinadas, promessa eventual de um futuro diferente.

Um dos motivos para o sucesso que Mad Max 2 obteve mundialmente é a caracterização agressiva do personagem, um herói relutante que começa o filme perdido, praticamente na mesma categoria da escória que um dia esteve sob a mira de sua arma e de seu distintivo. A cinematografia sensacional do longa é a grande responsável por isso, sobrepondo-se aos diálogos escassos e retratando com olhar neutro toda a indiferença de Max em relação ao próximo retroceder para algo que lembre o homem que ele já foi no passado. O lento e penoso processo de re-humanização do personagem não vem fácil, mas é pontuado por momentos de algum humor, quase sempre proporcionados pela figura de Bruce Spence.

De realização praticamente irretocável, a continuação da saga do homem que se torna um anti-herói após a catástrofe nuclear tornou-se uma das obras mais influentes da década de 80. Filhotes bastardos do filme australiano, o mais caro já produzido no país até então, pipocaram como coelhos nos quatro cantos do mundo, e nem é exagero dizer que o alcance da influência chega até mesmo à série Sexta-Feira 13. Que o diga o visual do lorde Humungus, o líder da gangue de punks que invade o oásis de gasolina. A seqüência da perseguição final é simplesmente espetacular, conduzindo a um desfecho que fecha mais um ciclo na vida de Max e dá à aventura um tom decididamente episódico. É uma pena que, além do DVD da Warner conter somente a versão fullscreen do filme, o disco seja completamente carente de extras.

Trilogia – O primeiro filme de três da franquia Mad Max enalteceu visivelmente a carreira do então jovem ator Mel Gibson. Quem diria que hoje o ator é um competente diretor e dono de uma filmografia invejável. Mas o segundo filme é uma espécie de coração das atuações e mesmo da direção. A sociedade futurista mostra seus tons de vingança em todos os seus personagens. O roteiro enquadra bem esse fator e agrega com o fundo de vingança determinado pelo protagonista. Essa vingança, diga-se de passagem, não parece de forma sutil como vemos em filmes mais atuais, mas é algo bem feroz, visto, inclusive, a partir do ato que gerou tal sentimento no personagem. Em Mad Max 2 o tempo é o grande ditador. Ele desfigura seu personagem principal com os pensamentos de um passado pra lá de marcante, mas ele também é quem o regenera.

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