Com gritos de "ai, ai, ai, Bolsonaro é o carai" e falas de conscientização social e política, o terceiro dia de festival teve ainda jazz, sentimento latino e eletrônica experimental

Sem dúvida, Recife e Edgar tornaram-se um só na noite dessa segunda-feira (4). Em um show emblemático, o rapper paulista montou um espetáculo calcado numa narrativa sobre problemas sociais que rodeiam nossa sociedade, mas também sobre o próprio Recife.

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Questões como o lixo no Rio Capibaribe, sociedade de controle, adoecimento e violência contra a mulher foram abordadas nas performances de Edgar. Com seu álbum Ultrassom, Edgar cantou diversas músicas, dentre elas, “Plástico”, grande sucesso do rapper. A euforia tomou conta de quem estava ali, com o público entoando as letras de todas as faixas.

Outro ponto que merece grande destaque se deu na abertura do show, quando foi exibido no telão diversos depoimentos de pessoas falando sobre a prisão do DJ e articulador cultural recifense Juan, mais conhecido como Ojuara, criador do selo 9k, que foi preso no dia 17 de agosto de 2018, acusado de tráfico de drogas. Desde então, existe uma “vakinha” na internet em prol da liberdade de Ojuara. Nesse momento, um coro gritava “ara, ara, ara, liberdade a Ojuara.”

Edgar pediu liberdade a Ojuara, DJ recifense acusado de tráfico de drogas. (Foto: Hannah Carvalho/Divulgação).

E por falar em críticas políticas, tivemos nesta noite a banda Eddie, que está completando 30 anos de carreira. Última apresentação da noite, o grupo começou puxando o “ai, ai, ai…”, enquanto todo o público completava a frase “(…) Bolsonaro é o carai”. Eles cantaram grandes sucessos como “É de fazer chorar”, “Pode me chamar” e “Vida boa”. A banda olindense de rock , que mistura gêneros brasileiros como o frevo e o samba, com ritmos internacionais como o pop, eletrônica e reggae, vive um momento especial. Além do aniversário da banda, eles também comemoram os 11 anos do álbum Carnaval do Inferno, que foi lançado em 2008.

A irreverência da cantora argentina Sofía Viola abriu a noite de segunda do Rec-Beat 2019. Em sua primeira vez no Carnaval brasileiro, e também fazendo show, ela não poupou elogio à cidade. Sempre fazia questão de dizer o quão estava feliz em participar do nosso carnaval. Sem banda, apenas ela, sua linda voz, um charango e um violão, Sofía fez o público vibrar e ficar animado com suas canções em castelhano e uma em guarani. Um dos seus maiores sucessos, “Poncho en Constituición”, traz uma crítica ao perverso sistema que rege a maioria dos países do globo. Durante sua apresentação, ela frisou a importância da união dos povos latinos em relação ao mundo, além de sempre chamar pelo amor – não no sentido romântico, mas no amor pelas pessoas, sem discriminação.

A argentina Sofía Viola fez um show que instigou o sentimento latino no público. (Foto: Hannah Carvalho/Divulgação).

E por falar em talento estrangeiro, Sofía não foi a única que deu as caras no Rec-Beat 2019. O tecladista inglês Tim Blake fez um show que dispensa comentários. Também participando do seu primeiro Carnaval em terras brasilis. Com uma música eletrônica e metálica, com um misto de psicodélico, Tim Blake fez a galera viajar para a Inglaterra psicodélica e setentista em uma hora de show. Um jogo de luz incrível, teclado e outras máquinas de efeitos sonoros, fez com o que o nome do inglês ficasse registrado no festival.

Mas não só foi Tim Blake que trouxe uma pegada instrumental para o palco do Rec-Beat 2019. O talento recifense, o pianista Amaro Freitas, desde que lançou seu primeiro álbum, Sangue negro, em 2016, arrancou diversos elogios da crítica especializada e dos fãs do jazz. Uniu ao referido gênero elementos da cultura popular de Pernambuco, como o forró e o frevo, o que deu um ar super novo e ousado, nunca antes explorado.

O público reagiu super bem ao trabalho incrível do recifense. Sentiu a vibe em sons mais lentos e pulou a cada subida nas quase infinitas notas tocadas por Amaro e sua banda. Ele também trouxe faixas do seu segundo álbum, o RASIF, que é centrado no piano do músico, contemplando os temas como “Dona Eni”, “Rasif” (música título do álbum) e Afrocatu.

Amaro Freitas e sua união de jazz e frevo. (Hannah Carvalho/Divulgação).

A diversidade do palco do Rec-Beat mostrou-se presente, de forma ímpar, na noite dessa segunda. Diferentes estilos musicais, diferentes nacionalidades e naturalidades, mas um único objetivo: falar, fazer e respirar arte.

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