. Foto de Ariel Martini/Rec-Beat.

No Carnaval mais político em muitos anos, o Rec-Beat aglutinou vários temas e discussões importantes trazidos pelos artistas da escalação deste ano. Que ninguém se engane: a música pop sempre foi política, seja no discurso ou na atitude, mas hoje, em meio a graves ameaças antidemocráticas, se manter isento não é uma opção para artistas que querem manter uma relação transparente com seu público.

As vozes estavam contra o racismo, homofobia, preconceito de classe. Ouvimos letras contra a transfobia e discursos por mais liberdade e democracia e, da parte do público, o mantra do “fora, temer”, era onipresente. O que chamou mais atenção foi que, longe de ser um refúgio ideológico comum, os artistas do Rec-Beat estavam cantando suas verdades particulares, problemas específicos, o que dava um tom bem diversificado, politicamente falando. E teve também muita dança, experimentação, cor, porque, sim, era Carnaval, a mais importante festa desta cidade!

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O Rec-Beat 2017 em fotos

Raquel Virgínia, uma das cantoras do As Bahias e a Cozinha Mineira disse no meio de sua apresentação. “Vai ter travesti no palco sim!”. As letras da banda trazem com lirismo questões importantes da transexualidade, das dores de existir e da necessidade de se insurgir. Mas nem precisava, uma vez que a própria presença delas em um show lotado no Carnaval é uma afronta política e tanto em um país como o Brasil, líder no ranking de mortes de pessoas trans no mundo. Ao lado da cantora Assucena Assucena e de Rafael Acerbi, o grupo está em ascensão hoje na cena pop nacional e ganharam o público com uma explosão de vozes fortes e instrumental pesado.

“Tocar no Rec-Beat foi uma experiência inquestionavelmente linda. As pessoas estavam muito receptivas ao nosso trabalho, à nossa poesia, ao nosso corpo, à nossa trajetória política”, disse Raquel, nos bastidores do . “A gente traz mesmo essa postura de colocar em cena toda nossa verdade. Todo show das Bahias tem essa confluência da busca de uma nova linguagem artística, mas também de uma quebra de expectativa do que as pessoas esperavam ver.” O show terminou com uma cover de “Pagu”, de Rita Lee, que tem mesmo tudo a ver a com a banda.

O Rec-Beat fez a estreia de no . A cantora de Mali mistura pop, rap e jazz para falar de problemas bem locais de seu país de origem, mas que também é próximo da gente. Podemos não estar lidando com terrorismo, mas ainda temos comunidades sem acesso à agua limpa e saneamento, que é o caso de sua música “Water”, do disco Motel Bamako, de 2015. Hoje baseada na França, Inna é um nome em ascenção entre as cantoras africanas que levam com sua voz potente questões que o mundo parece querer esquecer. Falando bastante com a plateia ela ainda comentou sobre a tragédia dos imigrantes mortos na travessia de barco para a Europa na música “Boat People”. E trouxe seu hit “Tombouctou”, uma viciante batida electro com rimas rápidas que pegou o público num átimo. Ao final Inna foi pro meião do público, passando a área reservada aos fotógrafos e jornalistas. E foi sem avisar a ninguém, se jogando no meio dos foliões, unicórnios, sereias, índios, turbantes e placas de Fora Temer.

, santeria, música cubana, rap. Que mulher!

Nos bastidores falei o quanto o show dela é poderoso em um momento em que o Brasil também demanda liberdade e democracia, ainda mais agora em meio ao golpe. “Me senti conectada com o público pelo fato de termos tantas coisas em comum, como política, mudança climática, água, assunto que trato em minhas músicas”, disse Inna no camarim. “O mundo está meio maluco hoje e acho importante estarmos unidos por valores que nos são caros. Vamos resistir, é isso que quero passar com meu show”. Com contrato assinado pela Warner e clipes incríveis rodando no YouTube e discos no Spotify, todo mundo deveria seguir Inna de agora em diante.

De Cuba, o Rec-Beat trouxe La Dame Blanche, rapper que traz uma bagagem de diversos ritmos cubanos unidos ao rap mais inovador, um som que mistura batidas programadas ao vivo com percussão e flauta. Só essa combinação já valeria o show pelo inusitado, mas eis que Dame tem o carisma para segurar uma audiência totalmente nova e presença de palco. Fumando um charuto durante todo o show ela evoca a santería, a religião tradicional de Cuba e dança e canta sem tomar um único gole d’água durante uma hora. A voz dela alcança agudos e graves e vai do flow das rimas ao tom mais ameno. A técnica apurada se deve bastante à formação de cantora de jazz no início de carreira. Ela acaba de lançar o disco, 2, bem mais ligado ao hip hop que o primeiro, Piratas, e já prepara o terceiro para este ano.

Craca e Dani Nega levaram a bandeira do MTST ao palco.

Mistura, experimenta, é Carnaval

Uma das coisas legais do Rec-Beat é ver no palco bandas que se esforçam em buscar novas sonoridades, retrabalhando clássicos (como foi o caso do Quartabê), desarrumando a música eletrônica com um balaio de sons que vai do free jazz ao maracatu (Teto Preto) e trazendo os tradicionais ritmos latinos para uma explosão electro, como fez o Los Pirañas. E o mais legal ainda é ver o público reagir com animação a tudo isso. Então, que fique claro, nenhuma plateia é tão receptiva e aberta a novos sons e experimentalismo musical do que o folião do Recife Antigo.

Ali, fritado no meio do Carnaval, com muito glitter e fantasias, a jogação vira celebração. Foi incrível ver do público o show do ATTOOXÁ, desde já uma das melhores apresentações do Rec-Beat em anos. A banda baiana trouxe o Bahia Bass, que basicamente pega o pagodão e outros ritmos da Bahia e adiciona o que a eletrônica tem de mais grave e pesado em batidas.

O Los Pirañas fez o que se esperava: uma gigantesca pista de dança ali no Cais do Alfândega, com som instrumental que era pura loucura latina que ia da cumbia ao mambo, sempre com som pesado, dançante ao talo.

Dois shows já conhecidos do público trouxeram boas surpresas. O primeiro deles foi o de Rashid, que já tinha se apresentado no Recife para um público menor, no Estelita. Agora, celebrado pelo seu disco A Coragem da Luz, ele pôde comprovar o tamanho que está dentro do hip hop nacional. Os fãs mais próximos ao palco choravam emocionadas. Já Jards Macalé comemorou seus 50 anos de carreira no palco, mas mostrou algo diferente de outras apresentações comemorativas que fez em São Paulo. Tocou seus clássicos como “Vapor Barato”, mas também trouxe frevo e a presença de Marcelo Jeneci. Como já fez em outros anos, o Rec-Beat sempre destaca um grande nome da música brasileira. Este ano, a escolha foi mais do que apropriada. Já que o lance é experimentar, ninguém foi mais vanguardista que Jards.

Colaborou Rafaella Soares.

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