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Fora do centro ou regionalismo? Duas faces da mesma moeda
Debates em Tiradentes levarantaram questões como ousadia estética e vanguarda versus contas a pagar

Por Alexandre Figueirôa
De Tiradentes (MG)

Entre os seminários realizados durante a 16ª Mostra de Cinema de Tiradentes um dos mais concorridos foi Fora de Centro – Estilos Cinematográficos, encontro que contou com a participação do professor e crítico de cinema João Luiz Vieira, o crítico Jean-Claude Bernardet e os cineastas Marcelo Ikeda, Sérgio Borges e Adirley Queirós. Por cerca de duas horas os debatedores tentaram responder às questões colocadas pelo curador do festival Cléber Eduardo cujos motes principais eram entender de que modo os sistemas de produção menos engessados contribuem para as escolhas estilísticas dos cineastas e quais seriam as principais marcas dos filmes brasileiros surgidos nos últimos 10 anos.

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Segundo Cléber Eduardo é visível nas realizações recentes dos jovens realizadores uma perda de centralidade organizadora, com filmes apresentando narrativas mais livres, fragmentadas e que não respondem necessariamente a uma ideia central. Para ele “fora de centro é uma noção que está sendo construída e não está ligada a uma ideia de procedência dos filmes, mas aos estilos e escolhas dos cineastas”.

O professor do curso de cinema da Universidade Federal Fluminense João Luiz Vieira destacou que os filmes desta geração que tem na Mostra de Tiradentes o seu principal espaço de exposição são frutos de articulação de amigos. “Os cursos de audiovisual nas universidades tem sido fundamentais na promoção desses encontros. A formação acadêmica desperta o gosto pela cinefilia, estabelece diálogos com cineastas mais experientes, estimula a atividade cineclubista e após o término do curso, estes jovens se juntam para produzir.”

João Luiz observa nas obras surgidas nos anos recentes uma ousadia performática, a quebra dos formatos narrativos tradicionais, e a recorrência às temporalidades ambíguas na composição dos espaços cênicos. E o mais significativo para ele é “constatar como os filmes interpelam o espectador, problematizando aspectos fílmicos como, por exemplo, a ruptura com as regras tradicionais do ponto de vista da câmera”.

Debate levantou questões do cinema nacional de hoje (Foto: Divulgação)

Debate levantou questões do cinema nacional de hoje (Foto: Divulgação)

O modo colaborativo de realização foi também enfatizado pelo realizador Marcelo Ikeda. Para ele o cinema brasileiro está vivendo um momento singular. “Festivais como a Mostra de Tiradentes, em Minas, a Janela Internacional de Cinema, em Pernambuco, ao abrirem espaço para os diretores jovens ou estreantes ampliaram o intercâmbio entre eles e isto tem resultado filmes mais conceituais e experimentais”, disse Ikeda. Embora concorde com este caminho de diversidade e experimentação, o realizador mineiro Sérgio Borges lembrou o conflito enfrentado pelos cineastas divididos entre a liberdade estética na criação e a necessidade de atender às obrigações institucionais. “Muitos jovens ficam entre o desejo de ser vanguarda e ao mesmo tempo ter sucesso de público, coisa que nem sempre andam juntas.” Adirley Queirós, cineasta do Distrito Federal, alertou para o que ele chama de “idealização da produção experimental que não leva em conta os fatores econômicos. “Como vamos viver de cinema e pagar nossas contas?”, alertou.

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Outra questão abordada no seminário foi a do regionalismo. Para Marcelo Ikeda a nova geração quebrou com a obrigação regionalista. Nos editais da região Nordeste, segundo ele, privilegiava-se projetos que falavam da identidade regional e hoje isto está mudando. Jean-Claude Bernardet acredita, todavia, que este é um ponto ainda obscuro no debate de descentralização da produção. Por mais que se afirme o contrário, nos estados fora do eixo Rio-SP, mesmo o cinema dito independente, vez por outra, expressa um receio da perda de identidade regional.

Bernardet lembrou que os filmes produzidos em Rio e São Paulo até os anos 90 eram considerados nacionais e os produzidos fora de lá regionais. Naquele momento o regionalismo estava atrelado a uma questão de poder político e econômico e era preciso lutar para acabar com aquilo. Quando esta relação se tornou mais complexa, houve um receio da parte dos realizadores das particularidades regionais se diluírem. Bernardet lembrou o movimento pernambucano Árido Movie. “Ele rompia esteticamente com o passado e ao mesmo tempo propunha uma reconstrução da identidade regional.”

Concluindo sua reflexão, Bernardet argumentou ainda que os “filmes vindos de diversas partes do país, hoje, são marcadamente urbanos e a construção de um novo imaginário passa pela cidade”. Ele evocou o filme O Som ao Redor, de Kleber Mendonça Filho, aceito como filme nacional, mas por outro lado, para ele, um filme extremamente pernambucano que revisita o pensamento de Gilberto Freyre. O crítico lançou então a provocação: “esta revisitação que se faz por meio da cidade é uma questão só nordestina ou também brasileira?”. Uma resposta que mesmo após duas horas de discussão ninguém conseguiu dar com muita convicção.

Foto: Divulgação

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