Em busca de suscitar a reflexão do que é ser negro através de suas produções, o grupo pernambucano O Poste – Soluções Luminosas apresentou a leitura dramatizada O Juazeiro, A Pedra e o Sol. O trabalho de primorosa e criativa execução foi interpretado no sábado (27), na programação paralela do Janeiro de Grandes Espetáculos.

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Composto por Samuel Santos, Naná Sodré e Agrinez Melo, iluminadores e formados em artes cênicas na Universidade Federal de Pernambuco, O Poste tem como marca o pioneirismo por atender ao título de primeiro coletivo que trabalha dentro de sua ancestralidade, evidenciando todo o potencial de artistas negros, colocando-os no centro dos holofotes.

O Juazeiro, A Pedra e O Sol escancara a dura realidade de incidência de infecção pelo HIV no Nordeste, principalmente no interior da região. A AIDS cresce entre os jovens, sobretudo homens. Dois personagens são usados como exemplo: Severino e Sebastião, casal de adolescentes apaixonados do interior de Pernambuco. Após serem descobertos pela comunidade e um dos rapazes contrair HIV, eles são isolados numa casa. Presos, só lhes resta olhar para o céu. Não obstante, a religiosidade é parte quase indissociável do DNA dessa sociedade.

Com texto e direção Samuel Santos, a leitura foi realizada pelo elenco formado completamente por atores negros: as já citadas Naná Sodré e Agrinez Melo, além de Kleber Valentin, Pedro Felix, Bruno de Leon, Gilson Paz, Thadeu Borba, Erika Nery, Marcílio Moraes, Madson de Paula, Vanise Souza e Ana Benedita.

Através de um jogo de narrativa, o autor leva a cena fatos dolorosos pelos quais Severino e Sebastião sofrem, que são bem aproveitados na criação de uma instigante montagem. Santos, para esta leitura, deixa evidente a encenação, explorando as excelentes interpretações do elenco. As marcações do diretor sublinham uma crítica através do sarcasmo, como os preconceitos – principalmente a homofobia – naturalizados pela sociedade.

Com o recrudescimento da intolerância (de várias ordens) no Brasil e a religião sendo usada como justificativa para ataques às liberdades individuais, aos direitos humanos e à arte, o assunto se mostra ainda mais urgente e atual. A leitura dramatizada do grupo traz também um desfecho de uma percepção assombrosa e triste para os dois personagens, vítimas de forte violência.

De fato, estamos vivendo um momento histórico, em que as negras e os negros estão podendo ver, ouvir e falar por si mesmos, num processo de construção dos seus espaços de poder que também se refletem no campo da arte. Nas formas artísticas em que o negro se vê representado, seu corpo é ressignificado, sendo visto como legitimador de discursos políticos e ideológicos. Dessa forma, passa a construir narrativas que articulam memórias individuais e coletivas. O trabalho desenvolvido pelo grupo O Poste é essencial, neste sentido. Representatividade, acima de tudo.

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