O RONRONAR DE CAT POWER PELO BRASIL
Cantora inicia turnê e mostra que referências felinas a sua pessoa são cretinas, mas verdadeiras

Texto e foto por Lidiana de Moraes
Colaboração para a Revista O Grito!, em Porto Alegre

Quem tem a oportunidade de assistir a performance de Chan Marshall ao vivo descobre que todas as analogias que são feitas entre seu nome artístico e felinos são muito cretinas, mas nem por isso menos verdadeiras. No último dia 20 de maio, Cat Power subiu no palco do Bar Opinião em Porto Alegre como uma gatinha tímida tentando desbravar um novo território, que, depois de um curto tempo, já sentia que era seu.

O show que inaugurou a passagem da americana pelo Brasil – que ainda conta com shows no Rio de Janeiro,  Jundiaí e São José dos Campos (SP) – teve um repertório baseado no seu último trabalho Jukebox, como Woman left lonely, New York, Silver Stalion e Metal Heart, misturadas com outras faixas indispensáveis para os fãs que estavam lá naquela noite chuvosa, entre elas “The Greatest” e “I don’t blame you”. Acompanhada de apenas dois músicos, Judah Bauer na guitarra e Greg Foreman no teclado, ela provou que é não apenas linda pessoalmente, mas que também tem a mesma voz impactante e sensual que se ouve gravada em canções tal quais “Blue”, “Sea of Love” e “Lived in bars”.

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Charlyn Marie Marshall faz parte de uma leva de cantoras que surgiram com vontade de mostrar que pode haver espaço no mundo da música para mulheres que desejam ser mais do que meras estrelas de videoclipes sem muito a dizer. Contudo, o feito de nenhuma dessas artistas se compara com o de Cat se avaliarmos a capacidade que ela teve para construir uma identidade sonora tão forte (com exceção, talvez, de P.J. Harvey, mas essa história fica para outra hora).

A escolha do repertório, tanto para o show em Porto Alegre quanto para os discos de Cat Power, deixa clara as influências da compositora que gosta de mergulhar no blues, mas sem deixar de atualizar a estética tradicionalmente associada à cena musical de Nova Orleans ao misturá-lo com o folk. Não é a toa que Chan é responsável por algumas das melhores versões de músicas de Bob Dylan nos últimos tempos, como “Stuck inside the mobile with the Memphis blues again” e “I believe in you”.

Quem esperava um show animado pode ter se decepcionado, afinal o setlist da artista saída de Atlanta não é exatamente um dos mais alegres que existe, mas de qualquer forma ela fez muitas pessoas sorrirem com sua simpatia. A cantora ficou bem próxima ao público, e chegou a ser presenteada com um buquê de flores que foi repartido com os presentes na platéia de uma forma bem menos organizada do que a feita por Roberto Carlos.

O talento que Marshall e seus músicos apresentaram no palco não foi surpresa para ninguém. O que pode ser considerado mais surpreendente é o envolvimento que ela apresenta com a música, Chan se deixa levar por cada acorde, sendo embalada pela melodia enquanto embalava a todos com sua voz. No fim da noite, o timbre de Cat Power continuava no ouvido provando que sem o ronronar da melhor cantora da atualidade todas as tristezas do mundo não soariam tão lindas.

Lidiana de Moraes é jornalista e mantém o Receituário Pop.

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