CURTAS AGRADARAM NA PRIMEIRA NOITE
Uma trama tarantinesca, uma animação noir e o cotidiano de um casal septuagenário abriram a mostra competitiva

Por Alexandre Figueirôa
Editor da Revista O Grito!

O espaço para os curtas oferecido pelo CinePE também sofreu alterações com a nova grade de programação implantada pela organização do festival a partir deste ano. Se até a edição anterior uma média de seis a sete curtas eram exibidos por noite, agora apenas três produções a cada dia chegam na tela do Teatro Guararapes, além dos curtas selecionados para a Mostra Pernambuco que serão mostrados nas tardes de sábado e domingo. A mudança, se é boa por um lado por tornar mais confortável para o público a maratona fílmica (lembrando que também só um longa é exibido a cada noite) e estabelecer uma suposta melhoria da qualidade dos filmes – já que, a principio, a peneira da seleção deve estar mais rigorosa -, por outro, ficamos privados do panorama da produção contemporânea de curtas nacionais que o formato anterior permitia.

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Contudo, temos que concordar o quanto o novo formato da programação está mais digestivo. E os três curtas exibidos na primeira noite deixaram uma boa impressão no público. Foram aplaudidos calorosamente e com justiça. Os filmes, todos de ficção, sendo um deles em animação, mostraram apuro técnico e narrativas bem construídas, reforçando a ideia de como os curtas metragens, quando bem realizados, constituem um espaço expressivo interessante com vida própria e tão importante para a arte cinematográfica quanto os filmes em longa metragem.

O primeiro filme a ser exibido ontem foi Depois da Queda, de Bruno Bini, do Mato Grosso. Nele temos uma trama intricada de contornos a la Tarantino em que uma sucessão de episódios trágicos e violentos movimentam a vida de quatro personagens. Apesar de aparentemente desconectadas as ações mostradas vão aos poucos se encaixando e a roleta de sexo, amor e dinheiro, a partir de uma série de coincidências, levam a história a um final divertido e inesperado. O que parecia encaminhar-se para um desfecho sombrio transforma-se num happy end alto astral e bacana.

Cena do curta Depois da Queda: tarantinesco (Foto: Divulgação)

Já a animação O Descarte dos paranaenses Carlos Hardt e Lucas Fernandes, segundo curta da noite, esbanjou bossa nos recursos gráficos para contar em clima de filme noir uma trama de vingança. Embora o roteiro, mesmo bem escrito, não surpreenda, não se pode deixar de ressaltar o esmero da produção pelo seu visual arrojado o que mostra o quanto os filmes de animação brasileiros vem atingido um patamar de sofisticação remarcável.

Por fim tivemos o que foi, sem dúvidas, o melhor curta do primeiro dia: Qual o Queijo que Você Quer?, da catarinense Cintia Domit. Este é um daqueles curtas que nos surpreendem pela simplicidade e cuja força narrativa está em saber aproveitar uma boa ideia dando a ela um texto enxuto e direto e colocando-a em cena com precisão. O filme resume-se a uma conversa entre um casal de idosos na sala de um apartamento. Com uma dupla de excelentes atores e uma mise-en-scène adequada ao propósito da trama, vemos desenrolar-se diante dos nossos olhos uma explosão dramática de sentimentos reprimidos que colocam em cheque as nossas próprias existências, fadadas quase sempre a rotina e a uma velhice sem graça, em que apenas os pequenos gestos do cotidiano e uma cumplicidade acumulada no decorrer dos anos é o que permite a um casal septuagenário ir levando a vida.

A animação noir "O Descarte" (Foto: Divulgação)

Se nos dias a seguir a programação dos curtas no CinePE mantiver o bom nível da noite de abertura do festival, com certeza valerá a pena ir ao Centro de Convenções. Esperamos também que o som no Teatro Guararapes esteja mais ajustado a partir de hoje, pois ontem ele não estava bem calibrado e atrapalhou um pouco o desempenho de áudio dos filmes exibidos.

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