LENTO, CANSATIVO E MOROSO
Longa de estréia de Mauro Giuntini mostra que o diretor não deveria ter saído do formato dos curtas
Por Fernando de Albuquerque

Exibido no primeiro dia do Cine-PE, Simples Mortais, longa do brasiliense Mauro Giuntini figurou entre uma das piores produções que foram exibidas durante o Festival. Com 80 minutos de duração, o filme mostra a história de desejo e não realização de três núcleos distintos de pessoas da classe média de Brasília. O ator Leonardo Medeiros vive um professor de literatura em crise conjugal e criativa que cede às leis do desejo ao ficar com uma aluna sexy e inteligente. Uma frustrada jornalista, apresentadora de TV, interpretada por Narciza Leão, é obcecada por ter um filho e atormenta o marido, um sexy ator de teatro com pinta de gay, nessa empreitada. Já Chico Santana e Eduardo Moraes, se entregam ao papel de pai e filho e são responsáveis pelos momentos de mais interessantes da trama sem graça.

São três histórias banalíssimas, com poucos traços de congruência e que se arrastam de uma forma cansativa e pouco criativa. O longa, que bem poderia se encaixar como um media metragem, mais parece um mamute com mais de quatro horas de duração devido à construção completamente fake das falas e cenas. A vergonha alheia chega a níveis altíssimos quando Diana, nome da jornalista apresentadora de TV, tem uma crise de riso frente às câmeras e lembra a atitude de Lílian Witfibe, anos atrás. O filme é todo produzido em cenas cortadas por cada um dos núcleos de personagens que, aparentemente, nunca se cruzam. E de fato não se cruzam. Poderíamos lembrar dessa estrutura sendo usada magistralmente em Magnólia, Babel ou mesmo 5 Frações de Uma Quase História. Ledo engano. Mauro Giuntini errou a mão feio quando tinha nas mãos um bom roteiro.

E esses erros não estão na estrutura técnica do filme cuja fotografia e trilha sonora estão corretíssimas – um adendo para o acerto da trilha de Patrick de Jongh, brasileiro com trabalho em longas estrangeiros – já que o som amarra bem as histórias e identifica bastante os conflitos de cada personagem. A principal escorregada está na própria narrativa, no arrastar de histórias que vão do nada ao lugar algum, conflitos que beiram o cômico quando, por exemplo, o filho oferece maconha ao pai, Amadeu, um musicista que toca teclado em sorveterias brasilienses e que passa a manhã jogando paciência em um trabalho burocrático.

Assim, os personagens de Simples Mortais vivem entre a vontade de realizar os sonhos (de ser um escritor de sucesso; de ter um filho; de dar um futuro ao filho) e a nua e crua realidade em que vivem. São três vidas frustradas que procuram de qualquer forma conquistar seus objetivos e acabam, a cada instante, se frustrando cada vez mais. Esse processo de decadência poderia, até, ser explorado de forma mais contundente não fosse a péssima qualidade interpretativa de alguns atores. Destaque para a personagem Diana, de Narciza Leão, que mesmo demonstrando-se fria e calculista incorpora um olhar que mais se adequaria a um doc sobre o maníaco do Parque. Aquele psicopata paulista que matou umas duas dezenas de mulheres.

Os prazeres vividos pelos protagonistas Diana, Jonas e Amadeu são vividos no campo do ilícito. Diana se refastela ao denegrir uma candidata à vaga de assistente na redação em que trabalha; Jonas tem sonhos eróticos enlouquecido pela aluna saidinha; e Amadeu concretiza seu ideário de hapiness ao dar umas baforadas no cigarro de maconha do filho. O filme termina quando todos os personagens envolvidos (Diana e seu marido, Amadeu e seu filho, Jonas e a mulher traída) se encontram no elevador residencial. Todos moram no mesmo prédio.

SIMPLES MORTAIS
Mauro Giuntini
[Brasil, 2008]

NOTA: 3,5

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