Ativistas fizeram um abraço coletivo no terreno, antes de serem atingidos com bombas da PM. (Fotos: Alexandre Figueirôa/Rev.OGrito!).

Ativistas fizeram um abraço coletivo no terreno, antes de serem atingidos com bombas da PM. (Fotos: Alexandre Figueirôa/Rev.OGrito!).

Sem medo de viver a utopia
Apesar da desocupação, resistência do OcupeEstelita segue acreditando na força da imaginação e na luta pacífica

Por Alexandre Figueirôa
Da Revista O Grito!

Durante a ocupação do terreno do Cais José Estelita até a violenta intervenção policial ocorrida na manhã de ontem, a Revista O Grito! acompanhou com atenção o que estava acontecendo no acampamento onde, por mais de 25 dias, opositores ao projeto Novo Recife viveram uma experiência política e social ímpar. Para quem esteve lá, sobretudo aos domingos, a imagem que ficará certamente é da intensa movimentação festiva dos milhares apoiadores da causa que foram ao local acompanhar os debates, oficinas, projeções de filmes, apresentações artísticas, o Som na Rural de Roger de Renor ou os shows de Karina Buhr, DJ Dolores e Otto.

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No dia a dia, porém, sem tirar nenhum mérito dos momentos de festa, é que ocorreram as vivências mais relevantes. Arquitetos, estudantes, integrantes dos movimentos sociais, artistas e moradores das favelas próximas compartilharam um cotidiano onde a vontade política de querer uma cidade melhor para todos se mesclou com o fortalecimento na crença do valor das ações coletivas e solidárias em que a imaginação e o espírito libertário inspiravam cada passo dos resistentes do #ocupeestelita.

Se no início da ocupação prevalecia uma certa desordem natural por conta do inesperado da situação, com o passar dos dias o acampamento foi estruturando, a partir do contexto enfrentado, um modus vivendi tanto para garantir sua própria sobrevivência quanto para desempenhar com serenidade a difícil tarefa de resistir sem armas à constante ameaça de expulsão violenta.

Ativistas organizaram uma cozinha comunitária. (Foto: Alexandre Figueirôa/OGrito!)

Ativistas organizaram uma cozinha comunitária. (Foto: Alexandre Figueirôa/OGrito!)

A área do antigo parque da Rede Ferroviária Federal (RFFSA) não dispõe de infraestrutura com energia, água potável e rede de esgoto e, de uma hora para outra, viu nascer em seu seio uma comunidade com dezenas de pessoas fixas ou em revezamento, abrigadas em barracas de camping. Coisas corriqueiras como comer, beber, fazer as necessidades físicas, proteger-se, não eram tão simples no Estelita, mas a perseverança, a criatividade e o desejo de mostrar que um Recife feito pelos recifenses é possível levou a superação dos obstáculos.

Caminhando pelo acampamento e vendo a cozinha comunitária que foi construída, os espaços de convivência, os banheiros de fossa seca, a caixa d’água, as inúmeras intervenções artísticas, ficou claro que os trabalhos desenvolvidos pelos ocupantes do Estelita tiveram como eixo o exercício da ação coletiva. A diversidade de opiniões, atitudes, visões sobre o próprio movimento são sempre postas em discussão nas assembleias diárias realizadas pelo grupo para se chegar a decisões que atendam ao interesse comum dos comprometidos com a causa. Lembrando que o #ocupeestelita não se resume aos acampados, mas todos os envolvidos nas ações externas diretas e os apoiadores que atuam principalmente nas redes sociais.

Para resolver problemas logísticos foram criadas diversas comissões que ficaram encarregadas de conduzir as decisões das assembleias nas questões de estrutura, alimentação, atividades culturais, segurança, comunicação. Mas uma das coisas que chamava a atenção antes da invasão policial era o vai e vem constante dos acampados, independentemente se eles integrassem uma comissão ou não, procurando soluções para cada novidade surgida. Erguer um depósito para guardar material e ferramentas, melhorar a coleta do lixo, propor a ordenação da distribuição das barracas e também contrabalançar o trabalho duro com as horas de diversão.

Ativistas limparam o terreno e fizeram horta. (Foto: Alexandre Figueirôa/OGrito!)

Ativistas limparam o terreno e fizeram horta. (Foto: Alexandre Figueirôa/OGrito!)

E foi interessante observar a interação entre pessoas mais experientes nas lutas sociais e os que estão dando os seus primeiros passos nesse tipo de mobilização. Trabalhando lado a lado de forma espontânea sem impor obrigações, deixando que cada um descubra que cada atitude pessoal tem reflexo no grupo é um aprendizado marcante como observou uma jovem estudante que revelou seu encantamento pela oportunidade de viver a experiência da construção compartilhada. Entusiasmo também demonstrado por uma professora que aproveitou as férias para se oferecer como voluntária na organização da cozinha ou o artista plástico que construiu uma casa numa das poucas árvores frondosas do lugar.

Militantes de causas sociais mais tarimbados, presentes entre os acampados, ressaltaram também que o #ocupeestelita está sendo, para muitos dos que lá estão, a chance de conviver com as diferenças e de estar sempre aberto para acolher os que chegam e não exclui-los. O exemplo evidente se deu sobretudo na aproximação com os moradores de um conjunto de casebres que margeia a linha do trem nas proximidades ou os habitantes do bairro do Coque. Muitos jovens desses locais passaram a frequentar o Estelita e foram acolhidos sem nenhum problema e, aos poucos, eles estavam sendo integrados às atividades educacionais planejadas para acontecerem no acampamento.

Conflitos e desentendimentos obviamente surgiram durante os dias de ocupação, mas em nenhum momento eles ameaçaram a unidade dos propósitos maiores da luta uma vez que divergências ideológicas e de comportamento é a base de qualquer sociedade efetivamente democrática. O problema maior mesmo eram as agressões vindas de fora como os rojões que foram atirados contra o acampamento numa madrugada ou a ameaça armada feita por um novo segurança do trem do forró.

Acampamento durou 28 dias. (Foto: Alexandre Figueirôa/OGrito!)

Acampamento durou 21 dias. (Foto: Alexandre Figueirôa/OGrito!)

E chamar os acampados de desocupados como insistem os defensores do Novo Recife é uma bobagem, sobretudo quando observamos as benfeitorias que estavam sendo feitas quase constantemente e outras ações como preparar o terreno para cultivo de uma horta ou ir até a Ceasa buscar doações de alimentos. Acusá-los de maconheiros como muitos fazem nas redes sociais é outra tolice, pois para ver gente fumando maconha não precisa ir ao Estelita. Dos bairros pobres às festas, shows frequentados pela classe média no Recife o que mais vamos encontrar é gente que gosta de queimar um baseado.

Agora, obrigados a acampar no lado de fora do Estelita sob os viadutos na Cabanga, os resistentes terão que se adaptar às novas condições impostas pela expulsão, sem contar a tensão constante que reinará por conta da truculência empregada pelas forças policiais e que resultou em vários presos e feridos nesta terça (17). Contudo, pelo fôlego demonstrado até o presente, a luta continuará.

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