A SATISFAÇÃO DA MÚSICA PÓS-MODERNA
Primeiro disco de Avey Tare não desaponta fãs de Animal Collective

Por Lidiana de Moraes
Colaboração para a Revista O Grito!

Nos últimos anos, dificilmente uma banda foi tão unânime com o público e a crítica quanto o Animal Collective. Claro que não é qualquer pessoa que consegue sobreviver a uma sessão sonora do grupo, mas junto aos membros da famigerada categoria indie, eles são a excelência musical dos anos 2000, com uma representação semelhante a que o Sonic Youth criou com seu público nos anos 90.

MP3 | Avey Tare “Lucky1”

Depois do sucesso de Merriweather Post Pavilion – apesar de uma trilha sonora que passou em branco para muitos – os fãs de Animal tiveram a felicidade de serem presenteados com dois discos de integrantes da banda: um do Panda Bear (projeto já estabelecido de Noah Lennox) e o primeiro disco de Avey Tare, codinome de David Portner. Mas é a novidade de Portner que nos importa neste momento.

Antes de qualquer coisa, se você nunca teve interesse em Animal Collective e não conseguiu digerir com satisfação nenhum dos trabalhos do grupo, mantenha a distância de Down There. Ao contrário do que muitos artistas saídos de grupos tentam fazer – comercializar o trabalho para ser bem sucedido em carreira solo – Portner não teve essa intenção, mesmo porque em momento algum em sua trajetória demonstrou o desejo de ser rico, famoso e tantos outros clichês que cercam o mundo da música.

Já na primeira canção, “Laughing Hiereogliphic”, temos o prenuncio de um caminho tortuoso a partir de uma voz que parece a de um demônio ubíquo prestes a nos conduzir pelos lugares mais assustadores do submundo. Depois que o susto passa, o disco entra em uma atmosfera mais suave – em alguns instantes atinge o nível máximo de silêncio possível para uma canção – mas nem por isso é menos transtornadora. Down There não é um disco para ser ouvido com os amigos (bem, depende de quem seus amigos), nem para fazer festa ou sonhar acordado. A atmosfera musical abafada é capaz de apavorar os piores claustrofóbicos, mesmo que em alguns instantes (mínimos, mas existentes) algumas notas nos dêem certa sensação de alegria, como se um sorriso estivesse próximo de tomar o nosso rosto.

É bem provável que boa parte dos jovens que passam o dia inteiro na internet procurando o mais novo nome da música, dêem de cara com Avey Tare e sejam atraídos por um tipo de estranheza presente nas canções deste disco. No entanto, boa parte desses ouvintes de primeira viagem vão descobrir que ainda não estão prontos para entender canções como Cemeteries e Oliver Twist. Agora depende de você decidir se embarca em Down There ou deixa para uma próxima.

AVEY TARE
Down There
[Paw Tracks, 2010]

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