Fotos: Igor Marques para a Revista O Grito!

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Poltronas, cadeiras de praia, baldes de manteiga e almofadas serviram de assento para quem conferiu no último fim de semana algum dos três shows da banda gaúcha Apanhador Só, realizados no andar onze do Edf. Pernambuco, no centro do Recife, e que integram a turnê “Na Sala de Estar”. Cheio de elementos sonoros psicodélicos e desconfortavelmente consistentes, construídos a partir da fusão de riffs, samples, um ralador de queijo, um aro de bicicleta e outro tanto de “sucata”, o grupo lembrou o porquê de vir se destacando tanto no atual cenário musical do país.

O setlist, formado por faixas dos álbuns homônimo (2010), do premiado Antes Que Tu Conte Outra (2013) – executados quase na íntegra – e, ainda, as duas faixas do EP Paraquedas (2011), pareceu ensaiado com o público, que cantou tudo e não deixou de cobrar as canções deixadas de fora. O segredo talvez esteja na relação direta da banda com seus seguidores e fãs, estes quase coadjuvantes nos últimos três anos.

Familiarizada com as novas possibilidades mercadológicas, a Apanhador Só comemorou em julho deste ano o sucesso de sua segunda campanha crowdfunding. Se na primeira eles financiaram o segundo álbum, nesta arquitetaram um plano que envolvia comprar um carro e um reboque para circular por diversas cidades no país realizando uma centena de shows em salas de estar ou espaços menores para até cento e cinquenta pessoas.

O itinerário teve início em agosto e deve seguir até meados de abril ou início de maio do ano que vem, no máximo, quando eles pretendem vender o carro e o reboque para, com o dinheiro, iniciar a gravação do seu terceiro álbum. Toda essa correria está sendo registrada pelo Antônio Ternura, cinegrafista que tem acompanhado o grupo. A ideia é que, em até três meses posteriores ao fim da turnê, seja lançado um documentário com produção e direção do Henrique Schaefer.

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Conversamos com o guitarrista Felipe Zancanaro, que nos falou sobre a turnê e o próximo álbum da Apanhador Só.

Como surgiu a ideia do “Na sala de estar”?
A ideia foi elaborada durante quase dois anos, quando fizemos o crowdfunding para financiar o Antes Que Tu Conte Outra. Uma das recompensas era o que chamamos de “acústico-sucateiro” na casa dos apoiadores, onde a gente ia tocar só com sucatas e violão. Vendemos mais de sessenta dessas, uma das grandes responsáveis pelo êxito do projeto. A experiência também nos despertou a primeira sensação do quão valioso era estar próximo e tocar muito perto das pessoas interessadas no que a gente faz e do quanto elas também eram uma experiência muito importante – o quanto é marcante e mais forte do que acontece em shows maiores. Daí foram quase dois anos entendendo e formulando como poderia existir um formato assim, intermediário entre o mais acústico e o mais estardalhaço com som potente e arranjos mais sofisticados.

Isso não seria caminhar na contramão?
É interessante pensar sobre isso. A turnê tem a ousadia de botar toda uma e­­strutura que é quase mambembe num reboque, que vai estragando pelo caminho e às vezes precisamos parar, consertar e, com saudade de casa, seguir. Penso que tem muita coisa preestabelecida sobre o que significa uma banda fazer sucesso. Isso de tocar para multidões, aparecer em certos veículos ou estar diante de um público onde todo mundo sabe quem tu é e o que tu faz é algo cristalizado. Tem vários caminhos possíveis a se trilhar, ao invés de depender exclusivamente dessas gravadoras que morreram, mas não deitaram ainda. Nesse sentido, acho que é vista para frente e não contramão.

Como tem sido realizar as coisas via financiamento coletivo?
Uma alternativa maravilhosa. Como a gente estava falando, tem toda essa lógica que bloqueia o desenvolvimento de um artista novo e o crowdfunding corta o que bloqueia e nos coloca em contato direto com quem está interessado. E é bom que a dinâmica seja outra. Por exemplo, acho que faz um tempo que não mandamos discos para a distribuidora e eles têm estado bem menos presentes nas grandes lojas. As pessoas estão mudando o modo como elas se interessam em consumir, compram mais pela internet e a nossa lojinha é um grande complemento financeiro para a coisa andar, enquanto que para vender numa grande loja, “eles ficam com cinquenta [reais] e a gente com doze”. Estranho, né? No meio do caminho todo mundo fica com tanta coisa.

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Um dos compromissos dessa última campanha crowdfunding é a gravação do próximo álbum. Há algo em vista?
A turnê acaba em abril ou maio do ano que vem, no máximo. Depois disso a gente deve tirar um leve descanso, vender o carro, o reboque e com a grana entrar no estúdio. Pelo tempo que um disco leva para amadurecer e ficar pronto, devemos lançar em 2017. Conceitualmente é uma coisa extremamente aberta. Como no último apontamos coisas que achamos que não estão legais, talvez no próximo possamos propor soluções, refletir, enfim, não sei. Pessoalmente, estou um pouco cansado da coisa do ruído. Adoro coisas com texturas complicadas, mas ao mesmo tempo não acho que essa precisa ser a única saída. Talvez possam vir coisas mais limpas, talvez sobreposições mais discrepantes e não necessariamente conflituosas.

E como se dá todo o processo criativo? É fluído ou pretensioso?
É caótico. No Antes que tu conte outra fizemos um retiro criativo para experimentar e daí que vieram conceitos como ruído, desconforto, desassossego, enfim, tudo que acabou estando no disco. Mas eram correntes muito abertas que só fomos entender quando estávamos quase terminando. Somos de experimentar e cada um tem um processo muito diferente. Às vezes ficamos fritando em algumas músicas, como “Mordido”, por exemplo. Ela talvez tenha, conceitualmente, um dos arranjos mais complexos do disco e só “cuspimos”. Tinha sido recente uma treta foda em Porto Alegre, tinha a copa, aconteceram privatizações de espaços públicos para empresas da pior espécie e uns amigos nossos estiveram envolvidos nas manifestações. A gente estava longe, na pré-produção, fomos lá e cuspimos o arranjo.

Esse disco, então, é bem caótico.
Pois é! Todo mundo toca muitas coisas e tem muitos elementos. Ao vivo tem menos coisas do que quando foram gravadas. No show de lançamento, o técnico de som ficou completamente louco. Eram muitos canais e não tínhamos mesas [de som] que podiam aportar tantos canais quanto a gente precisava. Era uma passagem de som enorme, muito maior que o show. A gente levava duas horas e tinha uma montagem demoradíssima. Hoje montamos mais rápido, mas tivemos de ensaiar quase um mês para conseguir torna-lo possível. Algo muito desafiador.

[risos…]
É uma labuta! Por isso é até bizarro pensar que o artista, como uma pessoa que trabalha, sob a melhor perspectiva da palavra trabalho, seja tão desvalorizado e tratado como vagabundo no país. Apesar disso, é preciso se expor mesmo, se tornar ridículo, experimentar, fluir também, ver o que acontece, se provocar, discutir, brigar, às vezes, entende? E, em todo esse processo, por vários caminhos possíveis, inúmeras obras e possibilidades artísticas se formam.

Para encerrar, o que tem tocado no carro da turnê?
Muitos dos discos que a galera tem dado nos lugares por onde passamos e, ultimamente, muito James Blake. É uma coisa louca porquê todo mundo gosta de coisas muito diferentes, mas, ao mesmo tempo, compartilha muito.

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