André Dahmer (Foto: Divulgação)

HUMOR PARA OS FORTES
Com sátiras provocantes e termos fora do padrão literário, André Dahmer  ilustra e escreve o roteiro de A Cabeça é a Ilha, recém lançado pela Desidrata
Por Lidianne Andrade

A arte de fazer rir com a realidade é para poucos, mas o quadrinista André Dahmer a possui como um sexto sentido. Suas ‘sacadas’ inteligentes vão desde amor platônico até vícios como o fumo e por mulher, ambos em igual valor e presentes em suas famosíssimas tiras na Internet “Os Maldados” (http://www.malvados.com.br). Esta semana, fãs de seu humor ácido podem conferir nas livrarias dois anos de trabalhos inéditos do artista com o lançamento do livro A Cabeça é a Ilha (Ed. Desiderata, 152 páginas).

O livro vem com ótimo acabamento gráfico e tem roteiro e ilustração com assinatura do André Dahmer. Traz uma coletânea do que o artista vem produzindo de melhor nos últimos dois anos, com os personagens como o náufrago desolado, o louco apaixonado por Renata e seu alterego, mais sarcástico que nunca com os jornalistas.

Para quem busca um humor leve, uma leitura feliz para bebericar-se na volta para casa de ônibus, esqueça A Cabeça é a Ilha. As tiras reforçam o estilo consagrado no site e nos últimos três livros de Andre: o humor sarcástico, por vezes pornográfico. Tesão, masturbação, sexo anal e oral são termos constantes e seus apelidos vulgares nas tiras. Afinal, quem nunca amou e se humilhou por ao menos um esbarro na esquina com o amado? Com tanta acidez em um tema tão corriqueiro, dá até para sentir-se culpado pela desgraça de Ulisses.  Dá pena ver o cara procurando um disk-sexo para contar como foi seu dia.

Em suas críticas ferrenhas, Dahmer não desafina o lápis nem para si mesmo, mostrando sua entrega ao álcool por conta de uma desilusão amorosa. Uma alfinetada aqui e outra ali, sobra até para os jornalistas, talvez fruto de suas experiências pessoais em trabalho com redação. “Agora eles são donos da minha vida, Arnaldo”, diz o André das tiras. “Bobagem, Dahmer. Eles não podem tomar algo que você não tem…”, é a resposta.

Em cada tira uma critica, em cada palavra uma tapa no rosto da carapuça que conseguir se vestir bem. A série 2035 mostra o futuro próximo do mundo, com natureza morta por conta dos nossos governantes. A mulher submissa merece uma série especial, com a pobre Sara sendo maltratada por um atrás do outro, em busca do amor da sua vida.

Para lembrar as porcarias do dia a dia, do egoísmo do homem e atrocidades cometidas por muitos, nada melhor que dá uma longa folheada em A Cabeça é a Ilha. Os que se sentirem incomodados com alguns termos, é só lembrar: viemos todos do ato sexual e a posição “cachorrinho” não é invenção do autor.

Serviço:
A Cabeça é a Ilha

Editora Desiderata, 152 páginas, R$ 34,90

André Duhmer (Autoretrato)Ilustrador escreve sem censura e faz sucesso na Internet

Com pouco mais de oito anos dedicados aos quadrinhos, Andre Dahmer considera-se novo no meio das artes, mesmo com vasto currículo. Tem tiras e ilustrações publicadas no portal G1, no jornal Folha de São Paulo, nas revistas Caros Amigos, piauí e Sexy, no Jornal do Brasil e muitos outros veículos, mas seu meio de comunicação preferido é sem sombra de duvidas a Internet. “Acho rede uma ferramenta poderosa, o problema é saber se quem usa tem miolos poderosos também”, comenta André, em entrevista a Revista O Grito!

Carioca, André (nascido em 14 de setembro de 1974) tem formação em Desenho Industrial. Começou com a pintura, onde encontrou uma maneira de extravasar toda a sua energia. Repetiu na escola alguns anos, teve problemas com crianças e até visitou terapias, mas sem sucesso, para seu excesso de energia. “Eu era aquele clássico garoto grande demais em uma turma de crianças pequenas”, conta.

Tudo curado quando entrou na Escola de Artes de Maria Teresa Vieira. Desistiu do curso pelo rigor da instituição, mas achou na pintura a sua arte e foi cursar Desenho Industrial como complemento. Pelo ambiente universitário conheceu um professor, apelidado futuramente de ‘seu salvador’ Urian Agria, que mandou Dahmer jogar fora a borracha e ensinou uma lição que adotou como lema: “Quem pensa, não pinta; quem pinta, não pensa”.

Seguiu pela pintura onde permanece até hoje, mais esporadicamente. “Nunca decidi viver de quadrinhos. Minha paixão era a pintura e o meu hobbie as HQ’s. Em um certo momento comecei a ganhar grande visitação na Internet com os meus Malvados e apareceram jornais e revistas interessados em publicar meu trabalho. Mas pinto ainda hoje, para sempre vou pintar”, declara o André artista plástico.

Seu trabalho ganhou repercussão nacional em 2001 através da Internet com o site Malvados, uma página que merece ser visitada. Sem muita conexão entre o nome e a função de cada botão, a página virtual é um acervo de oito anos de tiras e até uma loja virtual, com venda de camisas, cinzeiros, entre outros suvenires com os desenhos dos personagens. 

Sem pudor – André não nega: escreve o que quer e quando quer. “Não trabalho com freios, ao contrário. Não há como pensar ‘ah, isso vai pegar mal’ e fazer humor de qualidade o mesmo tempo. Não é assim que funciona…”, comenta. Nota-se pela quantidade de palavrões e referências sexuais em seus textos, mas sem aparentemente incomodar a ninguém, pois o site notifica mais de dois mil acessos ao mês.

Seu processo de produção é bem simples, trabalha sem borracha e com caneta Unipin 0.5. Depois digitaliza a imagem e monta a tira no Photoshop, em média 30 minutos de trabalho por tira. Brancos criativos? “É raro acontecer, mas todo mundo passa por isso, é natural”, diz Andre.

Depois de A Cabeça é a Ilha, muito se pode esperar de André Dahmer e ainda para este ano. Continua na venda de lembrancinhas em seu site, um sucesso nacional. “Minha esposa não agüenta mais ir aos correios”, comenta. “Devo entregar no final do ano um livro de poemas e um romance, ambos ainda sem nome”, confidencia. Enquanto isso, acessar www.malvados.com.br é uma boa pedida.

Para acessar:
Site Os Malvados – www.malvados.com.br/
Acompanhe pelo Twitter: http://twitter.com/malvados

LEIA ABAIXO ALGUNAS TIRAS DO ANDRÉ

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