Milton Hatoum (Foto: Divulgação)

AS TERRAS DE HATOUM
Tal como outros escritores consagrados, o autor de “A Cidade Ilhada” narra a pluralidade e os mistérios da cidade de Manaus em contos pra lá de passionais
Por Danielle Romani

A CIDADE ILHADA
Milton Hatoum
[Companhia das Letras, 128 págs, R$ 31]

A Cidade Ilhada (Foto: Divulgação)Um homem pode mudar seus gostos e opções após percorrer e vislumbrar outras culturas, cidades, países. Mas a argamaça que unira este mosaico de visões, afinidades, identidades, será sempre forjada no passado. Matéria primeira, original, elaborada em anos distantes, e que ocasionalmente lhe fará, de um golpe, lembrar de cores e de falas perdidas no tempo, do calor ou frio de tardes longíquas; das primeiras brincadeiras, do primeiro amor, do primeiro medo… Um homem será sempre moldado pela terra em que nasceu. Ame-a ou deteste-a. Busque-a ou passe toda a vida fugindo dela.

Tive esta sensação logo após terminar de ler o último conto de A Cidade Ilhada, de Milton Hatoum, recém-lançado pela Companhia das Letras. Pelo motivo óbvio: como Bandeira, Rosa, Drummond, Veríssimo, o escritor manauense não foge à sina, nem nega o que o passado lhe reservou, de mostrar ao mundo as facetas de sua terra, no seu caso, as delícias, paisagens, cheiros e sotaques dos que foram feitos na diversidade, calor e intempéries da amazônica Manaus. “Para onde vou, Manaus me persegue”, admite o próprio Hatouam, no conto “Uma carta de Brancoft”, em que narra a descoberta de uma missiva de Euclides da Cunha depositada, ironicamente, numa distante biblioteca norte-americana. Texto, diga-se de passagem, onde o autor que narrou a saga de Canudos, foca não a beleza e resistência dos sertões, mas á impenetrabilidade e mistérios da amazônia.

E essa é apenas uma das passagens em que o leitor poderá desvendar um pouco a face desta cidade, Manaus. E excetando a curiosa descoberta – que tudo indica ser verídica, uma carta…… é um bom conto, mas nem é o melhor do livro. No meu caso específico, três narrativas fisgaram minha emoção e me transportaram para o universo muito próprio de Hatoum. Entre todos, “Dançarinos Na Última Noite” (Os outros dois são “As Varandas de Eva” e “Uma Estrangeira da Nossa Rua”) me fez vislumbrar o prazer de viver e amar nessa terra. De como o calor, a floresta e a paixão podem ter um sabor muito próprio, na longidão manuense. Tendo a selva como cúmplice, amar deve ser uma experiência inebriante.

Preferências e afinidades à parte, todos os contos do livro são envolventes, certamente pela forte carga passional despejada por Hatoum, mas também porque à emoção ele alia uma técnica precisa, elegante, concisa. A Cidade Ilhada é um livro que nos transporta a uma cultura e cidade fascinante, contado por um autor que conhece cada palmo do lugar que ama e onde durante décadas viveu (hoje mora em São Paulo). Que sabe mostrar tanto os trejeitos dos da terra, como os milhares de estrangeiros e aventureiros de muitas nacionalidade – ora ingleses, ora japoneses, ora indianos, que perambulam pelo lugar, sejam em busca de riquezas e oportunidades, sejam atraidos pelos mistérios dos seus rios e floresta. Um belo livro, que traduz com propriedade a magia amazônica.

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