Foto: Alan Rodrigues/Divulgação.
A cena drag pernambucana vive um momento de intensa criatividade, expansão e articulação coletiva. Nos últimos anos, artistas locais têm buscado não apenas ocupar palcos, mas também construir espaços próprios de visibilidade, circulação e reconhecimento para a arte drag como linguagem artística e produção cultural. Nesse contexto, surgem iniciativas que ultrapassam o formato tradicional de festas e performances pontuais, apostando em projetos estruturados que fortalecem a cena e ampliam oportunidades para novas e antigas artistas.
É nesse movimento que nasce o Phenomena Drag, uma plataforma criada por artistas da própria cena do Recife com o objetivo de valorizar, profissionalizar e conectar a arte drag no estado. Unindo performances, eventos temáticos, formação de público e iniciativas de estreia para novas artistas, o projeto se propõe a construir comunidade e criar um ecossistema mais sustentável para a cultura drag no Nordeste. “A ideia do Phenomena nasceu em 2024, depois de uma viagem que fiz ao Rio de Janeiro”, relembra Lea Farsaid, que integra o grupo ao lado de Mia J, Norman Bancks, Mayven Hoax, Lola Bllum, G Amazone e Holly Glory. As artistas queriam criar uma balada para dar visibilidade a este tipo de arte nos eventos locais.
“Fiquei muito impactada com a força da cena independente de lá, principalmente com movimentos como o Drag Sunset, que é um espaço ocupado e construído pela própria comunidade, muitas vezes por artistas da periferia, para exibir performances de todos os estilos. Aquilo me atravessou profundamente. Eu pensei: por que a gente ainda não tem algo assim em Recife?”, reflete Farsaid.
Para entender como essa iniciativa surgiu, como funciona sua construção coletiva e quais impactos já vem provocando na cena local, conversamos com integrantes da equipe responsável pelo Phenomena Drag. Na entrevista a seguir, em nome do grupo, Lea fala sobre os bastidores do projeto, os desafios de produzir arte drag no Nordeste e os planos para ampliar ainda mais o alcance da plataforma.
Como surgiu a ideia de criar o Phenomena Drag e qual era a principal lacuna na cena drag pernambucana que vocês queriam preencher?
A ideia do Phenomena nasceu em 2024, depois de uma viagem que fiz ao Rio de Janeiro. Fiquei muito impactada com a força da cena independente de lá, principalmente com movimentos como o Drag Sunset, que é um espaço ocupado e construído pela própria comunidade, muitas vezes por artistas da periferia, para exibir performances de todos os estilos. Aquilo me atravessou profundamente. Eu pensei: por que a gente ainda não tem algo assim em Recife?
Aqui sempre existiu talento, muita criatividade e potência, mas faltava um espaço estruturado, contínuo e pensado estrategicamente para criar oportunidade, acolhimento e visibilidade. Quando voltei, convidei drags da cena que eu admiro e confio, para construirmos juntas um espaço fora da curva, que realmente mexesse na estrutura da cena e não só na agenda do fim de semana. Em 2025, nasceu o Phenomena Drag.

O projeto é conduzido por vários artistas da cena local. Como funciona essa construção coletiva na prática?
A gente constrói tudo juntas. Não é uma produção que contrata drags, são drags produzindo para drags. Eu, Mia J, Norman Bancks, Mayven Hoax, Lola Bllum, G Amazone e Holly Glory estamos envolvidas diretamente nas decisões, na curadoria, na criação dos formatos, na articulação com parceiros e na direção artística.
Cada uma possui seu papel dentro do nosso ecossistema. Isso muda completamente a lógica, porque as decisões vêm da vivência. A gente sabe o que falta, o que dói e o que é urgente. Existe muita troca, muita escuta e também muita responsabilidade. Não é simples, mas é muito potente quando você entende que está construindo algo coletivo e com propósito.
De que forma o Phenomena se diferencia de outros eventos ou projetos ligados à arte drag em Pernambuco?
A diferença é que o Phenomena não é só um evento, é uma plataforma. A gente pensa em vários pontos como oportunidade, diversidade, circulação, ocupação de espaços tradicionais da cidade e inovação cultural. Quando a gente faz uma watch party de Drag Race Brasil, por exemplo, não é só para assistir ao programa, é para transformar aquilo em experiência cultural com performance, interação e direção artística.
Existe uma intenção de construir nossa cena a longo prazo. Não é sobre um hype momentâneo, é sobre legado e continuidade.
Vocês definem o Phenomena como uma plataforma de valorização da arte drag. O que isso significa na prática para as artistas envolvidas?
Significa palco, mas também significa respeito. Significa cachê, visibilidade, estrutura e um público que vai para assistir drag como arte e não como intervalo da festa. Já passaram mais de 40 drags pelo nosso palco, e artistas como Titânia The Witch e Drynna Vox fizeram sua estreia no Phenomena. Hoje elas estão alcançando outros espaços, outros públicos e novas oportunidades Para nós, valorização é isso: criar condições para que uma artista comece e consiga continuar.
O Brunch Phenomena foi um dos formatos que deram origem ao projeto. Como esse evento ajudou a criar comunidade em torno da cena drag?
O brunch foi onde tudo começou. Ele tem uma energia diferente da noite, é mais solar, mais próximo e mais íntimo. O público realmente vai para assistir. Hoje a gente recebe em média 200 pessoas por edição, e já passaram cerca de mil pessoas pelos nossos eventos entre brunch e watch parties.
O brunch criou pertencimento. As pessoas se reconhecem ali, as drags se conhecem, trocam e se apoiam. E foi dentro dele que nasceu o Debut.
Existe uma intenção de construir nossa cena a longo prazo. Não é sobre um hype momentâneo, é sobre legado e continuidade.
O quadro Debut revela artistas que nunca haviam se apresentado antes. Como é acompanhar esse primeiro contato de novas drags com o palco?
É muito emocionante. É um misto de nervosismo, coragem e transformação. Você vê uma pessoa que talvez nunca tenha se sentido validada artisticamente ocupar um palco, ser aplaudida, fotografada e reconhecida.
E o mais bonito é acompanhar depois, ver que aquela estreia não foi um evento isolado, mas o início de uma trajetória.

Mais de 40 drag queens já passaram pelo palco do projeto. Que transformações vocês perceberam na cena local a partir dessas experiências?
Eu sinto a cena mais confiante e mais profissional. As artistas estão pensando mais em direção artística, posicionamento e carreira. Existe uma noção maior de que drag é trabalho, linguagem artística e produção cultural.
Também percebo mais união. O Phenomena ajudou a criar rede, e rede é o que sustenta qualquer movimento cultural.

A watch party de Drag Race Brasil no Club Metrópole transformou a boate em um espaço de exibição e performance. Como foi a recepção do público?
Foi muito especial. Realizamos 10 watch parties no Club Metrópole, com média de 120 pessoas por noite. O Club Metrópole foi quem abriu as portas para que a gente pudesse dar vida a esse projeto, e somos profundamente gratas por ter sido no maior e mais emblemático espaço da vida noturna LGBTQIAP+ de Recife.
A boate virava praticamente um cinema drag. Cada episódio da segunda temporada de Drag Race Brasil era um evento, com performance, interação e celebração coletiva. O público entendeu a proposta e abraçou a experiência cultural.
Qual a importância de ocupar espaços tradicionais da vida noturna LGBTQIAP+ com eventos que também têm caráter cultural?
É sobre legitimação e memória. Quando ocupamos espaços históricos da vida LGBTQIAP+ da cidade com um projeto cultural estruturado, estamos afirmando que drag é arte, é produção cultural e é patrimônio vivo.
Principalmente sendo nordestinas. A arte drag do Nordeste ainda luta por reconhecimento nacional, então ocupar esses espaços com protagonismo é também um ato político e cultural.


Vocês pretendem expandir esse formato de watch party para outras cidades ou eventos?
Sim. Estamos desenhando novas edições com formatos renovados e pensando expansão para outras cidades do Nordeste. A ideia é fortalecer a região como polo criativo e construir oportunidades aqui, sem depender exclusivamente do eixo Sudeste para validar o nosso trabalho.
O projeto também propõe profissionalizar a cena drag. Quais são hoje os maiores desafios para que artistas drag consigam viver de sua arte?
O maior desafio ainda é o reconhecimento. A arte drag muitas vezes é vista como entretenimento descartável, e não como linguagem artística legítima. Quando falamos de Nordeste, essa marginalização se intensifica.
Faltam políticas culturais específicas, investimento contínuo, editais que compreendam nossa linguagem e circuitos regionais consolidados. As maiores oportunidades ainda estão concentradas no Sudeste, e isso cria um desequilíbrio estrutural.
O formato Phenomena Night Edition busca integrar performances drag em festas da cidade. Como isso amplia oportunidades de trabalho?
Ele cria circulação e visibilidade. A gente leva DJs drags, performances temáticas, apresentação e conceito para festas que já têm público consolidado, o que abre novos contratantes, novos públicos e novas possibilidades de cachê.
É uma forma de inserir a experiência drag em diferentes circuitos culturais da cidade e fortalecer a presença artística de forma estratégica.
Existe hoje um mercado mais estruturado para artistas drag no Nordeste?
Existe potência, mas ainda não existe estrutura suficiente. O Nordeste é berço de cultura, referência estética, narrativa, resistência e muita criatividade. Temos sangue nos olhos e muita capacidade de inovação.
Mas ainda somos marginalizadas dentro do contexto nacional, e o mercado mais consolidado está no Sudeste. Uma das nossas propostas com o Phenomena é justamente fortalecer nossa região, criar oportunidades aqui e valorizar os talentos locais, para que as drags nordestinas tenham reconhecimento, circulação e remuneração justa sem precisar sair do seu território para existir artisticamente.
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