A paixão entre o jovem professor de literatura Gabriel e o garoto de programa Adriano é o mote do longa Ruas da Glória cuja estreia nas salas de cinema acontece nesta quinta-feira. Dirigido por Felipe Sholl e ambientado no centro do Rio de Janeiro, nos bairros da Glória e Lapa e na Cinelândia, o filme acompanha a relação arrebatadora entre os dois rapazes, mas que rapidamente se transforma em obsessão. Quando Adriano (Alejandro Claveaux) desaparece, Gabriel (Caio Macedo) inicia uma busca que o leva a mergulhar no universo da prostituição, onde ele vai descobrir personagens que marcam profundamente seu olhar sobre a própria vida.
Sholl tem no seu currículo diversos roteiros, curtas e longas premiados, entre os quais Fala Comigo, Melhor Filme no Festival do Rio de 2016. Neste seu novo trabalho, o cineasta criou uma história com elementos de sua vida pessoal, mas que aos poucos ganhou uma dimensão mais ampla ao focar na questão da aceitação da homossexualidade, reflexo direto do momento em que a trama foi concebida durante o retrocesso do governo de extrema-direita que esteve no comando do país entre 2018 e 2022.
Conversamos com Sholl e ele nos contou detalhes da concepção e realização de Ruas da Glória.
Pela narrativa de Ruas da Glória percebemos que o filme tem como motivo principal o processo de aceitação da própria homossexualidade que, mesmo nos dias atuais, nem sempre é fácil. No filme ela se dá em três momentos: o protagonista Gabriel deixando sua terra natal por uma cidade maior, carregando consigo a memória de sua avó que o compreendia, o encontro com o garoto de programa Adriano e a paixão avassaladora que o domina e a queda na real quando encontra finalmente quem o acolhe. Essa trama tem traços de sua vida pessoal ou é fruto de observação do drama ainda vivido por muitos jovens gays?
O filme é muito baseado na minha vida e nas minhas experiências, mas essa questão, da aceitação da própria sexualidade, tem menos a ver comigo. Ao contrário do Gabriel, eu cresci numa família acolhedora, que sempre lidou bem com a minha sexualidade. Quando eu era mais novo eu tinha problemas de autoaceitação, mas era uma coisa mais profunda e mais difusa, menos ligada à minha sexualidade. Quando fui transformar esse material muito pessoal em um flime de ficção, achei que cabia trazer essa trama da aceitação da homossexualidade, por causa do momento em que esse filme foi concebido. Foi durante o governo Bolsonaro, em que tivemos retrocessos institucionais que causaram retrocessos na subjetividade das pessoas. Essa história do jovem gay que não se aceita, por exemplo, que estava ficando mais rara, voltou a ser comum, infelizmente.

Entre as pessoas gays mais experientes é comum ouvi-las dizer: “nunca se apaixone por um garoto de programa”. Ao abordar a relação de um jovem professor de literatura com um prostituto uruguaio e o amor intenso, mas perturbado, que surge entre eles, o filme dá razão a essa afirmação ou busca complexificá-la?
A intenção não era de jeito nenhum simplesmente validar essa afirmação. Tanto que temos no filme exemplos de relações saudáveis de Gabriel com trabalhadores do sexo, como Mateus e Roger. Esses profissionais ainda são vistos com muito preconceito pela sociedade, e a minha intenção com o filme é mostrar todos os lados dessa história, desmistificando a visão sobre garotos e garotas de programa. Isso posto, é claro que em todas as profissões existem pessoas desonestas ou mal-intencionadas, então é sempre bom ter cuidado.
Uma das questões que Ruas da Glória levanta é como as relações hoje estão mudando por conta dos aplicativos de encontros. O esvaziamento de lugares clássicos de paquera e caça de clientes pelos garotos de programa como a Cinelândia é uma delas. Com seu filme você quis reavivar a intensidade que existe nos encontros físicos e presenciais e como eles estão se tornando frios e distantes por conta do mundo virtual?
Exatamente. Quando o cliente do Gabriel, interpretado pelo Wilson Rabelo diz “eu sou um sujeito analógico”, ele está ecoando minhas palavras. Eu me considero um romântico, coisa que acho que está bem presente em todos os elementos do filme. Essa migração dos pontos de prostituição e e de pegação para os aplicativos é inevitável, porque um garoto de programa que faz ponto na rua está se expondo a todo tipo de risco. Mas existe uma certa melancolia em ver esses espaços físicos que antes eram cheios de vida ficarem esvaziados.
Esses profissionais [do sexo] ainda são vistos com muito preconceito pela sociedade, e a minha intenção com o filme é mostrar todos os lados dessa história, desmistificando a visão sobre garotos e garotas de programa.
O roteiro acompanha Gabriel em uma busca desesperada por Adriano e com isso atravessa diferentes experiências e personagens da vida noturna da Glória, criando um panorama muito amplo desse universo. Como você equilibrou essa diversidade de situações com o desenvolvimento da trama principal? Em algum momento houve a preocupação de que esse recorte mais abrangente pudesse impactar a profundidade da narrativa, ou a intenção era justamente dar visibilidade a essas vivências, inclusive em aspectos mais duros, como a violência contra pessoas LGBTQIAPN+?
Sim, esse foi um equilíbrio muito delicado. Permanecer fiel à trama principal, e dar conta dessa vontade de retratar esse universo tão interessante. Em um tratamento anterior do roteiro, o Gabriel era um antropólogo que vinha fazer sua dissertação de mestrado no universo dos garotos de programa. Então o filme tinha muito mais tempo mostrando e retratando outros personagens, e o Gabriel ficava muito mais como observador. Isso enfraquecia o filme. Então concentrei de fato o filme na experiência e nos sentimentos dele. No resultado final, assistindo ao filme hoje, achei que cabia um espaço maior para os outros personagens, especificamente para Mônica e o núcleo dela, porque é nesse núcleo que Gabriel se sente mais acolhido, e onde acontecem os momentos mais alegres do filme.
Os atores Caio Macedo e Alejandro Claveaux vivem seus personagens com muita intensidade. Você poderia contar um pouco do processo de construção desses personagens para obter uma interpretação tão emotiva e contundente?
Esse processo começa na construção do roteiro, que já ficou bastante intenso por se basear numa época da minha vida em que eu estava num momento de vulnerabilidade emocional muito grande e vivendo tudo muito intensamente. Mas acho que cresce bastante durante o processo de laboratório, preparação de elenco e ensaios. Como tivemos que filmar num tempo curto, quatro semanas, eu pedi um tempo bem longo de ensaios. O Caio se mudou para o Rio dois meses antes de começarem as filmagens para começar esse processo, e o Alejandro entrou logo depois. Fizemos laboratórios em espaços de prostituição com garotos de programa, ensaiamos todas as cenas e mergulhamos num processo de construção de personagens que incluiu, por exemplo, momentos em que eu contava das minhas experiências reais que inspiraram alguns momentos do filme e os atores buscando elementos deles próprios que pudessem ser emprestados aos personagens.
Hoje no Brasil temos um espaço inédito para produções LGBTQIAPN+. Mas claro que isso não é garantido. Durante o governo Bolsonaro essas produções foram censuradas, e, dependendo do resultado das próximas eleições, isso pode acontecer de novo.
Ruas da Glória é um filme noturno e no qual denota-se a elaboração de uma mise-en-scène muito particular na articulação dos espaços abertos e festivos com a intimidade dramática dos dois amantes. Ela já estava totalmente delineada desde o roteiro ou surgiu aos poucos na medida em que o filme foi sendo concebido?
Isso estava presente desde o roteiro, mas fomos aprofundando durante a pré-produção do filme, enquanto achávamos as locações, discutíamos a arte e a fotografia com a Fernanda Teixeira (diretora de arte) e o Léo Bittencourt (diretor de fotografia). O Léo foi especialmente presente no processo de decupagem e escolha da linguagem visual. O Bar da Glória, por exemplo, foi concebido como um lugar que poderia juntar esses dois elementos: a festa e a socialização num ambiente que tem cara de casa e promove acolhimento. Mas são os apartamentos, do Gabriel e do Adriano, que funcionam mais como lugares da intimidade, quase como casulos, onde os dois criam esse mundo particular onde só eles existem e vivem esse romance intenso.

Ruas da Glória é um carrossel de emoções. De todas as cenas qual ou quais foram as mais difíceis de serem rodadas?
A mais difícil é também a minha cena preferida, quando Gabriel e Adriano brigam no apartamento de Adriano. Vou tentar falar sem dar muito spoiler, mas é uma cena cuja maior parte é só um plano longo, cheia de emoções à flor da pele e movimentos complexos, tanto de câmera quanto dos atores, e com um grande desafio para a arte. Foi uma cena que preparamos durante mais de quatro horas, mas o plano longo final foi feito no primeiro take.
Os prêmios e reconhecimento do seu trabalho é um estímulo para novas produções. Como você vê o cenário atual no Brasil para os filmes com temática LGBTQIAPN+? Você tem algum projeto para breve?
Eu acho que hoje no Brasil temos um espaço inédito para produções LGBTQIAPN+, tanto em termos de financiamentos disponíveis quanto em demanda de público. Mas claro que isso não é garantido. Durante o governo Bolsonaro essas produções foram censuradas, e, dependendo do resultado das próximas eleições, isso pode acontecer de novo. Vamos ficar atentos. Meu próximo longa de ficção como diretor não é um filme LGBTQIAPN+, mas tenho outros projetos, em fases iniciais de desenvolvimento, que tratam dessa temática, como uma comédia romântica.
Leia mais entrevistas
- Paixão, aceitação e acolhimento movem a trama de “Ruas da Glória”: um papo com Felipe Sholl
- Nathalia Queiroz faz mergulho íntimo em livro de poesia que se transmuta em disco, fotografia e performance
- Phenomena Drag: uma comunidade para fortalecer a arte drag no Recife
- Um papo com Grag Queen, que lança disco de estreia após sucesso de Drag Race BR 2
- “Tem alma, tem soul, tem groove”: um papo com Paulete Lindacelva, que lança o EP “Ácido Brasil”


