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Foto: Anderson Stevens/Divulgação.

Nathalia Queiroz faz mergulho íntimo em livro de poesia que se transmuta em disco, fotografia e performance

Evento reúne performance, audição de EP e sarau aberto no Espaço Circular

A artista recifense Nathalia Queiroz lança o seu novo livro de poesia Pássaras Auroras, um projeto que nasce multimidiático envolvendo diferentes linguagens. Publicada pela Editora Tamuatá, a obra reúne poemas que atravessam memórias, ancestralidade e experiências ligadas à vida das mulheres. O evento de lançamento será no Espaço Circular, no Recife, no dia 26 de março (veja o serviço ao final do texto).

Em Pássaras Auroras, Nathalia constrói uma narrativa poética que percorre diferentes camadas de experiências da vida das mulheres, reunindo memória, ancestralidade e imaginação. A obra se estrutura como uma espécie de arqueologia sensível da própria psique da artista: um mergulho nas cicatrizes, nos sonhos, nos medos e nas reinvenções que atravessam uma vida.

Conduzido pelo poeta e editor Stefanni Marion, o livro foi concebido pela própria autora como um objeto artístico, reunindo poesia, fotografia, ilustração e performance. Parte das imagens foi registrada pelo fotógrafo Anderson Stevens durante uma performance realizada na Ponte Santa Isabel, no Centro do Recife.

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“A arte revela. Muitos desses poemas do livro, principalmente os que falam de violência contra a mulher, me foram revelações que me trucidaram para escrevê-los. Escrever é viver, reviver, repetir, permitir que algumas sensações nos atravessem de novo como um processo de elaboração do sentir. Escrever é vivo”, diz a artista à Revista O Grito!.

A publicação também se expande para o campo sonoro com o EP Pássaras Auroras, produzido por Breno Rocha, que acompanha os poemas com uma paisagem musical. O trabalho conta com participações de músicos como Hugo Lins, Galvöao, Kamila, Junior Teles, Vinícius Nogal, Ruti Freitas, Vitor Castanheira e Jonas Araújo.

O livro foi viabilizado por financiamento coletivo na plataforma Benfeitoria. Após o lançamento, a autora também realiza a oficina presencial “Narrativas do Corpo”, nos dias 28 e 29 de março, no Espaço Circular, dedicada a processos de criação artística a partir da experiência corporal.

Batemos um papo com Nathalia Queiroz sobre este novo trabalho:

Esse projeto já nasce multiartístico. Como se deu a escolha dessas diferentes abordagens e porque a escolha de unir tantas artes em uma?

Esse projeto nasce da poesia, mas se depara com uma artista multilinguagem. Desde que comecei minha jornada enquanto artista, sinto que uma mesma narrativa me atravessa, entre ilustrações, fotografias, do corpo no palco da performance, no canto. É como se uma mesma história quisesse se revelar através do que produzo. A poesia sempre foi um recurso de conversar com o que não entendo. Pra mim ela é revelação. É na metáfora que encontro minhas verdades mais profundas como uma arqueologia do sensível, da intimidade, do conhecer a si mesma. De onde pesco os temas que quero pesquisar, vou buscar autores e adentro em outras pesquisas, leituras, referências.

Quando Stefanni Marion me convidou para publicar pela Editora Tamuatá, o convite foi apenas para a minha poeta. Seria outra designer, outra ilustradora, excelentes profissionais que já integram a equipe Tamuatá que realizariam o projeto gráfico. Foi no decorrer da edição do livro onde ele e eu fomos nos aproximando do que transcende a palavra e mora em outras expressões da minha pesquisa artística, que sentimos que não tinha muito como dissociar as coisas. E ele me propôs que eu mesma fosse a designer do meu próprio livro. O que me deu bastante autonomia para pensá-lo como um objeto de arte, esse relicário íntimo da jornada de uma artista mulher, para além de ser um livro de poesia. Fui buscar as linguagens onde faço morada para integrá-las a esse relicário: ilustração, fotografia, performance, palavra.

Seu projeto trata de mulheridades e chega em um período de enorme crescimento da violência contra mulher e feminicídio. Na sua opinião como seu trabalho dialoga com essas questões e como a arte pode trabalhar a sensibilidade do tema junto ao público?

A arte revela. Muitos desses poemas do livro, principalmente os que falam de violência contra a mulher, me foram revelações que me trucidaram para escrevê-los. Escrever é viver, reviver, repetir, permitir que algumas sensações nos atravessem de novo como um processo de elaboração do sentir. Escrever é vivo. E o recurso transbordante de sentidos da poesia não propõe cárcere à palavra e amplia as sensações do corpo. Nos convida a acessá-las. Da dor tiramos muita força. Também do gozo, da vida com verdade, com gosto de morder uma fruta madura da estação.

Não é de hoje que vivemos uma sociedade do masculino ressentido. Essa história é muito antiga e eu precisaria de longas laudas para abordá-la com profundidade. Desde que o sistema patriarcal foi imposto de forma severa aliado ao nascimento do capitalismo, os embriões do desenvolvimento da ideia de ciência que precisou aniquilar outras formas de saber, as estruturas imperialistas e coloniais, também algumas estruturas de poder religioso. Como um grande complô que via o feminino como uma ameaça a ser submetida, domesticada, silenciada, comprimida à um papel servil diante do masculino. Coisa que a Silvia Federicci explica muito bem em A Bruxa e o Calibã. Muitas conquistas de mulheres foram apagadas da história, transformadas em mitos, em contos, muitas de suas realizações artísticas e científicas foram roubadas e assinadas por homens. Para as mulheridades, e gosto desse termo porque entendo gênero enquanto espectro e não dentro de uma dualidade rígida, saber-se é uma aventura arqueológica de si.

Eu dedico o livro Pássaras Auroras às frestas, fendas por onde brotam as corpas vivas das mulheres e todo o seu assombro. Ser uma mulher viva, nessa sociedade, para além de ter um coração que bate, mas ter um corpo que pulsa saber, que dança com a própria vida, fala, canta, olha nos olhos, não teme o abandono, a rejeição, que come a dor e a transfigura com a força bruta que desconfigura o mal, é pura revolução. As nossas conquistas, numa estrutura legitimada dentro desse sistema, são muito recentes. O homem ressentido não sabe lidar com o poder de uma mulher viva. Esse momento social e histórico que estamos vivendo agora é só mais um dentre todas as histórias de violência que já passamos na nossa existência. Enquanto Brasil, somos uma sociedade fruto de um brutal processo colonial que forjou sua população através da violência contra corpos de mulheres indígenas que aqui já estavam, e mulheres africanas sequestradas de seu território para serem também violentadas aqui e submetidas à toda qualidade de trabalho servil.

Esse é o ventre do Brasil e como nasceu sua miscigenação, numa violência imposta pelos sistemas criados pelos homens brancos europeus. É importante olhar para toda essa história. Acessar o saber sem atenuantes, floreios ou romantizações. Não temer dar o nosso grito de dor e transformá-lo em força. Em A Queda do Céu, Davi Kopenawa fala que o saber ancestral está dentro do nosso próprio corpo e há formas de acessá-lo. As histórias verdadeiras estão dentro de nós. Se quisermos, podemos acessá-las como se fosse, nós mesmas, um livro. Ou melhor, uma biblioteca muito antiga e secreta. Dói. Dói muito. Essa verdade é fugidia e não mora na palavra, mas nas emoções. Talvez não seja possível descrevê-la com riqueza de detalhes, mas propor obras que nos afete com riquezas de sensações. Nos transforme de um jeito vigoroso. É quando aprendemos a tocar no nosso poder.

Pássaras Auroras fala de mulheres que ousaram investigar a si mesmas, acessar essas memórias, não morrer, mesmo um não morrer depois da morte, e revelar o gosto do próprio gozo, o sabor da própria voz. É importante conhecer a nossa própria história para sabermos da nossa força e estruturas físicas e emocionais para transgredir os agressores, ver além das dores. Já tentaram nos matar muitas vezes. Mas o nosso assombro permanece aqui, mais vivo que nunca. E seguimos em retomada por uma sociedade que olhe para nós mulheres. Olhe também pra esse masculino ressentido como fez a Bell Hooks em A Vontade de Mudar. Para que eles se fortaleçam enquanto indivíduos íntegros e não precisem nos matar para poder existir.

Me pergunto: qual dimensão de desamparo tão grande é essa que habita o masculino que ele não consegue lidar com uma mulher viva? Qual o elo fundante da misoginia e porque foi preciso, para o masculino, estruturar esse cárcere como pilar dessa sociedade? Qual tamanha fragilidade que os habita que eles precisem nos matar para não morrer? Eu, enquanto mulher, estou me defendendo do que? Só vamos saber disso quando formos, em toda a nossa potencialidade, aquelas que eles mais temem. Quando restaurarmos nossa força interior. Não contra eles. Mas a favor de nós mesmas. Como diz a Nina Simone: liberdade é não ter medo.

O livro falava dessa voz ancestral que atravessava mundos, resgata o próprio canto. Uma mulher morta, mas que continua falando mesmo assim. Me soprando poemas nos ouvidos ao resgatar a própria voz. Eu queria dar corpo a essa mulher.

Poderia falar um pouco do EP e como foi a sua produção?

O EP surgiu antes do livro, mas também em 2025. Dentre as conversas com meu amigo Breno Rocha, já havíamos nos proposto uma troca entre músico e tatuadora. Eu faria uma tattoo nele e trocaria pela produção musical de uma faixa de poema ou canção. Eu o tatuei e quando comecei a apresentar minhas criações ele propôs: porque não gravamos um EP? Assim, fui mostrando pilares dessa narrativa que me atravessa com mais força e chegamos à 6 faixas, sendo 5 poemas e uma canção. Na campanha de financiamento pela plataforma Benfeitoria eu consegui uma parte da verba do projeto do EP. A outra parte foi feita em trocas com amigos músicos que acreditam na jornada que estou propondo, onde os ofertei serviços como tatuadora, ilustradora e designer. O processo do EP como um todo foi muito intuitivo e Breno é um excelente produtor musical. Sensível, atento, com uma escuta primorosa e um jeito muito especial de traduzir as sensações do artista com quem ele trabalha em linguagem sonora. Me deixou segura e confiante durante todo o processo que não era muito suave para mim. Da minha pesquisa artística, nesse universo multilinguagem, sai uma flecha que aponta para a voz e é uma voz de canto. Essa é a minha performance viva.

Definitivamente não nasci cantando – ou melhor, canto desde sempre, mas não necessariamente bem nem com coragem. Ao longo de toda essa trajetória, aprendi a falar, a recitar meus poemas – o que não foi fácil porque a fala, por muitas questões, principalmente em público, foi uma conquista muito dolorosa pra mim. E ao longo dos últimos anos tenho perseguido o canto. Já gravei algumas canções com o poeta e compositor Carlos Gomes Oliveira, que infelizmente nos deixou em 2025. Também integrei o projeto Na Ponta da Agulha, com Larissa Velosso e Maju, poetas e cantoras da cidade onde nos autorizávamos o palco enquanto artistas da voz. Pássaras Auroras é meu voo solo. Mas que trago muita gente comigo num cortejo nômade que atravessa céu, terra, mar e sonhos. A primeira musicista a entrar no projeto foi Kamila Souza, grande amiga, cantora, compositora e pianista pernambucana, que integra o projeto franco-brasileiro Nacar. Kamila foi das primeiras artistas com quem compartilhei meus poemas e composições à uns 10 anos atrás.

Em seguida veio Hugo Lins, que foi produtor e músico dos projetos de Carlos, como o conheci, e que acompanha minhas pesquisas com a voz desde 2018. Ele sempre nos apoiou muito, trazendo para a nossa voz seu talento e generosidade. Muito importante tê-lo junto. Em seguida entraram Ruti Freitas e Vitor Castanheira, grandes amigos e músicos da cidade que, dentre vários projetos, compõem o Duo Acalanto. Nos dois últimos anos eu vinha participando de algumas apresentações deles enquanto poeta, recitando em seus shows instrumentais, e não tinha como não tê-los perto nesse voo. Depois veio Vinícius Nogal e sua cigania, emprestando toda a liberdade e virtuosidade de sua sanfona para esse cortejo de libertação. Acompanho a trajetória de Vini há alguns anos e foi uma honra tê-lo perto nesse momento. Junior Teles chegou de surpresa. Desde o início do projeto queríamos um percussionista e, numa apresentação que participei de Hugo Lins, Teles estava e perguntou: nesse projeto de vocês, não precisa de uma percussão não? E sua chegada foi algo mais que especial. Jonas Araújo também é um multiartista e amigo que admiro há longos anos e, em uma de nossas conversas, ele partilhou que estava voltando a brincar com seu violino. Foi natural que ele entrasse no projeto e as ranhuras de seu instrumento tecessem diálogos com o piano doce de Kamila.

O livro e o EP traz essa imagem de um trauma ancestral que é revelado através da voz de uma fantasma que quer recuperar a sua voz de canto. Ela é uma cantora. Que foi violentada e perdeu a própria voz. E canta, no além-tempo, como um clamor triste para recuperar a própria aldeia subjetiva. Foi quando, convivendo e conversando com a minha amiga Galvoao e seu timbre precioso, perguntei se ela não topava trazer na sua voz essa força desse canto ancestral. E… somos nós, aqui juntes, fazendo magia através da poesia, da música e da canção.

O homem ressentido não sabe lidar com o poder de uma mulher viva. Esse momento social e histórico que estamos vivendo agora é só mais um dentre todas as histórias de violência que já passamos na nossa existência.

O ensaio na ponte Santa Isabel fala sobre mudanças. Como surgiu a ideia e qual sua relação com aquela paisagem?

O livro falava dessa voz ancestral que atravessava mundos, resgata o próprio canto. Uma mulher morta, mas que continua falando mesmo assim. Me soprando poemas nos ouvidos ao resgatar a própria voz. Eu queria dar corpo a essa mulher. Numa ponte entre-mundos. A ponte Santa Isabel é muito importante pra mim. Por muitos anos, enquanto jovem mulher, pedestre e ciclista, morei na rua da Aurora e forjei minha artista no centro do Recife, no edifício Pernambuco e arredores. Atravessar essa ponte sempre foi algo sensível. Ali guardo um misto enorme de emoções e memórias. Já tive medo de morrer ao atravessá-la várias vezes, por assalto, atropelamento, violências, medos que todas as mulheres temos quando andamos na rua. Também já a atravessei em festejos, com grupos de amigos, indo ao Teatro Santa Isabel ou para o outro lado, aos encontros boêmios da Mamede Simões. Também carregando materiais, pra lá e pra cá, desenvolvendo projetos artísticos.

Outras vezes, cansada, triste, chorando, voltando pra casa. Sempre que paro nas pontes do Recife, olho para as suas águas com muito amor. Essas águas atravessam meus olhos. Amo essa cidade profundamente. Amo ser uma poeta e artista do Recife. Quando convidei Anderson Stevens, esse querido amigo, para fazer o registro dessa mulher fantasma que atravessa a ponte, a imagem dela já morava, muito viva, no meu corpo. Só precisávamos de um momento e de uma luz especial para que ela se revelasse. Marcamos uma manhã, às 5h30, aquele horário suave da luz. Fui à casa dele de bicicleta, coloquei o figurino e fomos caminhando pelo centro do Recife até chegar à ponte. Eu disse: amigo, vou performar e você vai registrar. Fique livre.

E assim fizemos. Os ciclistas passando pela ciclovia. Os pedestres parando para observar. Anderson com a câmera na mão e nada mais. Eu apenas com o vestido laranja e uma pedra azul. Naquele curto momento da manhã emprestei meu corpo a essa mulher. Através do meu corpo ela não morreu. Nossas vozes são ecos do além-tempo. Sou muito grata a Anderson por registrar esse momento. Pedras nos caminhos são belezas.

Quais outros passos do projeto para 2026. Pretende levar para outras cidades?

Os meus sonhos são infinitos, mas as realizações precisam de recursos. Já foi uma grande aventura chegar até aqui. Para financiar esse projeto fiz uma campanha pelo site Benfeitoria. Essa é uma prática regular da editora Tamuatá para suas publicações, e o Stefanni Marion me deu todo o suporte ao longo de todo o processo. Esse tipo de campanha funciona bem para livros, na lógica da pré-venda. Vendi livros para várias cidades Brasil, nos estados de Pernambuco, Minas Gerais, Sergipe, Pará, Amazonas, Paraíba, Paraná, Rio de Janeiro, São Paulo, Bahia e Santa Catarina. Em todos esses lugares tem pelo menos uma pessoa, entre mulheres e homens, que acreditou nessa narrativa, nessa poeta que vos fala, nesses ventos que sopro, e apoiaram o Pássaras Auroras. Gostaria muito de visitar o território de cada uma dessas pessoas pessoalmente. Levar mais livros, fazer audições do EP, gerar rodas de conversa, realizar saraus, vivências de expressão artística. Também pretendo transformar o Pássaras Auroras em espetáculo. Ainda não sei como. Estou tecendo caminhos. Aceito apoiadoras e apoiadores que queiram entrar em contato. Demore o tempo que demorar. Eu não desisto da minha poesia. Vou, aos passos lentos e firmes, recuperando a minha, a nossa aldeia subjetiva.

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Foto: Anderson Stevens/Divulgação.

SERVIÇO:

Lançamento do livro “Pássaras Auroras” – Nathalia Queiroz
Data: 26 de março (quinta-feira)
Horário: 19h às 22h
Local: Espaço Circular
Endereço: Rua Samuel de Farias, 95 – Santana – Recife (PE)
Programação:
• Performance poética da autora
• Audição do EP Pássaras Auroras
• Projeção das imagens do livro
• Roda de conversa com convidados
• Sarau aberto ao público