Gorillaz
The Mountain
Kong, 2026. Gênero: Pop/Eletrônica
O Gorillaz completou 25 anos este ano mantendo sempre aceso seu interesse em ser um playground experimental e colaborativo de seus fundadores, o músico Damon Albarn e o ilustrador e animador Jamie Hewlett. É um projeto pop que impressiona pela longevidade, mas sem perder o brio ou soar datado. O uso de personagens e narrativas mirabolantes a cada disco reforça a liberdade artística do duo, ainda que, a despeito da ambição, nem todos os lançamentos sejam tão inspirados e coesos quanto este. The Mountain, que foi lançado no início deste mês, explora o tema do luto e é também uma homenagem à Índia.
A escolha do país asiático foi mais do que algo puramente editorial. Foi em uma viagem à Índia que Albarn processou o luto pela morte do seu pai, cujas cinzas foram jogadas no famoso rio Ganges. Já Hewlett passou um tempo em Jaipur, no Rajastão, após se recuperar de um câncer em 2022. A mortalidade e a certeza do fim estão presente o tempo todo no disco, que buscou na espiritualidade hindu uma perspectiva menos fatalista e mórbida para a morte, ao contrário do que vemos nas narrativas do Ocidente.
Se a melancolia dá o tom em faixas como “Orange County”, onde Albarn canta que “a coisa mais difícil é dizer adeus a alguém que você ama”, em outras temos um processo de cura iniciado como em “The Shadowy Light”, cuja letra repete algo próximo a um mantra: “Sorria, sorria e sorria / aceitando e perdoando / Viver é o fim / o fim do começo”. “The Manifesto”, com seu coro indiano e instrumentos como sarod e bansuri, explora o tema da sobrevivência dos que ficam, como dizem os versos cantados pelo rapper argentino Trueno: “addoro sentir o vento, subir a montanha sem fôlego/ (…) No fim, o que importa é tentar / Eu não sei o que vai acontecer amanhã/ Quando eu responder à luz que tá me chamando.

Essa busca pela Índia como uma epifania para uma espiritualidade tardia poderia soar como um clichê já experimentado por diversos artistas, de Beatles a Alanis Morrisette, mas aqui o Gorillaz trafega na linha tênue do interesse genuíno e a exploração daquele imaginário. Ajudou o fato do grupo ter se cercado de colaboradores indianos ou com ligação próxima com o país. É o caso de Anoushka Shankar, que toca sítara na já citada “Orange County” e na lindíssima faixa-título; Ajay Prasanna, virtuoso da flauta bansuri, além da lendária vocalista Asha Bhosle.
E referenciando o tema da morte, que na cultura indiana é visto mais como uma passagem do que com um encerramento, o grupo traz diversas participações póstumas, que soam como uma celebração ao legado desses artistas. Tony Allen, Mark E. Smith, Dave Jolicouer, além do frequente colaborador do grupo, Bobby Womack, estão presentes em diversas faixas. Ao todo são mais de 20 participações especiais em um trabalho cantado em cinco idiomas (árabe, inglês, hindi, espanhol e iorubá) e gravado em locais como Londres, Mumbai, Nova Déli, Varanasi, Damasco e Nova York.
Na forma, a paisagem sonora ficou bem mais diversificada que os trabalhos anteriores, justamente por adicionar referências que estão fora do escopo do pop comercial e alternativo (que o mercado convencionou chamar de “world music”). O tom otimista do disco e o modo orgânico como a banda se aproximou da cultura indiana alargou possibilidades em gêneros já trabalhados pela banda, como pop e eletrônica. A fórmula encontrada pelo grupo é sempre se aproximar o suficiente de suas referências, sem tentar ser um decalque ou sumir completamente (foi assim com o afrobeat, o funk carioca, entre muitas outras viagens). Com isso, The Mountain é transcendental e etéreo o suficiente, sem deixar de ser inerentemente pop.




