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Foto: Divulgação/Warner Bros.

“Eles Vão Te Matar”: direção estilizada é diferencial em comédia ultraviolenta

Diretor russo compõe universo tarantinesco em filme de vingança feminina

“Eles Vão Te Matar”: direção estilizada é diferencial em comédia ultraviolenta
3.5

Eles Vão Te Matar
Kirill Sokolov

EUA, 2026. 1h34. Terror, Suspense. Distribuição: Warner Bros.
Com Zazie Beetz e Patricia Arquette

Monotonia e discrição estão banidas da tela durante os 94 minutos de Eles Vão Te Matar (2026), primeiro filme em língua inglesa de Kirill Sokolov. Como um guia de turismo no parque de diversão macabro e divertidamente sanguinolento, o diretor russo não apenas nos convida a conhecer a história de vingança da sua protagonista, mas brinda o público com o caos controlado da sua visão estilizada da composição cinematográfica. Sem estardalhaço, o filme aporta nesta quinta-feira (26) nos cinemas brasileiros e é grata surpresa em meio a recentes produções hollywoodianas – nas salas físicas e nos streamings – besuntadas de mesmice. 

O cineasta tem atraído atenção da cinefilia desde seu primeiro longa-metragem, Morra! (2018), que fez zoada em festivais mundo afora, como o Festival Internacional de Quebec e o tradicional Sitges, evento voltado ao cinema de gênero, realizado na Espanha. A fértil imaginação de Sokolov é perceptível desde seus curtas – entre os quais destaco The Outcome (2014) e The Flame (2015), ambos disponíveis no YouTube com legendas em inglês. Com a lente voltada para o grotesco e a feiúra (física e moral) dos personagens, suas obras exalam os traços tragicômicos do universo de Roy Andersson; no entanto, distingue-se do slow cinema do realizador sueco e opta pelo frenesi nas narrativas a que se propõe. Características nítidas no seu longa anterior, Quem Vai Ficar com Masha? (2021), trama tresloucada na qual laços problemáticos entre mãe e filha renascem para combater a perseguição de uma avó narcisista. 

Nesta primeira obra em solo estadunidense, Sokolov mantém os conflitos familiares como pano de fundo à história. Após cumprir pena por atirar no pai abusivo, Asia Reeves (Zazie Beetz) busca se reinserir na sociedade e aceita uma vaga de empregada doméstica na mansão Virgil, assombroso edifício em Manhattan. Os hóspedes, mulheres e homens grã-finos, brancos, contrastam com os funcionários majoritariamente negros. Sob a administração de Lily (Patricia Arquette), o local logo é desvendado como uma seita satânica cujos integrantes são imortais e contratam jovens (em especial mulheres de minorias sociais) para ofertá-las em sacrifícios humanos ao demônio. A desgraça se agrava quando percebemos que Maria (Myha’la), a irmã mais nova de quem Asia está separada há dez anos, se encontra no local sob jugo dos satanistas.

Equilibradamente eruptivo e engraçado, Eles Vão Te Matar abraça sem medo o exagero num claro exercício estético do diretor. A comparação a Quentin Tarantino é a mais óbvia, mas Sokolov demonstra inventividade própria, em especial na vertente humorística que alicerça a rebentação da violência explícita – e põe explicitude nisso – ao longo do enredo. Amenizado pelo senso cômico, o gore é experimentado de diversas e criativas formas; a quantidade de decapitações e artérias dilaceradas hão de agradar os fãs de horror extremo. Dividido em capítulos intitulados, o roteiro se vale de flashbacks expositivos para explicar o desencadear dos fatos; a montagem consegue apresentá-los de forma fluida e breve, sem pesar a mão e comprometer o ritmo. 

Apesar do autoconhecimento paródico da própria narrativa, o filme toca (levianamente?) em duas temáticas bem sensíveis: racismo e violência contra a mulher. Tais questões são abordadas de modo superficial, o que leva a obra a correr o risco de promover o esvaziamento das problemáticas, ainda que seja evidente o teor caricatural do filme. Sim, está distante anos-luz do cinema racialmente engajado de Jordan Peele, mas ao trazer o conteúdo racial para o centro da narrativa, a produção se apropria do tema de forma, no mínimo, discutível. Além disso, o diretor (homem branco, europeu) não hesita em reiterar – logo no começo da obra – a obsoleta convenção de filmes de gênero que observam o corpo da mulher-protagonista sob uma ótica sexualizada. 

E Eles Vão Te Matar deve muito da sua energia à protagonista vivida por Zazia Beets. A atriz – que você pode lembrar da série Atlanta ou dos dois filmes Coringa dirigidos por Todd Phillips – domina o tempo de tela com uma performance admirável, extremamente corporal. O restante do elenco cumpre com eficiência o exigido, com destaque para a sempre ótima Patricia Arquette como a subgerente do belzebu. Ao final, a sensação é de uma produção ousada que, longe de inventar a roda, logra ótimos resultados no lago de excentricidade em que mergulha o espectador. 

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