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Crítica – “O Morro dos Ventos Uivantes”: nova versão se refugia na trilha pop e nos cenários extravagantes

Esboço de erotismo soa mais conservador do que sensual no filme de Emerald Fennell

Crítica – “O Morro dos Ventos Uivantes”: nova versão se refugia na trilha pop e nos cenários extravagantes
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A inavegável paixão entre Cathy Earnshaw e Heathcliff veio ao mundo há quase dois séculos: a primeira publicação de O Morro dos Ventos Uivantes, único romance da escritora Emily Brontë – precocemente falecida aos 30 anos – data do ano de 1847. Reconhecido como uma das principais obras da literatura gótica britânica, o livro tem sido adaptado ao cinema desde 1939, quando William Wyler lançou o clássico homônimo, protagonizado por Laurence Olivier e Merle Oberon. Nesta quinta-feira (12), chega aos cinemas brasileiros a mais recente versão cinematográfica da história, com dois dos principais astros do momento em Hollywood: Margot Robbie (BarbieEsquadrão Suicida) e Jacob Elordi (FrankensteinA Barraca do Beijo). 

Sob o comando de Emerald Fennell, diretora responsável por Bela Vingança (2020) e Saltburn (2023), títulos por quais tenho pouquíssima simpatia, a nova produção aposta numa roupagem pop, da trilha sonora ao método contencioso de abordar a pulsão sexual dos personagens. O recato em relação à culminância da paixão do casal – cenas nas quais a ausência de toque sugere o tanto de desejo reprimido – é eficiente até certo ponto: nos moldes dos doramas coreanos,  o público acompanha pacientemente a crescente atração entre Cathy e Heathcliff, personagem este que, assim como na história original, é retirado das ruas e adotado pelo pai da jovem ainda na infância. Na vida adulta, a família Earnshaw está mergulhada em dívidas e a busca por um esposo rico se torna imposição financeira para garantir o bem-estar de todos. A chegada do bom partido Edgar (Shazad Latif) soluciona o sufoco pecuniário, assim como dissolve o terreno preparado para a concretização do amor platônico entre os protagonistas. 

Em muitos aspectos, os maneirismos estilísticos da diretora britânica se aproximam daquela identidade impressa em produções como Maria Antonieta (2006) e O Estranho que Nós Amamos (2017), mas reiteradamente somos lembrados que Emerald Fennell não é Sofia Coppola. Infensa à sensatez visual, a cineasta agarra-se a alguns elementos e os utiliza exaustivamente; como exemplo, a aplicação excessiva da cor vermelha para ressaltar a concepção de paixão/violência na trama. Em certa sequência, a transição imagética do vestido vermelho de Margot Robbie para o céu rubro sob o qual cavalga o personagem de Jacob Elordi é de uma artificialidade lastimável. 

Figurinos suntuosos e direção de arte extravagante, belíssimos aos olhos do espectador, pouco contribuem para a ambientação que, entre gótica e glamourosa, mantém a narrativa num limbo visual sem autenticidade. Naquela que talvez seja a adaptação para o cinema menos conhecida do livro, o cineasta Yoshishige Yoshida (Arashi Ga Oka, 1988) transportou a trama para o Japão medieval e deu espetacular demonstração de meticulosidade estética diante das paisagens montanhescas, capturadas pela câmera de modo a mergulhar os personagens na geografia local – característica tão importante na obra de Brontë. Na versão atual, nem o Morro nem os Ventos Uivantes parecem ser relevantes para a proposta libidinosa que, na teoria, carrega o filme nas costas. 

Porque, na prática, a lascívia dos personagens deste O Morro dos Ventos Uivantes é exibida de modo tímido, quase conservador, pela lente de Fennell. Numa evidente estratégia para suavizar a sexualidade presente no longa, a diretora resolve a explosão carnal de Heathcliff e Cathy numa única compilação de cenas sobrepostas, representando a repetição das transas do casal de maneira decepcionante e anticlimática. Para atrair para si o status de obra pop, o filme se vale das músicas da cantora Charli XCX, introduzidas sem qualquer organicidade ao enredo; certas cenas se assemelham a arremedos de videoclipes, recortes prontos para serem compartilhados nas redes sociais. 

Por fim, parece-me custoso entender a lógica por trás da decisão de escalar um ator branco no papel de Heathcliff e, em contrapartida, escalar Shazad Latif – britânico com ascendência paquistanesa – para interpretar Edgar, personagem-obstáculo à consolidação do amor entre o casal principal. De qualquer forma, o elenco faz o possível para entregar-se às emoções exigidas pela história. A performance de Margot Robbie se destaca das demais e menciono também o talento da estreante Charlotte Mellington e de Owen Cooper (reconhecido e bastante premiado pela série Adolescência), que interpretam o casal na época da infância.

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