IMG 4008

Crítica – “Marty Supreme”: nas garras da ambição

Esporte é apenas pano de fundo neste exercício do individualismo “made in USA”

Crítica – “Marty Supreme”: nas garras da ambição
4

Ao ser premiado no SAG Awards em 2025, Timothée Chalamet, sem meias palavras, demonstrou enfaticamente seu objetivo enquanto ator: “Eu realmente persigo a grandeza. Eu sei que as pessoas normalmente não falam desse modo, mas eu quero ser um dos grandes”, disse ao receber o troféu pela atuação em Um Completo Desconhecido (2024). É significativo notar, portanto, como o projeto seguinte de Chalamet ressoa tão forte no seu itinerário pessoal de fincar o próprio nome na história. Representação enérgica da ambição que habita as entranhas do american way of life em tantas camadas, Marty Supreme (2025) estende o tapete e o papel perfeito para o jovem intérprete. E ele não desperdiça a oportunidade. 

A produção é ligeiramente inspirada na vida de Marty Reisman, excêntrico jogador de tênis de mesa que, ávido pela glória, apostava no exibicionismo para atrair a atenção do público e, consequentemente, dos investidores. O roteiro, assinado pelo diretor Josh Safdie ao lado do usual parceiro Ronald Bronstein, fisga elementos da figura real, mas traça um universo próprio cuja narrativa é sustentada pela cobiça do protagonista Marty Mauser (Chalamet) em se tornar o maior jogador do mundo. Estamos nos anos 1950, momento histórico no qual os EUA vendia a autoimagem de país modelo de prosperidade e confiança, a partir de certa melhora no bem-estar social após a Segunda Guerra Mundial. A reconstituição cênica de Nova York pela caprichada direção de arte salta aos olhos, especialmente em sequências externas onde a câmera acompanha Marty pelas ruas da cidade. 

IMG 4009
Timothée Chalamet: o sonho americano sem escrúpulos. (Foto: Divulgação)

Nesta primeira assinatura individual por trás das câmeras (sem a codireção do irmão Benny), Josh Safdie mantém a predisposição à execução frenética, experimentada anteriormente em Bom Comportamento (2017) Joias Brutas (2019). A afeição pela montagem intensa provoca, neste Marty Supreme, algumas cenas que soam despropositadas, aparentemente incluídas apenas pela necessidade do diretor em gerar urgência. De toda forma, a intempestividade sistemática é eficaz para traduzir, narrativamente, a turbulência interior do protagonista. São vários os adjetivos nada elogiosos que podem ser utilizados para descrever Marty: egocêntrico, tóxico, agressivo, imaturo, deslumbrado. Numa dimensão simbólica e interpretativa, o personagem pode ser compreendido como a personificação da falta de escrúpulos dos Estados Unidos enquanto nação tão pouco afeita aos valores humanos. 

Menos interessado no esporte – apenas pano de fundo – que na desintegração moral do seu protagonista, o filme consuma ótimas sequências no desafio de gravar as partidas de pingue-pongue. O evidente uso de CGI para criar as rapidíssimas bolas trocadas pelos oponentes não desmerece o bom movimento de câmera empreendido por Safdie, além do convincente trabalho dos atores. O marketing do filme, e de Chalamet, divulgou que o ator treinou tênis de mesa por sete anos para dar veracidade ao personagem (lembrei-me de Bradley Cooper durante a divulgação de Maestro). Se as partidas de tênis acrobaticamente filmadas por Luca Guadagnino em Rivais (2024) são bem pouco fidedignas ao esporte, os duelos na mesa em Marty Supreme se aproximam bem mais da realidade. 

Isto posto, a performance de Timothée Chalamet é digna de aplausos. Obstinado e convulso como pede o personagem, o ator entrega talvez a interpretação mais sólida da carreira. Após conquistar o Globo de Ouro e outras importantes premiações da temporada, o páreo está duríssimo para o Oscar (e para o nosso brasileiro Wagner Moura). Chalamet transita com muita eficácia entre a confiança e a vulnerabilidade de Marty, dominando a tela. As companheiras de elenco Odessa A’zion e Gwyneth Paltrow estão ótimas, em especial a primeira. Não deixaria de ressaltar, por fim, a participação do grande Tyler, The Creator como Wally, em sua primeira incursão no cinema. Muito carismático, que não demore a experimentar novos desafios fílmicos. 

Dois detalhes que me chamaram, positivamente, atenção: a trilha sonora oitentista proposta por Daniel Lopatin. Talvez incongruentes para alguns espectadores, já que a narrativa se passa nos anos 1950, as músicas do filme trazem uma textura nostálgica e brinca com a concepção de historicidade (diferentes passados) da narrativa, além de sua relação com o presente. Canções como “Forever Young”, da banda alemã Alphaville, e “Everybody Wants to Rule the World”, da Tears For Fears, encaixam perfeitamente à tonalidade do filme. O segundo detalhe atende pelo nome de Abel Ferrara. Singular cineasta da onda independente norte-americana dos anos 1970 e 80, Ferrara interpreta Ezra Mishkin, personagem delituoso que evoca os enredos de filmes dirigidos por ele próprio, como Rei de Nova York (1990) Vício Frenético (1992). Um presente aos cinéfilos. 

Com uma cena final que, tenho percebido, provoca reações conflitantes nos espectadores, Marty Supreme retrata o individualismo exacerbado da sociedade norte-americana, tendo a competitividade do esporte apenas como cenário para investigar a ânsia pela superioridade. Através da lente direcionada à primeira metade do século 20, o filme diz muito sobre a dinâmica sociedade e indivíduo em 2026.

Leia mais críticas