Hamnet – A Vida Antes de Hamlet
Chloé Zhao
EUA, 2025. 2h05. Drama. Distribuição: Universal Pictures
Com Jessie Buckley, Paul Mescal
Reimaginar acontecimentos históricos através da janela da literatura. Assim, sob a égide da biografia especulativa, a autora Maggie O’Farrell concebeu Hamnet, livro publicado em 2020 que examina como a precoce morte do filho de William Shakespeare pode ter sido determinante para a criação de Hamlet, clássico absoluto do dramaturgo britânico. O atravessamento entre realidade e criação artística é uma das características mais interessantes da obra, agora corporificada para o cinema em produção da Universal Pictures. Dirigido por Chloé Zhao, o filme chega fulgurante à temporada de premiações, após exibições aclamadas em festivais prestigiosos (Toronto, Valladolid, entre outros).
No epicentro narrativo, a relação afetuosa entre Shakespeare (Paul Mescal) e Agnes (Jessie Buckley), lapidada com excelência não apenas pela câmera de Zhao, mas por uma coesão estética impressionante dos diversos elementos fílmicos. Do figurino que realça a vibração de cores (como o vermelho do vestido de Agnes) à meticulosa direção de arte proposta por Fiona Crombie (indicada ao Oscar em 2019 por A Favorita, de Yorgos Lanthimos), o espectador é transportado ao período elisabetano da história narrada. Acompanhamos o nascimento da primeira filha do casal, Susanna (Bodhi Rae Breathnach) e a expansão da família, com o posterior – e delicado – parto dos gêmeos Judith (Olivia Lynes) e Hamnet (Jacobi Jupe). Judith nasce morta, mas após algum tempo nos braços da mãe, retorna à vida, numa representação do caráter místico-miraculoso que permeia toda a obra, especialmente a personagem de Buckley.
Profundamente conectada à natureza, Agnes é reputada pelos moradores locais como “a filha da bruxa” que vagueia pela floresta com um falcão no braço. A espécie de mediunidade da personagem é essencial para a textura narrativa do filme, cuja latência dos elementos naturais é realçada nos planos captados por Chloé Zhao, assim como pelo primoroso desenho de som. A ventania nas árvores, o barulho das águas que correm. A imersão sensorial funciona perfeitamente e Hamnet – A Vida Antes de Hamlet conduz o público a um mergulho profundo no universo sentimental de seus personagens. Portanto, quando a tragédia acomete aquela família, o espectador é igualmente alvejado pela dor atroz do luto.

Jessie Buckley traduz em meneios desesperados a aflição lancinante que, paulatinamente, se avizinha da personagem. Como a tempestade que se antecipa no horizonte e, de súbito, desaba impiedosamente, a morte do filho aniquila qualquer traço de alegria no semblante de Agnes. A atriz transita entre a explosão dramática e o sofrimento sufocado, numa performance marcante. Em sintonia, Paul Mescal empresta carisma e fervor a um William Shakespeare dividido entre o ímpeto criativo (que o forçava a ir a Londres, longe da família) e o convívio familiar. Na estreita relação do filme com o teatro, há cenas de dramaturgia sublime, como o ensaio antes da peça no qual Shakespeare, impaciente, demonstra ao elenco a maneira adequada de expressar o texto.
Ao imprimir cortes secos, seguidos de tela preta, ao longo de todo o filme, a montagem reforça a ideia capitular de obra literária e/ou teatral. Contudo, esse componente fragmentar acaba por interromper a densidade de algumas sequências importantes do filme (o momento em que Shakespeare percebe o filho no leito de morte, por exemplo). Em uma narrativa tão intensa, são respiros ora apropriados, ora impertinentes. De todo modo, é cristalino como a edição arquiteta a infraestrutura do filme para a grandiosidade da sequência final; um clímax emocionalmente poderoso, onde Chloé Zhao uma vez mais demonstra total domínio do espetáculo (e não utilizo esta palavra negligentemente).
Indicado a seis categorias do Globo de Ouro, Hamnet é a única produção dirigida por uma mulher entre os principais títulos da temporada. Depois de três ótimos longas e um passeio desarrazoado ao universo Marvel, Chloé Zhao realiza o melhor filme da carreira, carregado de poesia e emoções tão bem exprimidas pelos atores.
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