Família de Aluguel
Hikari
JAP, 2026. Drama. 1h50. Distribuição: Disney
Com Brendan Fraser, Shannon Mahina Gorman
Dramas familiares são fruto de investigação histórica da cinematografia japonesa. Dos longevos anos de transição do cinema mudo ao falado, com os inigualáveis clássicos de Yasujirō Ozu, a produções recentes de repercussão internacional, vide os premiados Assunto de Família (2018) e Pais e Filhos (2013), ambos dirigidos por Hirokazu Koreeda, o país asiático é referência em narrativas de mergulho complexo nas interações domésticas. Não deixa de ser interessante, portanto, atestar a última incursão da diretora Hikari (nome artístico pelo qual é conhecido Mitsuyo Miyazaki) às cercanias da parentalidade: falamos de Família de Aluguel (2024), drama protagonizado por Brendan Fraser que chega aos cinemas brasileiros neste 8 de janeiro.
A trama rediscute o fenômeno das agências de aluguel de parentes e amigos no Japão, temática que pode chegar como novidade à boa parcela do público, mas já previamente abordada pelo cineasta alemão Werner Herzog. Em 2019, o diretor levou ao Festival de Cannes a produção Uma História de Família, docudrama no qual acompanha o cotidiano do fundador da Family Romance, empresa especializada no serviço de disponibilização de pais, mães, tios e até mesmo cônjuges de aluguel. Filmado com uma simples Canon XF400 em estilo quase caseiro, a obra levanta questões interessantes sobre o paradoxal ofício e foca na história de uma garota de 12 anos que será apresentada ao “pai” ausente: na verdade, trata-se de um ator contratado por sua mãe através da agência acima citada.
Apesar da colossal distinção de abordagens narrativas, as semelhanças com o enredo central de Família de Aluguel chamam bastante atenção. O roteiro – assinado por Hikari e Stephen Blahut – segue Phillip (Fraser), ator estadunidense que vive em Tóquio com trabalhos de pouca expressão (comerciais televisivos e seriados caricatos). Em determinado dia, ele conhece Shinji (Takehiro Hira), diretor de uma agência de aluguel de parentes que o convida a integrar sua equipe, ideia logo concretizada. Entre os trabalhos, aquele que acarretará o maior dilema ético da história: ser o pai postiço da pequena Mia (interpretada graciosamente por Shannon Mahina Gorman). Em percurso dramático previsível, o longa aposta em momentos melodramáticos e margeia a comédia em sequências mais eficazes do que aquelas que impingem sentimentalismo.
Brendan Fraser, depois de A Baleia (2022), parece não conseguir (ou nem sequer tenta) se desvencilhar dos cacoetes dramáticos pouco convincentes, como seu olhar de cão abandonado. Sai-se melhor, assim como o filme, nas ocasiões de comicidade e de autorreflexão sobre a própria profissão de ator. Naquilo que talvez de mais belo haja no filme está o relacionamento do protagonista com Kikuo (Akira Emoto), ator aposentado em situação de declínio neurológico crescente. Cada vez mais esquecido, Kikuo ressalta os grandes filmes que fez e busca revolver imagens do passado, literal e metaforicamente. Interpretado por Emoto, ator japonês prolífico com mais de 300 obras na carreira, o personagem ressoa uma rica metalinguagem acerca da memória no cinema e, em última instância, nas nossas próprias existências individuais.
No fortalecimento de vínculos sociais e afetivos, os laços consanguíneos não determinam aqueles que compõem e se fazem presentes à nossa história. É a mensagem (um tanto quanto óbvia, mas compreensível para a proposta do filme) que Família de Aluguel apregoa durante seus 110 minutos. Olhar quase estrangeiro de uma diretora japonesa sobre o próprio país, a produção mantém-se convicta aos clichês narrativos, terreno seguro para audiências afeiçoadas às fórmulas de filmes-para-emocionar-a-família. Nesse sentido, inteligente a decisão da Disney, distribuidora da produção, ao definir o lançamento brasileiro no mês de janeiro (o filme estreou nos EUA em novembro), período de férias escolares marcado por maior presença das famílias nas salas de cinema.


