Dois Procuradores
Sergei Loznitsa
França, Alemanha, Holanda, Letônia, Romênia, Lituânia, 2025. 1h58. Drama. Distribuição: Retrato Filmes
Com Aleksandr Kuznetsov, Aleksandr Filippenko
União Soviética, 1937. Na história russa, o ano é marcado pelo Grande Expurgo, também conhecido como Grande Terror, violento período de repressão política perpetrada por Josef Stalin a ex-membros do Partido Comunista, minorias étnicas, intelectuais e todos que fossem etiquetados como ameaças contrarrevolucionárias ao regime. De acordo com os historiadores, estima-se que o número de pessoas aniquiladas – durante apenas três anos – pode ter ultrapassado a marca de 1,2 milhão. É por este obscuro capítulo da Rússia que Sergei Loznitsa escolta o espectador em Dois Procuradores (2025), filme enfim lançado no circuito brasileiro após sessões pontuais ocorridas na última edição do Festival do Rio, em outubro.
O filme se baseia no livro homônimo de Georgy Demidov, físico que transpôs à literatura sua vivência de 14 anos em campos de concentração soviéticos. Na adaptação audiovisual, a trama segue o jovem promotor Kornyev (Aleksandr Kuznetsov); às suas mãos chegam a carta de um detento que clama por assistência do Estado. Stepniak (Aleksandr Filippenko), antigo promotor do Partido, denuncia os métodos nada civilizados de tratamento na penitenciária, capitaneada pelo Comissariado do Povo dos Assuntos Internos (na sigla russa, o NKVD). Debilitado por consequência das abjetas sessões de tortura, Stepniak sabe que não viverá por muito tempo, mas pede ajuda a Kornyev para divulgar a situação e fazê-la chegar até o Procurador Geral.
A juventude – e o idealismo – do protagonista favorece à acepção narrativa que, ao longo do filme, contrapõe o conceito do novo, do jovial, à uma ideia de sociedade envelhecida e burocrática, permeada por valores extemporâneos. Kornyev sempre transita entre homens mais velhos, enfiados em uniformes e ternos. O rigor comportamental das forças soviéticas da época é traduzido nos arrojos formais da direção de Loznitsa; a obra é plenamente composta por planos estáticos, através de enquadramentos que realçam a sensação de controle e claustrofobia (a razão de aspecto 4:3 consolida essa perspectiva). Depois do explosivo Donbass (2018), excelente abordagem do cinismo no conflito contemporâneo na Ucrânia, é surpreendente notar a guinada estética adotada pelo diretor em Dois Procuradores.
Entre obras ficcionais e documentários que esmiúçam as calamidades sociopolíticas do país com maior extensão territorial do mundo, o cinema de Sergei Loznitsa é comprometido com a luta pela memória coletiva – a lente voltada ao passado para uma compreensão integral do tempo presente. Deste modo, a impressão deixada pelo novo longa-metragem é a de uma meditação módica acerca do período histórico retratado; a decisão de conduzir o espectador através da visão inexperiente do protagonista é eficiente até certo ponto. O que de novo a narrativa oferece ao retratar os conhecidos desmandos e violências de um estado totalitário, tão semelhante em diferentes geografias e tantas vezes abordadas pelo cinema de maneiras mais estimulantes, mais profundamente informativas?
Porque mesmo sustentado pela hegemonia visual-imagética, é perceptível o pendor da narrativa às sequências expositivas, nas quais a oralidade se torna elemento preponderante. No relato do velho bolchevique durante a viagem de trem, por exemplo, o filme denota a intenção de reforçar o respeito aos relatos e às histórias que compõem a História soviética. Ainda assim, Dois Procuradores soa como um limitado simpósio com pouca margem para debate. A produção se sai melhor, bem melhor, como thriller político. A montagem de Danielius Kokanauskis é categórica e eficaz na estratégia de costurar a narrativa labiríntica que se desenrola, minuto após minuto, sem perder o fio da tensão.
Na perduração da guerra Rússia-Ucrânia, além da iminência de novos conflitos armados ao redor do globo, o longa de Loznitsa é indubitavelmente oportuno enquanto documento histórico. Para além do valor conceitual, é uma obra de grande teor estético que, mesmo com fissuras perceptíveis, jamais perde a relevância da sua missão.
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