a noiva
Jessie Buckley e Christian Bale em cena de "A Noiva!". (Foto: Divulgação/Warner Bros.)

“A Noiva!” triunfa em narrativa febril e explicitamente cinéfila

Em seu segundo longa-metragem como diretora, Maggie Gyllenhaal passeia por diversos gêneros em obra afiadíssima

“A Noiva!” triunfa em narrativa febril e explicitamente cinéfila
4

A Noiva
Maggie Gyllenhaal
Estados Unidos, 2026. 2h07. Drama/Ficção Científica. Distribuição: Warner Bros.
Com Jessie Buckley, Christian Bale, Jake Gyllenhaal

A criação artística, este inestancável rio feito de inspirações, imagens obsessivas, dores profundas. Feito de aspirações e paisagens subterrâneas. No prólogo de A Noiva! (2026), a diretora Maggie Gyllenhaal bifurca a narrativa em dois universos: o da criadora Mary Shelley, autora do romance Frankenstein, e o das suas criaturas ficcionais (que comporão o enredo do filme propriamente dito, por assim dizer). Torna-se central, desde os minutos iniciais, a concepção da arte enquanto imperativo fisiológico, como respirar e comer. Arte como nascimento, rompimento. Encabeçado por Jessie Buckley (Hamnet) em mais uma performance notável, o longa se nutre de elementos do clássico filme de James Whale (A Noiva de Frankenstein, 1935) para originar uma versão com vida e identidade próprias, amplamente calcada em pautas essenciais do presente. 

Escrito por Gyllenhaal, o roteiro introduz ao espectador a jovem Ida (Buckley), acompanhante de um grupo de gângsteres que, durante um jantar, sofre espécie de possessão provocada pelo espírito de Mary Shelley. Em meio à crise psicótica, é agredida e morta pelo companheiro e seu comparsa. O destino da protagonista se cruza com o do monstro de Frankenstein (Christian Bale): profundamente solitário, ele está à procura de uma companheira. Com ajuda da Dra. Euphronius (Annette Bening), a criatura exuma o corpo da jovem para trazerem-na de volta à vida. Nasce, assim, a personagem do título. De temperamento frenético, como se o cérebro estivesse em permanente curto-circuito, a Noiva atropela pensamentos e vomita palavras aparentemente sem conexão, mas que mantêm uma lógica clara em relação aos sentimentos emitidos a cada circunstância vivenciada. 

Enquanto deambula pela noite de Chicago ou Nova York, o casal se identifica à cena underground e anti-padrões normativos; a cenografia facilmente nos remete aos movimentos leather e punk dos anos 60/70 nos Estados Unidos. Para além destes componentes nostálgicos, A Noiva! revela uma cinefilia surpreendente, explícita na paixão do personagem de Christian Bale pelo cinema e, especificamente, pelos filmes de Ronnie Reed (Jake Gyllenhaal), personagem inspirado no inigualável Fred Astaire. São belíssimas as sequências coreografadas, filmadas em preto e branco, que exalam o fascínio da diretora enquanto amante da história do cinema. A referência a grandes nomes da sétima arte não para por aí: Ida Lupino, atriz, escritora e uma das primeiras cineastas a dirigir filmes em Hollywood, está indiretamente mencionada através do nome de dois personagens diferentes. 

thebride
Alinhado à sua estética exuberante, o longa tem um posicionamento político claro. (Foto: Divulgação/Warner Bros.).

Se o passado de violências e assassinatos de mulheres acaba por se reduzir a dados em documentos históricos, Maggie Gyllenhaal faz questão de reforçar a importância do nome e da identidade em seu filme. O espectador identificará como a diretora utiliza nomes de atrizes e atores do elenco para batizar personagens da trama (por exemplo, Penelope, Anette e Jake). Além disso, há algumas sequências nas quais os personagens refletem sobre como deveriam se chamar. O posicionamento político da obra é claro e, sim, vai desagradar bastante os acéfalos conservadores e adeptos de pílulas vermelhas. O desespero das mulheres diante das inumanidades legitimadas pelo patriarcado resulta, na obra de Gyllenhaal, na explosão da revolução feminina contra os perpetuadores da misoginia. 

Lamento, contudo, a ausência da interseccionalidade racial na práxis provocada pelo filme. Ao levantar questões tão fundamentais no domínio do feminismo estadunidense, incluindo referência explícita ao movimento #MeToo (idealizado por Tarana Burke, mulher negra), o filme de Gyllenhaal peca ao negar presença à negritude – até mesmo na composição do elenco, majoritariamente formado por pessoas brancas. Outro incômodo é a insistência de produções hollywoodianas em estrangeirizar a vilania: no caso em questão, o principal antagonista da narrativa é Lupino, o gangster-chefe, interpretado com sotaque carregado pelo ator croata Zlatko Burić

Fatores que não desengrandecem a singularidade criativa do filme. Despreocupada em seguir convencionalismos, Gyllenhaal passeia por diversos gêneros em um filme carregado de ousadia. Enquanto Guillermo Del Toro propôs um estudo melancólico-existencial de poucas camadas em Frankenstein (2025), as provocações temáticas realizadas por A Noiva! são bem mais eficazes e melhor costuradas ao tecido narrativo de uma obra que, consciente da própria potência, rejeita se enquadrar às fórmulas.

Leia mais críticas