A Mulher Que Chora
George Walker Torres
Brasil, 1h15. Drama. Distribuição: Olhar Distribuição
Com Zayan Medeiros, Julia Stockler, Samantha Castillo
“Você tá viva ou você tá morta?”, questiona o pequeno Miguel (Zayan Medeiros) à avó – que se encontra em estado catatônico – em determinado momento, ainda no primeiro terço de A Mulher que Chora (2024). A pergunta, por mais simples, carrega em si a reflexão fulcral do longa-metragem dirigido por George Walker Torres: a morte em vida, os traumas que vedam a alegria da existência. Sob as camadas do cotidiano de uma família com três gerações de mulheres, o filme se utiliza da inocência da visão infantil para viabilizar o aspecto fabular da narrativa (ainda que tão calcada na realidade).
Constituído a partir da fotografia obscura de Léo Bittencourt, eficaz em realçar a feição estética de sonho-pesadelo que percorre toda a trama, o filme convida o espectador a entrar na bucólica casa daquela família. Aos poucos, revela a relação afetuosa de Miguel com a empregada doméstica venezuelana Carmen (Samantha Castillo), em contraste ao convívio frágil da criança com a própria mãe, Elena (vivida por Julia Stockler). Atravessada pelos pontos de iluminação amarelada de vitrais e luminárias, a escuridão no interior do casarão traduz a desolação sentimental dos personagens; mesmo em cenas diurnas, sombras recaem sobre cenário e atores. Enquanto se vale dos artifícios imagéticos para coser as nuances propostas pelo roteiro, a obra é admirável. No entanto, a partir de certo ponto, a sutileza do filme se transmuta em sequências expositivas, repletas de diálogos que carecem de naturalidade.
Os longos silêncios de boas cenas do filme são desarmonizados com a irrupção de cenas mais aceleradas e ruidosas; não seriam problemáticas, caso a montagem as entrelaçasse harmonicamente. Não é o que acontece; arrítmico, o longa de apenas 1 hora e 15 minutos se torna enfadonho bem antes do surgimento dos créditos. Além da edição intrincada, outro grande entrave talvez resida na ausência de foco dramático. Explico: ao tentar interpretar as dores subjetivas das personagens sob o guarda-chuva de dramas sociopolíticos, Walker Torres não faz nem uma coisa, nem outra. O lugar de refugiada de Carmen é rascunhado através comentários parcos sobre a situação da Venezuela, principalmente abordado a partir da percepção preconceituosa dos demais personagens.

É natural que o filme demonstre atenção à realidade latinoamericana, já que faz releitura da lenda de “La Llorona”, figura do folclore hispano-americano (principalmente o mexicano) que, após afogar os próprios filhos, é condenada a vagar eternamente por rios e lagos, à procura das crianças. Porém, o resultado prático, no filme, se reduz a ponderações superficiais, já que não há desenvolvimento à personagem venezuelana, restrita ao papel de imigrante pobre que deixou o filho no país de origem. Do mesmo modo, as personagens da mãe da avó de Miguel são pouco desvendadas. Se por um lado a abordagem enaltece a sensação de mistério ao redor das personagens, por outro dificulta a identificação do espectador com aquelas pessoas retratadas.
Entre as intérpretes, Samantha Castillo se destaca ao conceber delicada atuação no papel de Carmen. Das cenas introspectivas aos momentos de maior desenvoltura, a atriz venezuelana eleva o filme cada vez que aparece em tela. Com um desfecho inexpressivo, A Mulher que Chora deságua na previsibilidade de uma narrativa dubitativa. No meio termo entre drama realista e fábula social, o filme se mantém incerto, longe de causar o impacto esperado a quem o assiste. Distribuído pela Olhar Filmes, o longa estreia nos cinemas brasileiros nesta quinta-feira, 9 de abril.
Leia mais críticas
- “A Mulher que Chora” examina sofrimento feminino através de narrativa metafórica
- “Eles Vão Te Matar”: direção estilizada é diferencial em comédia ultraviolenta
- “Narciso” repensa mito grego em leitura sobre identidade racial
- Cinderela, sua meia-irmã feia e o terror feminista
- “A Noiva!” triunfa em narrativa febril e explicitamente cinéfila


