Dona Onete no palco do Se Rasgum (Foto: Glauce Pereira/Divulgação)

CULTURA POP(ULAR) EM BELÉM
5º Festival Se Rasgum agrada ao trazer inspiradas atrações populares, mas recebe críticas por inovações em seu projeto inicial

Por Yorranna Oliveira
Colaboração para O Grito!, em Belém (Pará)

“Você não perdeu grande coisa”, diz a moça para a amiga que chega atrasada na primeira noite de shows do 5º Festival Se Rasgum, em Belém do Pará. A referência é para a banda de abertura, The Hell’s Kitchen Project, de Minas Gerais. O power trio formado por Jon (voz), Malk (baixo) e Buddha (bateria) pareceu não empolgar o público com sua mesclagem de estilos. A The Hell’s tem o rock e o eletro como base para suas misturas sonoras com letras sobre o estresse no trabalho e as picuinhas do amor a dois, a três, e assim por diante. Todas cantadas em inglês.

Mas se os rapazes não conseguiram agradar, a tarefa ficou por conta de Ionete da Silveira Gama, a Dona Onete, nossa mestre de cultura popular. Filha de Cachoeira do Arari, município localizado na Ilha do Marajó, no Pará, ela veio acompanhada pelo grupo Coletivo Rádio Cipó. E sem fazer muito esforço ganhou o público já nas primeiras músicas do show “Bolero Chamegado”.

COBERTURA SE RASGUM, EM BELÉM
» Primeiro dia: Cultura Pop(ular)
» Segundo dia: Otto, Odair José e Cidadão Instigado
» Terceiro dia: Dado Villa-Lobos e Los Poronga

Ela agradeceu os parceiros e os colaboradores que a ajudaram a estar ali. Falou de suas roupas e do novo penteado, criado nas chapinhas e escovas dos salões de beleza, deixando-a quase irreconhecível até para ela mesma. “Hoje eu tô toda pavulagem”, brincava. E aproveitou para ironizar a redescoberta de ritmos esquecidos e até injustiçados pelo circuito musical. “O Coletivo acompanhando o bolero, quem diria, hein?!?!”. Pois é, quem diria. Bom para as novas gerações que descobrem velhas sonoridades, repaginadas com um sopro de modernidade. Dona Onete dessa vez não cantou, nem dançou descalça. A culpa é da roupa, ela explica mais tarde. E também da quase total ausência do carimbó chamegado no show, sua marca registrada. Quem prestou atenção, ouviu: “Na próxima vez toco mais carimbó”, prometeu Dona Onete.

Sem medo da cafonice
Após os chamegos de Dona Onete com o público, foi a vez do paraense Felipe Cordeiro tomar conta do palco, ao lado da banda “Os astros do século”, que tem seu pai, Manoel Cordeiro, no violão e no teclado. Felipe garantiu uma das vagas do Festival nas Seletivas do Se Rasgum apostando em sonoridades plurais, que passam pela lambada, pela guitarrada paraense, por hits do tecnobrega indo até ao pop retrô. Sonoridades travestidas em uma roupagem desavergonhadamente cafona e costuradas ao pop. O cantor e compositor se entregou à energia do público durante todo o show. As backing vocals, Adelaide Teixeira e Luiza Braga, jogaram charme para rapazes e senhores. E fizeram inveja para a mulherada ao exibir o corpo em forma com roupas bem curtas e coladas ao corpo. Há momentos em que as duas fazem a banda lembrar a Blitz, de Evandro Mesquita, com o seu jeito de cantar e entonar as frases.

“A lambada é uma das minhas principais referências. Eu cresci vendo o jeito de cantar das vocalistas de lambada. E outra referência da banda é a Vanguarda Paulista, que eu acredito que seja também uma das influências da Blitz. Daí, talvez, a semelhança. Só que a gente bebe direto na fonte”, explica Felipe, rindo, suado e ofegante ao final do show. “A sensação é de catarse. Joguei muita energia no palco e o público também jogou. Foi muito bacana trocar essa energia”.

A qualidade técnica do show ficou presente nos arranjos executados com eficiência, nas coreografias bem ensaiadas, em efeitos de luzes, na performance de Cordeiro e companhia, muito à vontades no palco. E, principalmente, nos figurinos, de uma cafonice com ar pop, numa proposta estética que Felipe faz questão de mostrar. Tudo tão milimetricamente pensado que o show perde um pouco de vida, se torna burocrático. Divertido, mas burocrático. Técnico demais. O público aprova e pede bis. No fim, é isso que importa. E Felipe só está começando. Seu disco Kitsch Pop Cult, em fase de pré-produção, tem como produtor o insano e talentoso cantor, ator e compositor André Abujamra.

Ousadia e loucura
O show mais esperado da noite, finalmente, começou quando André Abujamra subiu ao palco com o espetáculo “Mafaro”, um show filme, um filme show difícil de descrever, tamanho o impacto visual e sonoro. É o primeiro trabalho solo de Abujamra na cidade, e a segunda participação do músico no Festival. Em 2009, ele veio com o grupo Görk, uma parceria de André com os integrantes da banda Los Piratas, deixando gente de boca aberta com sua ousadia e loucuras sonoras.

Abujamra voltou a repetir o feito para deleite de fãs e de gente que nunca tinha visto um show ao vivo do músico. A parte filme do trabalho, tem as participações especiais de Marisa Orth, Zeca Baleiro, Luiz Caldas, entre outros nomes que se deixaram guiar pelas ideias de Abujamra. “Mafaro” quer dizer alegria, num dialético africano. O show filme nasceu após uma viagem de Abujamra ao Zimbábue, em 2007, da alegria em explosão dos shows africanos em contraste com a absoluta miséria e pobreza do povo, que nem se aproximam das dificuldades dos brasileiros. “Lá, até o rico não tem o que comer. Mas as pessoas são alegres. Foi quando eu resolvi fazer um show sobre essa alegria. Eu sou muito alegre, mas eu tenho que entender a tristeza pra poder falar da alegria. Agora o resultado tá aqui. E o público foi muito carinhoso [aqui em Belém]. Ele é muito musical. O povo aqui é muito musical. Tem um calor musical impressionante. Eu seria daqui tranquilamente. Eu sinto isso quando venho aqui. Belém é o lugar da música”, elogia André Abujamra.

A pirotecnia de Abujamra não foi suficiente para prender a atenção das pessoas presentes no Hangar. Nem as invenções sonoras dos Djs convidados, Marcelinho da Lua (RJ), Pedro D’Eyrot (PR) e Patrcik Tor4(PA), que passaram pelo evento na primeira noite do Festival. No espaço do deck do Centro de Convenções tinha gente sentada, cansada, entediada. Como a advogada Celi Abedoral, de 35 anos, figura tarimbada desde a primeira edição do Se Rasgum, quando ele ainda era genuinamente rock’n’roll e ainda não apostava na diversidade. Ao lado da amiga, ela sentenciou o motivo do desânimo. “Na verdade, a gente tá achando a festa super chata. As outras edições foram muito boas. Eu vi Mundo Livre S/A, Wander Wildner, Móveis Coloniais de Acajú. Nada a ver o Hangar. Esse espaço nunca foi mobilizado pras pessoas dançarem. Tu vês que a festa tá super vazia, as pessoas estão dispersas”.

Marcelo “Morgado”, de 33 anos, também não gostou do clima transmitido pelo lugar. “O ambiente tá inóspito. A cara do Festival é fora do eixo. E eu tenho a compreensão que esse lugar não tem nada a ver com a proposta contestadora, alternativa do Festival, de fugir do convencional”, acredita o professor.

O diretor artístico do Se Rasgum, Marcelo Damaso, rebate as críticas. “Eu não acho que não tem nada a ver. Eu adoro esse lugar, o espaço. Eu já fui a outros locais que os festivais que são realizados em Centro de Convenções, como o Abril pro Rock, em Recife, por exemplo. E é bom pra caramba. A gente resolveu testar um novo formato. Hoje é uma festa de lançamento do Festival, como a gente fazia nas primeiras edições. No African Bar [dias 13 e 14] é que vai ser o Festival mesmo. Lá é que é a cara da cidade e do festival. O African tem a cara de Belém, no meio daquelas árvores todas dali. E o Se Rasgum já vem rolando desde quarta-feira com a Semana de Profissionalização de Música Paraense. Não basta tá apenas no palco, a gente está vivenciando um período único na música. A gente vive uma era divisora de águas”, analisa Damaso.

Esse momento é repartido com o público, que tem ganhado com as escolhas feitas nas últimas edições do Festival. E elas se repetem em 2010, reafirmando a aposta na diversidade, nos trabalhos autorais e no ineditismo. “Esse ano trouxemos Otto, Cidadão Instigado. Desde a primeira edição queríamos trazer o Cidadão. O Festival é muito caro, custou mais de 300 mil. Tudo depende de recursos. Erasmo Carlos é um sonho. Negociamos com ele esse ano. Ele ficou muito a fim de vir, até pela proposta do Festival. Ele até baixou o preço, mas mesmo assim não deu pra gente trazer. O show é muito caro”, afirma.

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