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Vale o investimento: “Steampunk Ladies”, da editora Draco

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Histórias de faroeste protagonizadas por mulheres não são uma novidade, mas ainda são raras. É este caminho pouco convencional que Steampunk Ladies – Vingança a Vapor escolheu trilhar, com resultado surpreendente.

A trama se concentra em duas desconhecidas, Rabiosa e Sue, unidas pelo destino e pelo desejo de vingança por Lady Delillah e seu bando, os irmãos Bolton. Cada uma das heroínas cruzou o caminho dos malfeitores em diferentes momentos de suas vidas e tiveram que amargar enormes perdas. Unidas acidentalmente, elas percebem que têm mais chance de enfrentar o inimigo comum e impedir o fantástico assalto a um trem blindado.

O roteiro de Zé Wellington é muito bem construído, sem sobressaltos e diálogos que soam naturais. Wellington mostra que é um escritor versátil. Seu trabalho anterior, Quem Matou João Ninguém? se passa num cenário tipicamente brasileiro e se apoia numa estrutura narrativa não linear.

Em Steampunk Ladies, o autor preferiu o ambiente clássico do faroeste: cidades pequenas, amplos desertos, abismos inexpugnáveis. O roteiro é linear, com flashbacks que funcionam de forma orgânica, e lembra alguns bons filmes do gênero.

O desenho de Di Amorim, a finalização de Wilton Santos, cores de Ellis Carlos e diagramação de Deyvison Manes formam um conjunto harmonioso, funcional e agradável.

A editora Draco acerta mais uma vez em apostar em autores nacionais e numa edição caprichada. Em termos de qualidade – de roteiro, arte, produção editorial e gráfica – Steampunk Ladies não perde em nada para álbuns norte-americanos e europeus.

A diferença é que, se houvesse aqui uma indústria de quadrinhos como a daqueles países, Rabiosa e Sue teriam toda condição de estrelar novas aventuras em mais álbuns ou, até, num título mensal de banca. Potencial para isso, tanto as personagens como seus criadores mostraram que têm.

Steampunk Ladies tem 72 páginas, formato 17 x 24,5 cm, capa e miolo coloridos e preço de R$ 34,90. Vale o investimento.

Vale o investimento: “Aú, o Capoeirista, e o Fantasma do Farol”

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O baiano Flavio Luiz é um veterano dos quadrinhos. Com renome e talento para publicar por qualquer editora nacional, dá preferência à produção independente. É uma questão de zelo.

Foi assim com seus últimos trabalhos – Aú, o Capoeirista e O Cabra – e também com o mais recente lançamento, Aú, o Capoeirista e o Fantasma da Farol, todos lançados por sua própria editora, a Papel A2.

Nesta segunda aventura do seu personagem mais famoso, o autor recorreu ao financiamento coletivo por meio do Kickante, e arrecadou R$ 38.120,00, superando a meta de R$ 37.000,00.

Aú, o Capoeirista, e o Fantasma do Farol é uma aventura infantojuvenil da melhor qualidade. Desta vez, o herói vê-se envolvido numa trama que remonta aos tempos do Brasil Colônia e envolve um tesouro escondido.

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A história tem ação, mistério, humor, reviravoltas e belas locações em pontos históricos da Bahia. O traço cartunesco e a linguagem fluente de Flavio Luiz têm tudo para agradar aos jovens leitores, sem que os adultos deixem de apreciar o trabalho.

O livro tem produção caprichada, com capa dura e tamanho grande (29,5 x 21 cm), e preço de R$ 55. Vale o investimento.

“Quem matou João Ninguém?”: Super-herói brasileiro e original

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A principal crítica que se faz à produção de quadrinhos de super-heróis no Brasil é a tentativa de emular a bem-sucedida fórmula norte-americana, em especial das majors Marvel e DC. De fato, o resultado nem sempre é o desejado.

Não é o caso de Quem Matou João Ninguém?, de Zé Wellington, Wagner Nogueira e vários artistas, que a editora Draco acaba de lançar com apoio da Secretaria de Cultura do Ceará.

Claro que é possível identificar alguns elementos conhecidos: o garoto transformado em herói após a morte, o espírito da vingança pessoal que se engaja numa causa maior, o reconhecimento paulatino da sua nova condição. Mas todas essas são questões arquetípicas e estão longe de soar como plágio ou mesmo inspiração.

Sujeito-Homem, o codinome assumido por João depois do seu misterioso assassinato, recebe da Morte uma segunda chance. Sua missão é enfrentar uma força maligna e supostamente sobrenatural que tomou conta do Morro de Santa Edivirges, onde ele e seus amigos convivem desde a infância.

Esta é a deixa para o roteiro de Wellington e Nogueira intercalarem fatos do presente com aqueles em flashback que levaram cada um dos garotos – João, Roberto, Sandro e Nina – a seguirem caminhos tão diferentes. A história tem uma estrutura não-linear em que os acontecimentos vão se justificando à medida que a leitura avança.

Apesar de guardar algumas surpresas (a identidade do vilão Tavão) e do final inconclusivo (João é mesmo um herói ou só um garoto viciado em gibis?), a última parte da história perde um pouco o fôlego. Mas não é nada que comprometa ou desmereça a narrativa como um todo.

Quem matou João Ninguém? é original em diversos sentidos: utiliza a estética mangá sem os excessos típicos do gênero; ambienta a ação num contexto de carência material, a favela; faz a transição competente entre o mundo lúdico das crianças e o mundo cão delas próprias, agora adultas; tem várias referências aos quadrinhos de super-heróis e usa, sem abusar, da metalinguagem (João é desenhista de HQs, estudos de personagem da obra vão parar em sua prancheta).

O mais importante é que esta HQ cria um novo super-herói nacional com enorme potencial de desenvolvimento. Tomara que os autores não venham a continuar dependendo de recursos públicos e possam dar continuidade ao trabalho. Superada a etapa de contar sua origem, Sujeito-Homem, parece, tem ainda muitas aventuras para viver – mesmo estando morto.

Quem matou João Ninguém? tem 120 páginas, capa colorida e miolo em preto e branco. Pode ser adquirida diretamente no site da editora Draco ou da livraria Saraiva por R$ 29,90. Em breve, será lançada a versão em digital por R$ 14,90. Vale o investimento.

Vale o investimento – “Draconian”: Vampiros descolados

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A trajetória de Draconian começou no final dos anos 1990, na extinta revista Dragão Brasil. Com adaptações e adição de histórias inéditas, a criação de Paulo Cesar Santos ganhou publicação própria, independente, em outubro de 2012.

Draconian reúne histórias curtas centradas num grupo de amigos vampiros. A exemplo dos modernos seriados de TV do gênero, eles têm aparência jovem, são descolados e convivem entre os vivos em harmonia e mais ou menos ocultos.

Tocam sua vida da mesma forma que os humanos, frequentam galerias de arte, baladas e trabalham. Uma das melhores frases vem de um atendente de loja: “Mano, nem todo vampiro tem um ‘conde’ antes do nome, tá ligado?”.

Como costuma acontecer nesse tipo de coletânea, o resultado é irregular. Alguns roteiros são mais consistentes e interessantes que outros. Por envolver o mesmo grupo de personagens, as histórias melhoram com a evolução da leitura na medida em que se dão as interligações e a troca de referências entre eles. Atenção para as muitas referências ao rock e à cultura pop.

O elemento que se mantém regular todo o tempo é o traço firme e elegante de Paulo Cesar. Seu estilo clássico faz bom uso do claro e escuro; a diagramação é arrojada e a narrativa, fluida. Destaque para a splash page da história Você deve se lembrar e sua reprodução da França ocupada pelos nazistas em 1941.

Para quem ainda não teve oportunidade de ler, vale a pena uma conferida nesta obra, que conta também com roteiros de André Farias.

Draconian é uma edição caprichada, com 128 páginas, capa colorida e miolo em preto e branco em papel couché. O preço é justo, R$ 20, e a HQ pode ser adquirida nas lojas físicas e virtuais da Gibiteria, Monkix e Comix, ou diretamente com o autor pelo e-mail draconianhq@gmail.com. Vale o investimento.

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