Por Júlio Black

Uma das coisas que mais gosto na dobradinha ficção-científica+distopias é que elas aceitam (quase) tudo. Se você souber contar uma boa história, ter começo e meio e fim, bons personagens, roteiro amarradinho, premissa interessante, não ofender a inteligência do público, dá para colocar comida feita a partir de petróleo, viajar mais rápido que a luz, ter macacos falantes ou entrar numa cabine telefônica e ir parar no futuro distante.

Pois foi com esses paranauês na cachola que resolvi embarcar na leitura de “Undiscovered Country”, uma das novas séries mensais da Image Comics que fechou seu primeiro arco neste distópico 2020.

O projeto saiu das cabeças alucinadas de Scott Snyder (“Batman”, “Vampiro Americano”) e Charles Soule (“Demolidor”, “Darth Vader”), que chamaram para a empreitada o desenhista Giuseppe Camuncoli (“Darth Vader”), Daniele Orlandini para a arte-final e Matt Wilson para cuidar das cores. A série teve a primeira edição publicada pela Image em novembro de 2019, e o primeiro arco (seis edições) chegou ao fim em julho.

A história se passa em um futuro não tão distante, onde o mundo tem encarado algumas tretas de responsa, e um dos principais pagadores do pato são os Estados Unidos da América.

Depois de uma série de eventos que já antecipavam que tinha caroço naquela polenta (tipo construir uma gigantesca muralha com armamento pesado em volta de sua costa e das fronteiras terrestres), a Os EUA decide fechar as fronteiras para o mundo em 2029. É um esquema quem tá fora não entra, quem tá dentro não sai: todo o comércio e comunicações são suspensos, tratados são cancelados, isolamento oficial e adeus mundo.

Eles são melhores com muros do que com pontes

E assim passam-se três décadas, em que ninguém tem a menor ideia do que acontece no interior das fronteiras norte-americanas. Como resultado, o resto do mundo seguiu em frente e hoje está dividido em dois blocos políticos e econômicos antagônicos; para piorar, a humanidade corre o risco de ser varrida do mapa em poucos meses por causa de um novo vírus, Covid-20 o Céu, que mata rápido e não tem cura.

É nesse contexto de “o bicho tá pegando” que os Estados Unidos entram em contato com o resto do planeta pela primeira vez em décadas, oferecendo uma cura para o vírus Céu. Para isso, eles permitem que um grupo heterogêneo de pessoas escolhidas por eles (dois diplomatas, um pesquisador nerd que conhece tudo dos EUA, um militar, uma jornalista e um casal de irmãos – ele mercenário, ela epidemiologista) adentre o território norte-americano pela primeira vez desde 2029.

“Undiscoverd Country” não perde tempo e mostra no ato da matrícula o que aconteceu com os Estados Unidos nesses 30 anos. O helicóptero que transportava o grupo é derrubado logo nas primeiras páginas e nossos aventureiros ficam perdidos no meio de um deserto. Assim, eles descobrem que os Estados Unidos, na verdade, não existem mais. O que há pode ser definido como uma terra de ninguém dividida em facções e habitadas por criaturas mutantes (peixes e tubarões gigantes que andam na terra!) e veículos no estilo o-mundo-acabou-e-juntamos-essas-peças-pra-ver-no-que-dava com referências óbvias de “Mad Max” e “Máquinas Mortais”.

Não vamos entregar mais do que já foi entregue, mas podemos adiantar ainda que os sete “visitantes” são considerados a chave que dará o poder para um grupo ou, na visão da outra facção, fará com que a América do Norte volte a se unir e recuperar sua glória. Caberá a eles decidir se devem – ou não – se aliar a algum dos lados numa boa história que mistura aventura, suspense, violência, teoria da relatividade, drama, segredos, traições, reviravoltas, ação e (porque será?) um cadinho de pessimismo em relação ao nosso futuro não tão distante.

Ah, como no mundo real as barreiras vão sendo ceifadas pela tecnologia, o primeiro arco de “Undiscovered Country” já pode ser adquirido – em inglês – no seu site de compras on-line favorito, como Kindle Unlimited e comiXology.