Como todos sabem, o filme que estreou no Brasil na última sexta-feira (27) encerra a trilogia cinematográfica do Homem-Morcego sob a batuta do diretor Christopher Nolan.

Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge presta-se justamente a isso: fechar, de forma espetacular, o melhor ciclo de vida que o personagem já viveu nos cinemas. Portanto, fica a dica: antes de comprar o ingresso, convém ao espectador ver ou rever os anteriores Batman Begins (2005) e Batman – O Cavaleiro das Trevas (2008).

Isto porque a trama retoma elementos importantíssimos do primeiro filme e parte da premissa que concluiu o segundo: Batman assumiu os crimes e a morte do enlouquecido Harvey Dent – que se tornara o vilão Duas Caras – para que a memória do promotor continuasse a inspirar os cidadãos de Gotham City.

O Cavaleiro das Trevas Ressurge tem início oito anos depois da morte de Dent. A cidade está livre do crime organizado graças à mentira impetrada pelo herói mascarado com a cumplicidade do Comissário Gordon. Perseguido pela polícia, Batman desapareceu e seu alterego Bruce Wayne tornou-se um homem recluso.

A chegada de um novo e poderoso vilão à cidade arranca o Homem-Morcego da aposentadoria. Aos poucos, fica claro que o alvo primário de Bane é a identidade civil do Homem-Morcego, Wayne, e que seu plano vai além da mera dominação de Gotham.

Nesse estágio, Batman/Wayne já é um homem quebrado, um herói fora de forma e sem motivação. No confronto entre os dois, o que Bane faz é simplesmente dar o golpe de misericórdia, numa cena que adapta fielmente a famosa passagem em que ele parte a coluna do herói na saga dos quadrinhos A Queda do Morcego.

Em seu âmago, o filme trata da redenção, e a tradução adotada para a distribuição no Brasil não lhe faz jus. Apesar de correto, “Ressurge” passa a impressão simplista de que o herói está de volta à ativa; “Rise”, na trama, tem muito mais o significado de “elevar-se”, “ascender” ou, num nível mais amplo, “ressuscitar”.

Ao encerrar a trilogia, Nolan – que é também corroteirista do filme junto com David Goyer e seu irmão Jonathan Nolan – demonstra total domínio sobre sua criação. O Cavaleiro das Trevas Ressurge amarra pontas que nem estavam soltas, surpreende com conceitos antigos e encerra de forma épica o ciclo iniciado com a própria origem do Homem-Morcego.

Talvez aí resida o maior defeito do filme: é espetacular como conclusão da trilogia, mas não funciona de forma isolada – diferentemente dos dois anteriores. Em termos dramáticos, Ressurge depende inteiramente de seus antecessores.

Denso, psicológico, político, o novo filme não decepciona os fãs – muito longe disso. No entanto, essa dependência impede que se posicione como o melhor da trilogia. Para ser justo, os três filmes de Nolan devem ser vistos, em perspectiva, como uma peça única em três atos: a gênese, o interlúdio e o epílogo.

Entre as qualidades de Ressurge, e são muitas, vale destacar a atuação do elenco. Mais que a competente direção de Nolan, o que chama atenção é o nível de entrosamento dos atores. Depois de dois filmes juntos, Christian Bale (Batman/Bruce Wayne), Gary Oldman (Comissário Gordon), Michael Caine (o mordomo Alfred) e Morgan Freeman (Lucius Fox) estão inteiramente à vontade não apenas em seus próprios papéis, mas também, e principalmente, na interação entre si.

Tom Hardy, que interpreta o vilão Bane, cumpre exatamente o que lhe é proposto: extremamente forte, assustador mesmo sob a máscara e um assassino sem escrúpulos.

Os olhares estavam voltados de fato para Anne Hathaway. Era grande a expectativa para descobrir como a jovem atriz ficaria no papel de Mulher-Gato, uma das mais populares e ambíguas inimigas do Batman. O que se pode dizer é que sua atuação é apenas correta: envolvente, ardilosa e ágil, conforme o momento pediu. Mas no principal quesito da personagem, a sensualidade, ficou a milhas de distância da matriz dos quadrinhos e de outras atrizes que já vestiram o colante justíssimo da ladra – sem falar que a participação da vilã é tão acessória na trama principal que nem dá pra exigir muito.

Por fim, fica a certeza de que por mais liberdade criativa que Nolan possa ter desfrutado, a Warner não vai abrir mão da sua galinha dos ovos de ouro. O Cavaleiro das Trevas Ressurge fecha um ciclo, mas nem de longe enterra a franquia. O final, surpreendente, abre um horizonte totalmente novo para que Batman continue fazendo a alegria dos fãs no cinema.

Quando – e se – isto acontecer, o novo diretor terá um desafio hercúleo pela frente. Nolan criou um novo paradigma de filmes de super-heróis. Superá-lo ou mesmo igualá-lo não será tarefa fácil.