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Tag: Lana Wachowski

Papo de Quadrinho viu: Matrix Resurrections

Por Adriana Amaral

Um dos filmes mais esperados do ano, Matrix Resurrections nos leva de volta à mitologia criada pelas irmãs Wachowski em 1999. O primeiro filme começou cult e ganhou uma legião de fãs, originou além de duas sequências em 2003, a série de animes Animatrix (2003), o videogame Enter the Matrix, análises acadêmicas e muitos outros produtos.

Um marco do cinema de ficção-científica por resgatar os elementos cyberpunk de Neuromancer (William Gibson, 1984) e discutir de forma visual e pop o conceito de simulacro – referenciando o livro clássico Simulacros & Simulações do teórico francês Jean Baudrillard, o primeiro Matrix nos coloca dentro de um universo “soturno” e que continha o espírito da época em final de século e década (os anos 1990 do século XX).

Isso é representado desde o figurino, à trilha sonora (repleta de clássicos da música eletrônica da época, como o big beat do Prodigy e o industrial do Ministry, entre outros) aos efeitos especiais. Afinal quem nunca se imaginou desviando das balas em bullet-time?

Naquele filme, muito do imaginário da chamada cibercultura (a cultura tecnológica que hoje está em toda parte) estava desenhado: os conflitos humanidade-máquina, orgânico-digital, tecnologia-natureza entre tantos outros binarismos que permearam a ficção e ecoam em como nos relacionamos com as tecnologias enquanto sociedade.

Além disso, a mistura filosófica e religiosa de Platão ao agnosticismo e o budismo levantou muitos debates entre uma ou outra luta de kung-fu usando óculos escuros à noite, vinil e coturnos.

As sequências Matrix Reloaded e Matrix Revolutions (ambos de 2003), apesar de ainda manterem uma estética interessante, não trouxeram grandes inovações como o primeiro, mas estabeleceram e ampliaram os códigos visuais e simbólicos da franquia.

Sem nostalgia barata

Com todo esse contexto “mítico”, era bastante natural que se criassem expectativas em torno de Matrix Resurrections, agora apenas com Lana Wachowski à frente da produção.

Warner Bros. / Crédito: Murray Close

Nesse sentido, o ponto mais positivo do novo filme é justamente o fato de que Lana não se rendeu à nostalgia barata e reconfigura a franquia de forma irônica, e metalinguística e autorreferente na medida certa.

O tom do filme pode ser distinto do que muitos fãs queriam, mas traz ousadia e aponta para um caminho interessante nesse fechamento do universo de Matrix. Afinal, 2021 não é 1999 e os binarismos e dualidades do primeiro filme, embora estejam ainda mais acirrados e popularizados em questões como a do algoritmo e do intenso uso das redes e plataformas digitais, precisam ser ultrapassados.

E aí, o conceito de Resurrections deixa de ser o simulacro/simulação e a disputa com as máquinas e passa ser como superar os binarismos que nos enclausuraram nesse mundo. Binaryi, inclusive, é o nome do novo game que Thomas Anderson / Neo (Keanu Reeves) que trocou a imagem de um cara de TI genérico no primeiro filme para a de game designer pop star 20 anos depois.

A crítica ao binarismo pode ser pensada em várias camadas. Seja na questão de gêneros – a nada sutil metáfora da transição de gênero da própria Lana e de sua irmã Lily – bem como no protagonismo feminino (no qual Trinity é uma referência) e o controle sobre os corpos femininos.

Afinal a Trinity/Tiffany (Carrie-Anne Moss), presa em um casamento entediante e sem memórias em que cede sua energia vital ao sistema, ressurge para uma recuperação de seu papel central na reta final do filme. Também há um certo tom antietarista mostrando que o duo de heróis envelheceu e as dificuldades e contradições que o tom messiânico adquire quando deixamos a juventude.

Outro elemento de crítica ao binarismo está na união entre seres orgânicos e mecânicos, o que garante inclusive a sobrevivência da cidade de Ion e tira o tom um tanto ludita e distópico do primeiro filme, demonstrando que tecnologia e natureza são indissociáveis.

Não há respostas ou soluções fáceis para tais questões e, afinal de contas, estamos diante de uma das maiores franquias pop e cult do cinema, e a saída estética é a da linguagem da ironia e de um certo sarcasmo com o que significa a indústria do entretenimento nos anos 2020, com sua nostalgia exacerbadamente mercadológica e sua repetição de fórmulas.

É aqui que o filme ousa e não dá a um certo tipo de fã exatamente o que ele quer, como tem sido a regra do mercado. A inserção das referências é de outra ordem, por horas extremamente pessoal, por outra tentando falar de várias questões que foram correntes nos últimos 20 anos e nos quais Matrix já falava lá atrás: a questão transmídia, o impacto da cultura digital, os borrões entre a realidade e a ficção (algumas sombras “philipkdickianas” aprecem aqui e acolá na primeira metade do filme).

Dessa forma, outra boa sacada de Resurrections é o contexto do ambiente dos estúdios de criação de games e das indústrias criativas como um todo em seus estereótipos e jargões inseridos para dentro do contexto da própria Matrix. A atualização do conceito de bot, que já havia no primeiro filme, faz pensar bastante nas dinâmicas dos ataques virtuais.

Outro ponto de destaque é o grupo de “outcasts” que atuam junto com Neo e Trinity: todos queer e diversos. Jessica Henwick está perfeita como Bugs e Jonathan Groff faz um novo Smith que ao mesmo tempo lembra Hugo Weaving, mas tem suas questões específicas. Já o Analista de Neil Patrick Harris é um tanto caricato.

O novo Morpheus, no entanto, foi de certa forma subaproveitado em suas duas versões, embora o ator Yahya Abdul-Mateen II tenha se esforçado. O figurino de Lindsay Pugh, que já havia trabalhado com Lana em Sense8, é outro acerto e mantém o tom icônico que Kim Barret estabeleceu nos filmes anteriores em sua mistura de moda alternativa com elegância da alfaiataria em meio a lutas e explosões.

Apesar de algumas pontas soltas e de um tempo um tanto longo, Matrix Resurrections leva a franquia adiante de forma digna, atual e muito bem-humorada, sem apelações sentimentaloides, mesmo trazendo o amor como uma tecnologia que tem potencial para desconstruir os binarismos além do bem e do mal. A importância de se contar histórias e construir universos talvez seja o grande poder, ao transformar a vida das pessoas.

Não é uma ideia nova, pois no fundo a ficção cyberpunk ainda tem suas raízes calcadas em elementos românticos, mas faz com que o elo entre a dupla de heróis ganhe mais importância do que a narrativa redentora do “salvador”.

As ressurreições do título do filme aludem mais à ressurreição do próprio universo de Matrix e da construção de mundos ficcionais como um todo do que a uma tentativa cristã de ressuscitar Neo.

Preparados para voltarem à Matrix? Sim, o filme é divertido e contemporâneo, com cenas de luta e perseguição na medida certa.

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