Em respeito aos leitores, esta crítica não contém spoilers.

Batman estrelou ou coestrelou nove filmes em 28 anos (1989-2017), média de um filme a cada 3 anos. Encurralado por esta superexposição do Homem-Morcego nos cinemas e pressionado pelo embarque num projeto em andamento abandonado por Ben Affleck, Matt Reeves (mais conhecido por seu trabalho na nova franquia Planeta dos Macacos) saiu-se magistralmente bem em Batman, que estreia nos cinemas brasileiros nesta quinta, dia 3.

No roteiro que divide com Peter Craig (de Jogos Vorazes e do ótimo Imperdoável, com Sandra Bullock), Reeves optou por iniciar a nova franquia do Batman numa condição inédita, ao situar a trama no segundo ano de sua luta contra o crime de Gotham City.

Com isso, fugiu da armadilha de reencenar, mais uma vez, o assassinato do casal Wayne que se converteria na gênese do Batman. No lugar, e sem apelar para imagens em flashback, o diretor preferiu refletir todo o trauma da perda precoce no comportamento angustiante do adulto Bruce Wayne e no olhar doloroso que ele dedica a uma criança que acabou de perder os pais também de forma brutal.

Herói atormentado

Robert Pattinson dá conta do recado com competência. Ironicamente, o ator padeceu da mesma rejeição que alguns de seus antecessores, como Michael Keaton, no filme de 1989, e Ben Affleck, no de 2016. Com a memória paralisada pela imagem do vampiro na franquia adolescente Crepúsculo, parcela dos fãs se esqueceu de conferir o amadurecimento dramático de Pattinson em filmes como O Farol e O Diabo de Cada Dia, só para citar dois entre muitos exemplos.

Você nunca viu – e dificilmente verá num futuro próximo – um Bruce Wayne/Batman tão atormentado, sombrio e depressivo quanto o construído por Reeves e Pattinson. A construção vem ao encontro da opção do diretor por um suposto “realismo” (até onde isso é possível dentro do gênero) que se aproxima mais da narrativa e da estética de Coringa do que da trilogia de Christopher Nolan, que flertou com este conceito “pé no chão”.

Robert Pattinson encarna a versão mais atormentada de Batman/Bruce Wayne até hoje

Reeves inovou até no jeito de explorar o batido efeito aterrador que a fantasia de morcego causa nos marginais. Em Batman, a mera projeção do batsinal no céu carregado de Gotham é suficiente para que muitos deles repensem seus crimes em andamento. A razão do medo se manifesta quando o vigilante surge mesclado às sombras e caminha com passos retumbantes. A fórmula pode não ser inédita, mas aqui é bastante eficaz.

A violência é crua, direta, sem malabarismos nem bandidos voando a metros de distância. O batmóvel é pouco mais que um carro antigo tunado; a moto é potente, mas nada espetacular; e o conhecido arpéu e um ou outro gadget continuam lá. Mas, em Batman, é o herói quem define a tecnologia, e não o contrário.

Sádico e calculista

Adeus, uniforme colante! O Charada é um sociopata que quer se vingar de Gotham City

Também na escolha do principal vilão da trama Reeves buscou não repetir fórmulas recentes. A última aparição do Charada em carne e osso se deu no longínquo 1995, em Batman Eternamente, interpretado de forma caricata por Jim Carrey. Ainda que mantenha o hábito de deixar pistas nas cenas dos crimes, a nova versão é um sádico que trocou o uniforme espalhafatoso por uma indumentária militar.

Embora o ator Paul Dano apareça na maior parte do tempo com o rosto coberto, quando se revela ele consegue transmitir a complexidade de seu personagem: um sociopata calculista e rancoroso, mas também um homem de compleição frágil que descobre como fazer de Batman os músculos de seu cérebro doentio para cumprir a vingança contra a cidade corrupta que o traiu.

Mais que enaltecer seus crimes, as pistas deixadas pelo Charada visam a enredar e esfregar na cara do Homem-Morcego a parcela do submundo que ele desconhece, aquela ocupada pela elite da cidade.

Nesta decida ao inferno, Batman se envolve com outras figuras de sua potencial galeria de vilões: Mulher-Gato e Pinguim, que, assim como ele, estão em início de carreira.

Irreconhecível por baixo da maquiagem, Colin Farrell faz um Pinguim irretocável, um capanga de segundo escalão, cínico e grosseiro, em busca de brechas para subir na hierarquia do crime organizado. O personagem está cotado para ganhar sua própria série no canal HBO Max, com Farrell de volta ao papel.

Zöe Kravitz, ótima, acaba de tomar o posto de Michelle Pfiffer como a Mulher-Gato definitiva do cinema. A trama é bastante feliz em explorar a tensão sexual entre a gata e o morcego, evidenciando de forma orgânica os aspectos que os igualam, mas também que os diferenciam e impedem que o romance prospere.

Salada de referências

Fãs dos quadrinhos vão reconhecer influências de Ano Um, O Longo Dia das Bruxas e Silêncio; cinéfilos vão se divertir caçando semelhanças com filmes noir como Falcão Maltês, policiais como Operação França e de terror, mais notadamente Seven, Zodíaco e Jogos Mortais.

O diretor Matt Reeves transita entre o estilo noir e os filmes de terror

Desta salada de referências e contando com um elenco espetacular – no qual estão incluídos, ainda, Jeffrey Wright como o tenente James Gordon, Andy Serkis como Alfred e John Turturro como Carmine Falcone – Reeves fez um filme original, único em sua proposta de revitalizar a franquia do Homem-Morcego e o gênero como um todo, sem, no entanto, abandonar elementos de um bom filme de super-heróis.

Neste quesito, vale a pena citar que Batman tem, sim, os easter eggs que fazem a alegria dos fãs, mas em volume muito menor do que os filmes recentes vêm entregando.

Para não dizer que são tudo são flores, Batman começa a perder o fôlego a partir da terça parte de suas quase três horas de duração, quando alguns clichês e elementos fantasiosos até então evitados começam a dar as caras. Nada que comprometa o conjunto, mas que poderia ser mantido afastado por uma questão de coerência.

Ainda assim, Batman acaba de abrir uma disputa honesta com O Cavaleiro das Trevas pelo posto de melhor filme do Homem-Morcego de todos os tempos.

Papo de Quadrinho assistiu a Batman a convite da assessoria de imprensa da Warner Bros. em São Paulo e da agência Espaço Z em Porto Alegre.

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