Revista O Grito!

Papo de Quadrinho — O Grito! Blogs – Quadrinhos

Category: Mangá (Page 3 of 3)

Crítica: Círculo de Fogo homenageia monstros e robôs japoneses

Círculo_de_Fogo_-_Pôster_Finalxxx
A convite da Warner, o Papo de Quadrinho viu uma exibição exclusiva. Esta resenha não possui spoilers.

Por Társis Salvatore

Robôs, naves e monstros são provavelmente a tríade responsável por transformar a vida de todos os nerds da minha geração, deixando-a apaixonada por ficção científica, fantasia e filmes de ação.
Ainda que sem os recursos técnicos deste século, todos se impressionavam com as lutas coreografadas e os seres simbióticos de Robô Gigante (1967 – Toei Company), com a fúria da tartaruga espacial Gamera (1965 – Daiei), com a ferocidade de Godzilla (1954 – Toho Film Company Ltd.), destruindo Tóquio semanalmente.

Ainda haviam os icônicos guardiões espaciais da Terra e matadores de monstros: Spectreman (1971 – P-Productions), Ultraman (1966 – Tsuburaya Productions) e Ultraseven (1967 – Tsuburaya Productions); e anos mais tarde, novos robôs surgiram com os camuflados Transformers e os fantásticos Gundam, (misto de robôs gigantes e caças).
Os nerds fãs destes seriados chegariam a Hollywood com a cabeça repleta de referências que somadas com a tecnologia e possibilidades de produção atuais, mudariam a Cultura Pop neste século.

PR-TRL2-0045Círculo de Fogo (Pacific Rim) é o oitavo filme do diretor mexicano Guillermo del Toro (de Hellboy e O Labirinto do Fauno) e é uma homenagem aos monstros e robôs japoneses, numa roupagem atualizada, realizada com efeitos especiais monumentais.

Quando legiões de criaturas monstruosas, conhecidas como Kaiju, surgem de uma fenda no mar, uma guerra se inicia e milhões de vidas humanas são perdidas, gerando o caos e consumindo os recursos da humanidade.

Sem a chance de combater a ameaça com armas comuns, um tipo especial de armamento foi desenvolvido: centenas de robôs gigantes, chamados “Jaegers” (caçadores em alemão).
Esses robôs precisam ser controlados simultaneamente por dois pilotos em seu interior, cujas mentes estão ligadas por uma ponte neural, único modo de haver sincronia entre homem e máquina. Mas após anos de guerra, mesmo os Jaegers acabam se mostrando ineficazes contra os incansáveis Kaiju.

É ai que surge um isolado ex-piloto, Raleigh Becket (Charlie Hunnam) e outra novata não formada, Mako Mori (Rinko Kikuchi) – que se unem em uma equipe para pilotar um lendário, porém obsoleto Jaeger: o Gipsy Danger. Juntos, eles são a última esperança da humanidade à destruição iminente.

Guilherme del Toro é competente ao apresentar os personagens em meio a tantos efeitos especiais, mas não há mistério para conduzir essa trama simples.
Como são necessários dois pilotos unidos mentalmente para controlar o Jaeger, a nova equipe formada por  Becket e Mori, precisa superar suas perdas do passado e se tornarem uma mente una para salvar a humanidade.
SS-KH-16501rOs erros e motivações dos dois pilotos guiam a história, cercados por coadjuvantes que celebram os “personagens arquetípicos” que enriqueciam o universo dos seriados japoneses: os cientistas “excêntricos”, Dr. Newton Geiszler (Charlie Day) e seu colega Gottlieb (Burn Gorman); o coronel “durão”, Stacker Pentecost (Idris Elba), além do traficante de carne de monstro, Hannibal Chau (Ron Pearlman).

O visual do filme e seus detalhes, impressionam. Desde a concepção dos robôs Jaegers, que variam de acordo com sua nacionalidade (há robôs representando diversos países), até as grandes batalhas de defesa da Terra, que são proporcionalmente perfeitas. Uma dica: repare na luta do “Gipsy Danger” no cais de Hong Kong.

Os monstros são um show a parte. Ferozes e onipresentes, eles tem um design “geneticamente adaptado” para enfrentar os Jaegers ao longo da história e contam com uma bio luminescência bacanérrima.
Por fim, o destaque é o 3D bem utilizado. Para ficar em sintonia com essa opção do mercado, o próprio del Toro, que nunca foi fã do 3D, diz que o utilizou “com muito cuidado”.
O resultado é sutil e agrada, principalmente este Editor que tem sérias restrições com 3D.

Claro que Círculo de Fogo não vai mudar a história do cinema, mas cumpre seu papel de ser empolgante e divertido.
Tecnicamente impecável, o filme é uma merecida homenagem aos criadores de seriados e filmes “de robôs e monstros”, que no século passado, com poucos recursos técnicos e muita imaginação, foram capazes de fazer a alegria das crianças, que vibraram e se divertiram com esses combates colossais e impossíveis.
Dê uma conferida e mate saudades do super-herói japonês que existe em você. O filme estreia dia 9 de agosto nos cinemas.

NOTA: 7,5

A volta de One Piece

O popular mangá (com o perdão do pleonasmo) chega hoje (15) às bancas de todo o País pela Panini.

De forma bastante inteligente, a editora vai lançar a coleção de duas formas: desde o número 1, para cativar novos leitores, e, em paralelo, a partir da edição 36 – agradando, desta forma, os milhares de fãs que ficaram órfãos quando a Conrad interrompeu a publicação nesta numeração no Brasil. A coleção total de One Piece é formada por 63 edições.

A obra de Eiichiro Oda é centrada em Luffy, o rei dos piratas que ganhou poderes para esticar seu corpo como um homem-borracha. Ele reúne uma tripulação para encontrar o “One Piece”, maior de todos os tesouros e cobiçado por outros piratas e, no caminho, enfrenta muitos perigos.

Cada edição mensal terá cerca de 200 páginas e preço de R$ 10,90. A publicação pela Panini vem com nova tradução e respeita o número de páginas do original japonês, acrescida de comentários do autor e glossário de termos japoneses.

Ótima pedida para quem é fã do gênero.

5 perguntas para Sonia Luyten

 Sonia Luyten é a maior especialista brasileira em mangás. Mestre e doutora em Ciências da Comunicação pela ECA-USP, tem mais de três décadas dedicadas ao estudo, docência e pesquisa dos quadrinhos no Brasil, Oriente e Europa. É autora de vários artigos e livros sobre o tema, com destaque para o livro: “Mangá: o poder dos Quadrinhos Japoneses”.

Sônia responde as 5 Perguntas do Papo de Quadrinho:

1) Quem foi o grande responsável pelo interesse dos jovens nos animes e mangás no Brasil? Existe algum marco: filme, desenho ou gibi?
Embora já houvesse algumas publicações de mangá e algumas TVs  mostrando animes no Brasil, o grande boom aconteceu de forma global (e o Brasil entrou neste contexto no final dos anos 1990), com Cavaleiros do Zodíaco, e a Cultura Pop japonesa – como um todo – passou a fazer parte do universo dos jovens brasileiros. Algumas editoras comerciais como a Conrad, JBC e Panini iniciaram a tradução e publicação de mangás que já haviam sido sucesso no Japão. Isto somou-se à febre dos animes, concursos de cosplays e os megaencontros em todo Brasil.

2) A que você atribui esse interesse dos jovens brasileiros pelo mangá, em vez dos tradicionais super-heróis Marvel/DC?
Os motivos são vários. Em primeiro lugar, sempre houve um vazio editorial para o segmento dos adolescentes, que era preenchido com publicações estrangeiras. O Mauricio de Sousa, hoje em dia, faz sucesso com a Turma da Mônica Jovem exatamente por sua boa qualidade e deu continuidade aos fãs fiéis da infância.
Outro fator foi a globalização da Cultura Pop japonesa que – com a difusão pela internet – entrou de cheio no Brasil. Estes jovens, mais do que depressa, passaram a “ver” o que estava acontecendo no mundo. No final dos anos 1990 e início do novo milênio, os super heróis americanos já estavam desgastados. O mangá e anime entraram no gosto do jovem brasileiro (e também de outras partes do mundo) em função de vários fatores: os heróis não são eternos. Eles duram enquanto são publicados. A indústria japonesa sabe fazer seu marketing e eles estão presentes em todo lugar – merchandising, objetos, itens de coleção etc. Os heróis japoneses também são mais humanos. Eles sofrem, são persistentes e lutam por seu ideal. Tem muito a ver com a cultura oriental, de origem confucionista. Por fim, a estética do mangá e anime é muito atraente, vibrante e entrou no gosto internacional.

3) O sucesso comercial de Turma da Mônica Jovem no estilo mangá é uma prova de que para se ter sucesso editorial aqui no Brasil é preciso pensar em desenhar nesse estilo?
Não necessariamente. Não sou contra o desenho em estilo mangá pois o mangá não é propriedade do Japão. Sempre digo que a arte não tem fronteiras.
Os japoneses, no início de sua produção, copiaram o modelo ocidental. Logo perceberam que tanto o conteúdo como o desenho não iam ao encontro do gosto japonês. O próprio criador da palavra mangá, o famoso xilogravurista Hokusai, teve muita influência da Europa, dos gravuristas holandeses.
Acredito que, no Brasil, muitos jovens gostam de fazer HQ  em estilo mangá. Mas não basta. É preciso ter um bom roteiro. Com um bom roteiro pode-se fazer histórias em qualquer estilo. Temos, portanto, que olhar para dentro, procurar algo que o público se identifique. E não ter vergonha de nós mesmos: tanto no estilo como no roteiro. Os japoneses conseguiram isto. Por que não a gente?

4) Os tablets afetam (ou não) o mercado de mangás?
Nenhum meio de comunicação ou inovação tecnológica atrapalha o outro. Com o advento do rádio, o jornal impresso modificou-se, com o advento da TV, o rádio idem. Com a internet, os outros meios de comunicação adaptaram-se a ela. Os tablets vieram para somar e não atrapalhar.

5) Quando nós editores do Papo de Quadrinho conhecemos o mangá, havia basicamente o Akira, o Lobo Solitário, além de uma minissérie, Crying Freeman. Hoje existem centenas de mangás nas bancas brasileiras. Como escolher um entre tantas opções? Você tem alguma dica para facilitar a vida de quem não conhece os títulos e inúmeros subgêneros do mangá?
Se alguém quer se iniciar no mundo dos mangás, deve começar com Osamu Tezuka. Tem várias histórias deles traduzidas no Brasil e também sua vida e obra (da Conrad, da qual fiz a introdução).
Uma obra belíssima é Buda. Vale a pena ler, recomendado para todas as idades.
O básico para anime é também Tezuka (Astro Boy) e  Miyazaki, com inúmeros títulos: La PiutaA viagem de Chihiro, Naushika e Totoro.
No Brasil, editorialmente, não há um segmento definido para o público masculino e feminino como no Japão, mas pode-se escolher entre Sakurai, Dragonball, Samurai X, Death Note (que foi muito bem adaptado no Brasil para uma peça de teatro) Naruto e One Piece.
Para um público mais cult recomendo o mangá Mulheres, de Yoshihiro Tatsumi. Ele inventou o termo “gekigá”, que significa drama (geki) ilustrado (gá), para designar uma nova maneira de se fazer mangá, com temas adultos, desconcertantes e até cruéis. Fiz também a introdução deste belíssmo exemplar falando de Tatsumi e a retratação das mulheres numa época de pobreza no Japão.

Page 3 of 3

Papo de Quadrinho é um blog da Revista O Grito!. Todos os direitos reservados. © 2013–2021