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Papo de Quadrinho viu: Batman

Em respeito aos leitores, esta crítica não contém spoilers.

Batman estrelou ou coestrelou nove filmes em 28 anos (1989-2017), média de um filme a cada 3 anos. Encurralado por esta superexposição do Homem-Morcego nos cinemas e pressionado pelo embarque num projeto em andamento abandonado por Ben Affleck, Matt Reeves (mais conhecido por seu trabalho na nova franquia Planeta dos Macacos) saiu-se magistralmente bem em Batman, que estreia nos cinemas brasileiros nesta quinta, dia 3.

No roteiro que divide com Peter Craig (de Jogos Vorazes e do ótimo Imperdoável, com Sandra Bullock), Reeves optou por iniciar a nova franquia do Batman numa condição inédita, ao situar a trama no segundo ano de sua luta contra o crime de Gotham City.

Com isso, fugiu da armadilha de reencenar, mais uma vez, o assassinato do casal Wayne que se converteria na gênese do Batman. No lugar, e sem apelar para imagens em flashback, o diretor preferiu refletir todo o trauma da perda precoce no comportamento angustiante do adulto Bruce Wayne e no olhar doloroso que ele dedica a uma criança que acabou de perder os pais também de forma brutal.

Herói atormentado

Robert Pattinson dá conta do recado com competência. Ironicamente, o ator padeceu da mesma rejeição que alguns de seus antecessores, como Michael Keaton, no filme de 1989, e Ben Affleck, no de 2016. Com a memória paralisada pela imagem do vampiro na franquia adolescente Crepúsculo, parcela dos fãs se esqueceu de conferir o amadurecimento dramático de Pattinson em filmes como O Farol e O Diabo de Cada Dia, só para citar dois entre muitos exemplos.

Você nunca viu – e dificilmente verá num futuro próximo – um Bruce Wayne/Batman tão atormentado, sombrio e depressivo quanto o construído por Reeves e Pattinson. A construção vem ao encontro da opção do diretor por um suposto “realismo” (até onde isso é possível dentro do gênero) que se aproxima mais da narrativa e da estética de Coringa do que da trilogia de Christopher Nolan, que flertou com este conceito “pé no chão”.

Robert Pattinson encarna a versão mais atormentada de Batman/Bruce Wayne até hoje

Reeves inovou até no jeito de explorar o batido efeito aterrador que a fantasia de morcego causa nos marginais. Em Batman, a mera projeção do batsinal no céu carregado de Gotham é suficiente para que muitos deles repensem seus crimes em andamento. A razão do medo se manifesta quando o vigilante surge mesclado às sombras e caminha com passos retumbantes. A fórmula pode não ser inédita, mas aqui é bastante eficaz.

A violência é crua, direta, sem malabarismos nem bandidos voando a metros de distância. O batmóvel é pouco mais que um carro antigo tunado; a moto é potente, mas nada espetacular; e o conhecido arpéu e um ou outro gadget continuam lá. Mas, em Batman, é o herói quem define a tecnologia, e não o contrário.

Sádico e calculista

Adeus, uniforme colante! O Charada é um sociopata que quer se vingar de Gotham City

Também na escolha do principal vilão da trama Reeves buscou não repetir fórmulas recentes. A última aparição do Charada em carne e osso se deu no longínquo 1995, em Batman Eternamente, interpretado de forma caricata por Jim Carrey. Ainda que mantenha o hábito de deixar pistas nas cenas dos crimes, a nova versão é um sádico que trocou o uniforme espalhafatoso por uma indumentária militar.

Embora o ator Paul Dano apareça na maior parte do tempo com o rosto coberto, quando se revela ele consegue transmitir a complexidade de seu personagem: um sociopata calculista e rancoroso, mas também um homem de compleição frágil que descobre como fazer de Batman os músculos de seu cérebro doentio para cumprir a vingança contra a cidade corrupta que o traiu.

Mais que enaltecer seus crimes, as pistas deixadas pelo Charada visam a enredar e esfregar na cara do Homem-Morcego a parcela do submundo que ele desconhece, aquela ocupada pela elite da cidade.

Nesta decida ao inferno, Batman se envolve com outras figuras de sua potencial galeria de vilões: Mulher-Gato e Pinguim, que, assim como ele, estão em início de carreira.

Irreconhecível por baixo da maquiagem, Colin Farrell faz um Pinguim irretocável, um capanga de segundo escalão, cínico e grosseiro, em busca de brechas para subir na hierarquia do crime organizado. O personagem está cotado para ganhar sua própria série no canal HBO Max, com Farrell de volta ao papel.

Zöe Kravitz, ótima, acaba de tomar o posto de Michelle Pfiffer como a Mulher-Gato definitiva do cinema. A trama é bastante feliz em explorar a tensão sexual entre a gata e o morcego, evidenciando de forma orgânica os aspectos que os igualam, mas também que os diferenciam e impedem que o romance prospere.

Salada de referências

Fãs dos quadrinhos vão reconhecer influências de Ano Um, O Longo Dia das Bruxas e Silêncio; cinéfilos vão se divertir caçando semelhanças com filmes noir como Falcão Maltês, policiais como Operação França e de terror, mais notadamente Seven, Zodíaco e Jogos Mortais.

O diretor Matt Reeves transita entre o estilo noir e os filmes de terror

Desta salada de referências e contando com um elenco espetacular – no qual estão incluídos, ainda, Jeffrey Wright como o tenente James Gordon, Andy Serkis como Alfred e John Turturro como Carmine Falcone – Reeves fez um filme original, único em sua proposta de revitalizar a franquia do Homem-Morcego e o gênero como um todo, sem, no entanto, abandonar elementos de um bom filme de super-heróis.

Neste quesito, vale a pena citar que Batman tem, sim, os easter eggs que fazem a alegria dos fãs, mas em volume muito menor do que os filmes recentes vêm entregando.

Para não dizer que são tudo são flores, Batman começa a perder o fôlego a partir da terça parte de suas quase três horas de duração, quando alguns clichês e elementos fantasiosos até então evitados começam a dar as caras. Nada que comprometa o conjunto, mas que poderia ser mantido afastado por uma questão de coerência.

Ainda assim, Batman acaba de abrir uma disputa honesta com O Cavaleiro das Trevas pelo posto de melhor filme do Homem-Morcego de todos os tempos.

Papo de Quadrinho assistiu a Batman a convite da assessoria de imprensa da Warner Bros. em São Paulo e da agência Espaço Z em Porto Alegre.

Papo de Quadrinho viu: Matrix Resurrections

Por Adriana Amaral

Um dos filmes mais esperados do ano, Matrix Resurrections nos leva de volta à mitologia criada pelas irmãs Wachowski em 1999. O primeiro filme começou cult e ganhou uma legião de fãs, originou além de duas sequências em 2003, a série de animes Animatrix (2003), o videogame Enter the Matrix, análises acadêmicas e muitos outros produtos.

Um marco do cinema de ficção-científica por resgatar os elementos cyberpunk de Neuromancer (William Gibson, 1984) e discutir de forma visual e pop o conceito de simulacro – referenciando o livro clássico Simulacros & Simulações do teórico francês Jean Baudrillard, o primeiro Matrix nos coloca dentro de um universo “soturno” e que continha o espírito da época em final de século e década (os anos 1990 do século XX).

Isso é representado desde o figurino, à trilha sonora (repleta de clássicos da música eletrônica da época, como o big beat do Prodigy e o industrial do Ministry, entre outros) aos efeitos especiais. Afinal quem nunca se imaginou desviando das balas em bullet-time?

Naquele filme, muito do imaginário da chamada cibercultura (a cultura tecnológica que hoje está em toda parte) estava desenhado: os conflitos humanidade-máquina, orgânico-digital, tecnologia-natureza entre tantos outros binarismos que permearam a ficção e ecoam em como nos relacionamos com as tecnologias enquanto sociedade.

Além disso, a mistura filosófica e religiosa de Platão ao agnosticismo e o budismo levantou muitos debates entre uma ou outra luta de kung-fu usando óculos escuros à noite, vinil e coturnos.

As sequências Matrix Reloaded e Matrix Revolutions (ambos de 2003), apesar de ainda manterem uma estética interessante, não trouxeram grandes inovações como o primeiro, mas estabeleceram e ampliaram os códigos visuais e simbólicos da franquia.

Sem nostalgia barata

Com todo esse contexto “mítico”, era bastante natural que se criassem expectativas em torno de Matrix Resurrections, agora apenas com Lana Wachowski à frente da produção.

Warner Bros. / Crédito: Murray Close

Nesse sentido, o ponto mais positivo do novo filme é justamente o fato de que Lana não se rendeu à nostalgia barata e reconfigura a franquia de forma irônica, e metalinguística e autorreferente na medida certa.

O tom do filme pode ser distinto do que muitos fãs queriam, mas traz ousadia e aponta para um caminho interessante nesse fechamento do universo de Matrix. Afinal, 2021 não é 1999 e os binarismos e dualidades do primeiro filme, embora estejam ainda mais acirrados e popularizados em questões como a do algoritmo e do intenso uso das redes e plataformas digitais, precisam ser ultrapassados.

E aí, o conceito de Resurrections deixa de ser o simulacro/simulação e a disputa com as máquinas e passa ser como superar os binarismos que nos enclausuraram nesse mundo. Binaryi, inclusive, é o nome do novo game que Thomas Anderson / Neo (Keanu Reeves) que trocou a imagem de um cara de TI genérico no primeiro filme para a de game designer pop star 20 anos depois.

A crítica ao binarismo pode ser pensada em várias camadas. Seja na questão de gêneros – a nada sutil metáfora da transição de gênero da própria Lana e de sua irmã Lily – bem como no protagonismo feminino (no qual Trinity é uma referência) e o controle sobre os corpos femininos.

Afinal a Trinity/Tiffany (Carrie-Anne Moss), presa em um casamento entediante e sem memórias em que cede sua energia vital ao sistema, ressurge para uma recuperação de seu papel central na reta final do filme. Também há um certo tom antietarista mostrando que o duo de heróis envelheceu e as dificuldades e contradições que o tom messiânico adquire quando deixamos a juventude.

Outro elemento de crítica ao binarismo está na união entre seres orgânicos e mecânicos, o que garante inclusive a sobrevivência da cidade de Ion e tira o tom um tanto ludita e distópico do primeiro filme, demonstrando que tecnologia e natureza são indissociáveis.

Não há respostas ou soluções fáceis para tais questões e, afinal de contas, estamos diante de uma das maiores franquias pop e cult do cinema, e a saída estética é a da linguagem da ironia e de um certo sarcasmo com o que significa a indústria do entretenimento nos anos 2020, com sua nostalgia exacerbadamente mercadológica e sua repetição de fórmulas.

É aqui que o filme ousa e não dá a um certo tipo de fã exatamente o que ele quer, como tem sido a regra do mercado. A inserção das referências é de outra ordem, por horas extremamente pessoal, por outra tentando falar de várias questões que foram correntes nos últimos 20 anos e nos quais Matrix já falava lá atrás: a questão transmídia, o impacto da cultura digital, os borrões entre a realidade e a ficção (algumas sombras “philipkdickianas” aprecem aqui e acolá na primeira metade do filme).

Dessa forma, outra boa sacada de Resurrections é o contexto do ambiente dos estúdios de criação de games e das indústrias criativas como um todo em seus estereótipos e jargões inseridos para dentro do contexto da própria Matrix. A atualização do conceito de bot, que já havia no primeiro filme, faz pensar bastante nas dinâmicas dos ataques virtuais.

Outro ponto de destaque é o grupo de “outcasts” que atuam junto com Neo e Trinity: todos queer e diversos. Jessica Henwick está perfeita como Bugs e Jonathan Groff faz um novo Smith que ao mesmo tempo lembra Hugo Weaving, mas tem suas questões específicas. Já o Analista de Neil Patrick Harris é um tanto caricato.

O novo Morpheus, no entanto, foi de certa forma subaproveitado em suas duas versões, embora o ator Yahya Abdul-Mateen II tenha se esforçado. O figurino de Lindsay Pugh, que já havia trabalhado com Lana em Sense8, é outro acerto e mantém o tom icônico que Kim Barret estabeleceu nos filmes anteriores em sua mistura de moda alternativa com elegância da alfaiataria em meio a lutas e explosões.

Apesar de algumas pontas soltas e de um tempo um tanto longo, Matrix Resurrections leva a franquia adiante de forma digna, atual e muito bem-humorada, sem apelações sentimentaloides, mesmo trazendo o amor como uma tecnologia que tem potencial para desconstruir os binarismos além do bem e do mal. A importância de se contar histórias e construir universos talvez seja o grande poder, ao transformar a vida das pessoas.

Não é uma ideia nova, pois no fundo a ficção cyberpunk ainda tem suas raízes calcadas em elementos românticos, mas faz com que o elo entre a dupla de heróis ganhe mais importância do que a narrativa redentora do “salvador”.

As ressurreições do título do filme aludem mais à ressurreição do próprio universo de Matrix e da construção de mundos ficcionais como um todo do que a uma tentativa cristã de ressuscitar Neo.

Preparados para voltarem à Matrix? Sim, o filme é divertido e contemporâneo, com cenas de luta e perseguição na medida certa.

Papo de Quadrinho Viu: Homem-Aranha – Sem Volta para Casa

Para não comprometer a experiência dos leitores, esta crítica não contém spoilers.

Em entrevista à revista Empire, o diretor Jon Watts comparou Homem-Aranha – Sem Volta para Casa, que chega às telas brasileiras nesta quinta-feira (16), a Vingadores: Ultimato, filme de 2019 que colocou um ponto final no primeiro grande arco de histórias do Universo Cinematográfico da Marvel (UCM).

Embora não tenha o mesmo clima épico, a comparação faz sentido. O terceiro filme solo do Amigão da Vizinhança carrega um tom de epílogo, conclui o que foi construído até aqui na trajetória de Peter Parker e escancara o caminho para a renovação da franquia aracnídea.

Não é preciso ter assistido a todos os filmes anteriores para entender e curtir Sem Volta para Casa; mas, da mesma forma que em Ultimato, quanto maior o repertório da audiência, melhor a experiência. Com a diferença que, no caso do Aranha, isso se estende às produções da Sony: a trilogia de Sam Raimi (2002-2007) e os dois filmes de Marc Webb (2012 e 2014).

Trama conhecida

Na trama já conhecida por quem assistiu aos trailers, a identidade secreta do Homem-Aranha, Peter Parker (Tom Holland), foi revelada ao mundo pelo vilão Mystério (Jake Gyllenhaal) na cena pós-crédito do filme anterior, Longe de Casa (2019).

Sem Volta para Casa retoma neste ponto para evidenciar todos os problemas que a publicidade indesejada traz para Peter e para as pessoas que ele ama: a tia May Parker (Marisa Tomei), a namorada Michelle Jones (Zendaya) e o melhor amigo Ned Leeds (Jacob Batalon).

Sem se dedicar muito na busca por alternativas, Peter recorre a seu colega Doutor Estranho (Benedict Cumberbatch) e encomenda um feitiço para apagar o conhecimento de sua identidade heroica da memória de todas as pessoas.

Porém, ao interferir no processo, Peter provoca uma ruptura no Multiverso e atrai toda sorte de vilões de outras realidades que já cruzaram o caminho do herói:

Duende Verde (Willem Dafoe, de Homem-Aranha, 2002)

Dr. Octopus (Alfred Molina, de Homem-Aranha 2, 2004)

Homem-Areia (Thomas Haden Church, de Homem-Aranha 3, 2007)

Lagarto (Rhys Ifans, de O Espetacular Homem-Aranha, 2012) e

Electro (Jamie Foxx, de O Espetacular Homem-Aranha 2, 2014).

A partir daqui, qualquer coisa que se dissesse sobre a trama configuraria spoiler, o que não faremos.

O que dá para dizer é que Peter e Estranho têm visões diferentes sobre como consertar a situação. Como resultado, o Homem-Aranha enfrenta seu maior dilema moral até aqui sobre o verdadeiro significado de ser um herói. Ele finalmente vai aprender que com grandes poderes vêm grandes responsabilidades, e que escolhas trazem consequências.

Melhor filme

Isso faz de Sem Volta para Casa o filme mais denso, sombrio e emotivo do Homem-Aranha no UCM, e o melhor da trilogia.

Não só Holland, mas também Batalon e, principalmente, Zendaya, têm mais domínio de seus papéis e conseguem explorar melhor as nuances de seus personagens, seja nos momentos cômicos seja nos dramáticos. E J.K. Simmons, outra aquisição importada da franquia de Sam Raimi, continua divertido no papel do editor ranzinza J. Jonah Jameson.

Reunir tantos atores consagrados é uma das grandes proezas de Sem Volta para Casa. Com exceção do Homem-Areia e Lagarto, cuja aparição na maior parte do tempo se dá por computação gráfica, os demais têm de fato atuações marcantes e é de se imaginar a logística envolvida para conciliar suas disputadas agendas.

O filme tem ainda a função de fazer o conceito de Multiverso dar um passo adiante no UCM. O emaranhado de realidades alternativas foi explorado anteriormente nas séries do Disney+, Loki e O que aconteceria se…? (ambas de 2021), e será o mote principal de Doutor Estranho no Multiverso da Loucura, que estreia em maio do ano que vem (em tempo: fique até o final dos créditos para assistir a uma prévia deste filme).

O futuro?

Tom Holland declarou à Entertainment Weekly que “se tivermos sorte de voltar a ver o Homem-Aranha nas telas, será numa versão diferente”. Ele não mentiu. O desfecho de Sem Volta para Casa abre um leque enorme de possibilidades para a franquia aracnídea.

Tudo depende do futuro da parceria Disney-Sony, estúdios que compartilham os direitos do herói nos cinemas. Depende, sobretudo, dos planos da Marvel para seu intrincado e interligado Universo Cinematográfico.

Pelo lado da Sony, a produtora Amy Pascal manifestou a intenção de que a parceria continue gerando novos filmes do Aranha e falou até numa nova trilogia, mas não descarta a possibilidade uma produção exclusiva. A fábrica de rumores atesta que Holland já teria assinado contrato para pelo menos mais um filme.

Neste momento, Sem Volta para Casa conta com mais de 100 críticas no agregador Rotten Tomatoes e a avaliação dos jornalistas especializados que já tiveram acesso ao filme está em 95%.

Ainda é muito cedo para levantar o véu de incertezas que cobre o futuro do Homem-Aranha nos cinemas. O fato é que se trata de uma franquia de que dificilmente os estúdios, e os fãs, irão abrir mão.

Papo de Quadrinho assistiu a Homem-Aranha – Sem Volta para Casa no dia 14 de dezembro a convite da assessoria de imprensa da Sony Pictures.

Anthony e Joe Russo falam sobre (quase) tudo na CCXP Worlds

Os irmãos Joe e Anthony Russo participaram na noite de sábado da Thunder Arena da CCXP Worlds, e durante a entrevista para Steven Weintraub, do site Collider, falaram sobre vários assuntos: projetos passados e futuros, a própria produtora, a experiência com o MCU (Universo Cinematográfico Marvel) e Chadwick Boseman.

Dentre os inúmeros projetos que os Brothers tocam para a TV e cinema, um deles é “Citadel”, para a Amazon, que começou a ser rodado recentemente. “Os roteiros são incríveis, estamos super felizes com essa produção”, anima-se Joe Russo. “É um mundo experimental que estamos criando, teremos um uma série principal e depois séries menores, que tiram o foco dessa principal e serão em línguas estrangeiras, com talentos locais. Estamos muito empolgados com as perspectivas do que podemos fazer nesses formatos transmídia, com diferentes concepções e novos conteúdos, para o futuro.”

Não podia faltar, claro, falar sobre a experiência no Marvel Studios, em que dirigiram alguns dos melhores filmes do MCU, em especial os dois mais recentes filmes dos Vingadores, “Guerra Infinita” e “Ultimato” – a maior bilheteria de todos os tempos -, e que permite a eles, agora, não só ter a própria produtora como trabalhar com novos talentos e investir em produções como “Resgate”, com Chris Hemsworth”, “Gray Man” com Chris Evans e o longa “Mosul”, entre outros.

“Nossa experiência com a Marvel foi incrível, não poderemos querer parceiros melhores. Foi uma experiência bem colaborativa, eles ficam muito felizes quando você apresenta algo na reunião que não se tinha pensado ainda. ‘Vai fundo no que te inspira, na história que você quer contar’”, elogia Anthony Russo.

No momento mais marcante da entrevista, Anthony Russo falou sobre o ator Chadwick Boseman, que interpretou o Pantera Negra em quatro filmes do MCU antes de morrer em 28 de agosto, aos 43 anos, devido a um câncer. Ele lembrou do trabalho que Chadwick teve para construir o sotaque para o príncipe T’Challa, a ponto de passar todo o período das gravações de “Capitão América: Guerra Civil”, falando como o herói mesmo longe das câmeras.

“É admirável quando você encontra alguém que se entrega tanto e, ao ver isso na tela, você sente algo diferente quando vê aquela atuação. Ele era uma grande inspiração, uma pessoa incrível e um grande artista”, afirma.

“Fico muito grato pelo tempo que tivemos com ele, que sempre foi muito dedicado e íntegro. (Chadwick) era um grande ator, mas era também um cineasta, que entendia o cinema, de narrativa. E a maneira com que lidou com sua doença foi tão corajosa, um exemplo de integridade, porque colocou de lado a sua preocupação pessoal pelo que ele sabia que era um momento histórico.”

Quanto aos próximos projetos na direção, Joe e Anthony Russo preferiram não revelar o que vem por aí, mas com certeza haverá alguma novidade após “Gray Man”.

6 motivos para assistir Snowpiercer na Netflix

Produção da TNT, Showpiercer estreou na Netflix no dia 17 de maio.

Em vez do tradicional sistema de maratona, os 10 capítulos estão sendo liberados a conta-gotas, um por semana.

Se você ainda não assistiu, veja seis motivos que o Papo de Quadrinho elencou para começar imediatamente.

1. É baseada numa HQ

Le Transperceneige (Snowpiercer: The Escape) foi publicada pela primeira vez na França em 1982 pela editora Casterman, com roteiro de Jacques Lob e desenhos de Jean-Marc Rochette.

Saíram duas sequências muitos anos depois: The Explorers (1999) e The Crossing (2000), com Benjamin Legrand no lugar de Jacques Lob nos roteiros. O quarto volume, Terminus, saiu em 2015 com novo roteirista, Olivier Bocquet.

Nos Estados Unidos, as HQs começaram a chegar em 2014, pela Titan Comics.

Você pode ler as três primeiras histórias no livrão que a editora Aleph lançou em 2015, com o ótimo nome de O Perfuraneve.

Lá fora, a Titan anunciou uma trilogia prequela e já colocou o primeiro volume à venda. Os demais estão programados para agosto de 2020 e junho de 2021.

2. Faz uma forte crítica social

A turma do fundão é tratada como animais

O pano de fundo da trama é um cataclisma ambiental que congelou a Terra. Os poucos sobreviventes (cerca de 3.000) se abrigaram num trem autossustentável que percorre o planeta todo sem paradas.

O problema é que o trem reproduz a desigualdade que existia anteriormente. Nos vagões próximos à locomotiva ficam os ricos, com direito a luxo, alimentação, educação, cultura e lazer.

Nos vagões do fundo, os pobres e miseráveis vivem aglomerados em condições sub-humanas, expostos à fome, crimes, falta de privacidade e violência policial.

Entre os extremos, os vagões do meio reproduzem as nuances da classe média.

3. Já virou filme

Chris Evans viveu o revolucionário Curtis na adaptação para o cinema

Em 2013, Snowpiercer foi adaptada para o cinema por Bong Joon Ho – ele mesmo, o diretor do premiado Parasita, em seu primeiro filme em língua inglesa.

O filme foi estrelado por Chris Evans (o Capitão América dos filmes da Marvel), Tilda Swinton (também trabalhou pra Marvel no papel do Ancião), John Hurt (de V de Vingança) e Ed Harris (de Westworld).

Por aqui, passou pelos cinemas em 2015 com o nome Expresso do Amanhã, e dá para assistir em Blu-Ray e no Amazon Prime.

4. São histórias diferentes…

O fundista Andre Layton (Daveed Diggs) precisa resolver um assassinato

Snowpiercer conta uma história diferente na HQ, no filme e na série, embora todos sigam o mote principal (a luta de classes) e conservem alguns elementos em comum.

Na HQ, a trama acompanha Proloff, que conseguiu fugir do fundo do trem e alcançou os vagões intermediários. Ele conhece a ativista da terceira classe Adeline e, no percurso para interrogatório, ficamos conhecendo os setores, classes e funcionamento do trem.

Em Expresso do Amanhã, Curtis (Evans) é líder do grupo do fundo que inicia a revolução mais bem-sucedida para tomar o controle do trem. No caminho até a sala de máquinas, ele vai se indignando com os diferentes estilos de vida dos passageiros.

Na série da Netflix, o fio condutor é a investigação de um assassinato na segunda classe. Os administradores do trem convocam o “fundista” Andre Layton (Daveed Diggs, de The Get Down), que era detetive antes do cataclisma, para solucionar o crime. O sistema de castas do trem é apresentado pelos olhos dele durante a investigação.

Então, mesmo que você já tenha lido a HQ e assistido ao filme, a série traz uma abordagem totalmente nova, sem desrespeitar o contexto original e com referências que são bacanas de pegar.

5. … porém interligadas

A HQ, o filme e a série parecem apenas variações sobre o mesmo tema, mas não são.

A Titan Comics publicou este infográfico provando que cada história se passa num tempo diferente e estão relacionadas.

Na cronologia de Snowpiercer, a série da Netflix se passa 7 anos após o cataclisma climático, o filme 15 anos depois e a primeira HQ em algum momento entre eles.

As adaptações se passam em tempos diferentes e estão relacionadas

6. E tem a Jennifer Connelly

Jennifer Connelly: linda e talentosa como sempre

Para você, veterano, que não acompanhou os últimos trabalhos dela, saiba que Jennifer Connelly continua tão linda e talentosa quanto em Labirinto (1986) e Rocketeer (1991).

Na série da Netflix, ela interpreta Melanie Cavill, administradora do trem.

Papo de Quadrinho viu: Dois Irmãos – Uma Jornada Fantástica

A convite da produtora Espaço Z, nosso editor Társis Salvatore assistiu ao novo lançamento da Disney/Pixar.

A “Dois Irmãos – Uma Jornada Fantástica”, apresenta os irmãos Ian e Barley Lightfoot que vivem em um pacato subúrbio de uma cidade chamada New Mushroomton. A sociedade evoluiu de uma realidade cujos habitantes são criaturas mágicas: trolls, centauros, sereias, gnomos e.. elfos. Outras criaturas como unicórnios e dragões são animais de estimação, neste mundo mágico que perdeu sua magia ante a tecnologia, séculos atrás.

Mas a vida contemporânea em uma cidade média da era pós-industrial tem desafios considerados pouco atraentes se comparados à aventura épica vivida pelos jogadores de Dungeons and Dragons. Em um mundo mágico sem magia, só resta os problemas mundanos e aparentente intransponíveis para um jovem que completa 16 anos.

É ai que o desafio aparece e os irmãos tem que se unir para viver uma aventura real: realizar uma magia ancestral que vai permitir que eles passem um dia com seu pai falecido. Cada irmão com suas razões, motivações e desafios, precisam trabalhar juntos depois de aceitar o chamado para a aventura.

O novo longa-metragem original da Pixar é dirigido por Dan Scanlon e produzido por Kori Rae – a equipe por trás de “Universidade Monstros”. Scanlon leva o início da trama um pouco mais cadenciado, para explodir em ação no quarto final da história. Não que isso seja um problema. É bacana e importante vermos a vida de Ian ( Tom Holland), sua relação com sua mãe ( Julia Louis-Dreyfus), sua escola e claro, seu irmão Barley (Chris Pratt). Os coadjuvantes são ótimos, como a Manticore e as absolutamente impagáveis fadinhas motoqueiras.

O desfecho é o melhor possível. Infelizmente não é possível explicar mais sem spoilers. Mas é um final sensível, emocionante e bem dirigido. Temos uma animação com aquele padrão de qualidade da Pixar: tecnicamente impecável, o cuidado com os detalhes e referências, sobretudo na história, com os clichês de RGP e demais jogos é hilário. E o final da história, nós arriscamos dizer, em muitos momentos vai mexer mais mais com os sentimentos dos adultos do que das crianças. Uma dica: vimos a versão dublada e está excelente. Não tenha medo de ver essa versão.

“Dois Irmãos – Uma Jornada Fantástica” estreia nos cinemas brasileiros em 5 março. Não perca!

Papo de Quadrinho jogou muito e viu: Sonic – O Filme

A convite da produtora Espaço Z, nosso editor Társis Salvatore assistiu ao filme baseado em um dos jogos mais icônicos de todos os tempos

SONIC – O Filme é uma aventura live-action baseada na franquia mundial da Sega que divertiu e diverte até hoje toda uma geração de gamers. Para quem não lembra, o jogo apresenta um ouriço azul (ou porco espinho para alguns) super veloz que precisa libertar as criaturas do seu mundo transformadas em monstros mecânicos pelo terrível Doutor Robotnik.

Filhote de Cruz-Credo

Quando surgiu a primeira imagem do Sonic “ao vivo” no início de 2019, houve um furor na internet. O visual apresentado tinha estilo mais “humanizado”, com proporções um tanto estranhas e uma feiura considerável. Esse visual do Sonic foi rechaçado pelos fãs e causou uma série de debates. A reação negativa foi tanta que a Paramount e a Sega decidiram ouvir os fãs, investiram mais alguns milhares de dólares e redesenharam o personagem. Um acerto para o filme, mas que também causou novos debates sobre qual o limite aceitável de pressão dos fãs sobre uma adaptação ou produto pop.

Antes e depois: Sonic na versão mais humana e na versão do filme, próxima do game.

Sessão da Tarde

Refeito o personagem e o susto dos fãs, chegamos mais animados para conferir como foi adaptar para a telona o simpático Sonic. O filme foi escrito por Pat Casey e Josh Miller. O quase desconhecido diretor Jeff Fowler faz um trabalho competente e apresenta as aventuras de um ouriço azul com poderes especiais chamado que tenta se adaptar à nova vida na Terra.

Na trama, Sonic tem uma admiração velada pelo policial Tom Wachowski (vivido pelo ator James Marsden) e sua família, que vivem em uma pequena cidade no interior. 

Com um roteiro redondo, o trabalho de Fowler foi divertir e fazer do Sonic um personagem com alma. O ouriço funciona como protagonista e destila numerosas citações e brincadeiras. Referências à cultura pop estão por todo lado. O ator Ben Schwartz faz a voz do Sonic, e, no Brasil, a dublagem ficou a cargo do experiente Manolo Rey, que tem uma das vozes mais conhecidas do país. A interação com os atores humanos James Marsden (o Ciclope da primeira franquia dos X-Men no cinema) e Tika Sumpter convence, lembrando que Marsden já fez outros trabalhos voltados ao público infantil.

O adorado ator Jim Carrey interpreta o big boss do filme, o Doutor Robotnik, um agente especial do governo que usa sua tecnologia para descobrir quem (ou o que) é o Sonic.

“Quando eu recebi o telefonema para fazer SONIC fiquei muito empolgado”, garantiu Jim Carrey. E de tão empolgado, não economizou caras, bocas e afetação. Que Carrey é um ator talentoso não há dúvida, mas deve ser divertido (além de lucrativo) ser convidado para papéis exagerados e espalhafatosos. É contra este vilão, uma mistura de geek, hipster e filho único, que Sonic e Tom unem forças para tentar impedir sua captura pelo governo norte-americano.

‘SONIC – O Filme’ tem tudo para agradar as crianças e, se bobear, alguns adultos. A interação com os atores humanos ficou convincente e os efeitos especiais realmente são bem feitos. O saldo é positivo.

Foi um modo honesto de reapresentar o carismático Sonic para toda uma geração principalmente as criançasque não passou horas alegres coletando anéis e correndo para derrotar um amaldiçoado vilão.Quem sabe, agora, eles podem descobrir ou redescobrir um dos mais importantes ícones dos games. 

Atenção: não saia da sala ao primeiro subir dos créditos! Tem uma cena pós que vale a pena conferir. 

Papo de Quadrinho viu: O Preço da Verdade (Dark Waters)

A convite da produtora Espaço Z, nossa colaboradora Adri Amaral conferiu o filme O Preço da Verdade.

O Preço da Verdade é o mais novo longa do diretor californiano Todd Haynes. Diretor de obras como Carol (2015), Não estou lá (2007), Longe do Paraíso (2002) e Velvet Goldmine (1998) .

Reconhecido por trabalhar com histórias baseadas em fatos reais, Haynes se arrisca no gênero “drama de tribunal” trazendo um tom político ainda mais intenso do que em seus trabalhos anteriores.

O roteiro escrito por Mario Corre, Nathaniel Rich e Matthew Michael Carnahan foi desenvolvido a partir de uma matéria da revista do New York Times intitulada “The Lawyer Who Became DuPont’s Worst Nightmare” mostrando o escândalo da empresa DuPont que durante décadas usou o ácido C8 em seus utensílios de cozinha antiaderentes, uma substância que produziu envenenamento e doenças em seus consumidores, inclusive envenenando a água utilizada para cozinhar.

O protagonista é um advogado corporativo de causas ambientais interpretado por Mark Ruffalo (mais conhecido como Dr. Dave Banner, o Incrível Hulk da Marvel). Totalmente diferente do que vemos no universo Marvel, Ruffalo dá vida a um personagem com tom, sotaque e trejeitos do advogado interiorano Rob Bilott.

Sisudo e obsessivo, Bilott vai enfrentar de forma solitária a gigante da indústria química DuPont. Somos arrastados ao centro processo de mais de 15 anos levantando provas por conta do envenenamento de uma comunidade inteira da Virgínia Ocidental. Essa atuação é certamente material de indicação ao Oscar. Curiosidade: Ruffalo que também é conhecido por seu ativismo pela causa ambiental é um dos produtores do filme. Vemos aqui uma trajetória menos heróica que a do Hulk mas igualmente combativa.

Justiça tardia

O drama se intensifica nas contradições e tensões que o protagonista enfrenta em sua batalha contra a DuPont, empresa que popularizou o Teflon – esse mesmo das panelas na qual uma boa parcela da população global cozinha.

Uma cidade inteira descobre que está adoecendo de câncer e outras doenças desenvolvidas por conta do lixo tóxico que contaminou a água da região na produção deste produto. Nesse embate podemos ver a relação do protagonista Rob Bilott com o chefe do prestigioso escritório de advocacia, Tom Terp (interpretado por Tim Robbins) e sua esposa e também advogada Sarah (Anne Hathway) que se destacam no entorno da figura de Rob e sua incansável luta por justiça.

É um filme incômodo, um convite à reflexão, pois traz à tona as falhas e brechas de um sistema jurídico que acaba não protegendo as comunidades em favor das grandes empresas.

Apesar de um roteiro linear e por vezes até cansativo e pesado, O Preço da Verdade alerta a audiência com dados apavorantes e pesquisas conclusivas que o componente químico C8 está presente em uma grande porcentagem da humanidade e da natureza atuais, sendo um agente causador de múltiplos tipos de câncer e outras doenças terríveis.  

Esse é filme imersivo e tenso, com uma narrativa dramática que vai num crescente. Nos deixa com um incômodo e uma raiva quando pensamos nas responsabilidades da indústria química e na forma como essa e outras empresas banalizam a vida humana em prol de seus lucros.

Um excelente filme ficcional sobre não-ficção. Recomendamos.

Papo de Quadrinho viu: Arlequina com as Aves de Rapina

A convite da produtora Espaço Z, nossa colaboradora Adri Amaral e nosso editor Társis Salvatore conferiram o filme Aves de Rapina: Arlequina e sua Emancipação Fantabulosa (que sejamos justos – na prática – é um filme da Arlequina com as Aves de Rapina)

Nos últimos meses temos ouvido na mídia especializada sobre um suposto esgotamento dos filmes de super-heróis enquanto “gênero cinematográfico”. Se por um lado, compreendemos que o esgotamento se dá por uma série de questões e decisões mercadológicas (e estéticas), por outro há um certo ranço e injustiça quando começam a sair os filmes das super-heroínas, permitindo (finalmente!) que mulheres estejam à frente de filmes de grandes estúdios.

Aves de Rapina: Arlequina e a sua emancipação fantabulosa é uma boa comédia de ação dentro dos filmes de super-heróis, cujo tom lembra muito mais uma animação – origem da própria Arlequina – do que os quadrinhos. Como comentamos acima, o protagonismo do filme foca mais no desenvolvimento da personagem Harlen Queenzel / Arlequina. Isso é possível graças ao talento e carisma de Margot Robbie que incorporou a personagem e trouxe a espevitação característica da Arlequina dando um tom humorístico e ao mesmo tempo complexo à mesma. A atriz também é co-produtora do filme juntamente com a roteirista Christina Rodson (que também fez Bumblebee da franquia Transformers) e a diretora Cathy Yan (diretora de Dead Pig).

Arlequina, rainha da p*rra toda

Para o chororô de alguns nerdys o roteiro optou por passar longe das Aves de Rapina dos quadrinhos da DC – principalmente porque a Arlequina nunca fez parte do grupo criado em 1995. Restaram das HQs algumas citações e o tom de caça aos bandidos e violência urbana que marcam o filme. Nesse sentido foi uma boa sacada o uso da personagem como a narradora não-confiável da trama. Assistimos assim o transcorrer da narrativa e a construção de Gotham através dos olhos da doutora e anti-heroína Arlequina que começa a história tentando encontrar sua própria identidade após o término do (conturbado e abusivo) relacionamento com o Coringa.

Aqui temos o mais um acerto do filme: se desvencilhar de Esquadrão Suicida do diretor David Ayer. Foi uma ótima tática para que a audiência voltasse sua atenção para o que interessa: a emancipação da Arlequina, provavelmente a única personagem que passou batida pelas duras (e justas) críticas ao filme. Esse descolamento também permitiu explorar a personagem fora do casal disfuncional e para tanto tecer de forma sutil críticas à condição de relacionamentos que tendem a apagar identidades, sobretudo das mulheres.

Esqueça o visual sombrio

A Diretora Cathy Yan coloca cores do filme fugindo da traumática paleta de cores “sombria” de diversos filmes anteriores da Warner/DC. Já no roteiro, vemos influências de filmes importantes como Pulp Fiction e O Profissional. Outro destaque fica por conta da mudança do visual da Arlequina num tom colorido, por vezes carnavalesco e menos sexualizado, remetendo à estética clubber e streetwear que com certeza vai agradar as cosplayers.

O figurino das outras personagens também ficou bacana, sobretudo A Caçadora /Helena Bertinelli (Mary Elizabeth Winstead), a policial latina Renée Montoya (Rosie Perez), a órfã/ladra Cassandra Cain (Ella Jay Basco). A cantora Canário Negro/Dinah Lance (Jurnee Smollett-Bell) ainda está descobrindo seus poderes – dai o porquê tem um figurino não tão espetaculoso quanto o das outras heroínas.

Formando uma girl band

Com a Arlequina narrando a história do modo que lhe desse na telha, somos apresentados às outras personagens de forma sintética e aos poucos acompanhamos suas trajetórias para o funcionamento história.

O vilão afetado Máscara-Negra/Roman Sionis (Ewan McGregor) é mostrado como um narcisista e misógino, extremamente dependente do assassino em série Victor Zsaz (Chris Messina). O filme sugere uma relação entre ambos e em alguns momentos dá a entender que Sionis é gay, mas ainda não foi dessa vez que tivemos um vilão assumido neste gênero. De qualquer forma, nas entrelinhas e em alguns simbolismos a sugestão aparece. Ewan McGregor faz um vilão menos atormentando e mais mimado em contraponto ao psicopata e assassino Zsasz.

Aqui os homens são claramente mesquinhos e maus enquanto as mulheres se destacam por superarem os problemas através da perspicácia e da união. Obviamente os clichês de formação de equipes estão todos lá com as eventuais resmunguices e brigas entre elas, até acertarem no tom da colaboração. Embora seja um filme por vezes violento, sem pretensões a grandes discussões e debates, a mensagem é clara e direta. O poder das heroinas reside na união coletiva entre as garotas – mesmo que de forma temporária – com a garantia de suas individualidades, uma vez que cada personagem tem uma trajetória de vida e diferenças que não podem ser apagadas.

As cenas de luta são bem coreografadas e funcionam bem para empolgar com diferentes momentos de ação, sobretudo a luta no Depto de Polícia e na Casa de Horrores do Parque de diversões abandonado. É um prazer ver uma luta de rua em oposição às lutas de CGI que emulam videogames em outros filmes Warner/DC.

Por fim dá para destacar a trilha sonora trazendo um time de vozes femininas desde o single Diamond de Megan Thee Stallion & Normani, a cantora pop teen Halsey (Experiment on me) e uma canção cantada pela própria Canário Negro em uma bela cena na boate do vilão Simons, “It’s A Man’s Man’s Man’s World”, além da versão de “Hit me with your best shot” , sucesso nos anos 1980 da cantora Pat Benatar – que já constava em filmes como o musical Rock of Ages e a série Glee).

Aves de Rapina: Arlequina e a sua emancipação fantabulosa é um filme despretensioso e divertido. Funciona como uma comédia de ação e apresenta uma livre adaptação das HQs. Acerta o tom de comédia com ação e bastante pancadaria e deve agradar principalmente as audiências mais jovens por conta dessa mistura de irreverência com girl power.

Ao final temos engatilhado a possibilidade de um filme da equipe em si e quem sabe isso pode abrir as portas para um filme da maravilhosa galeria das vilãs da DC que nem sempre são bem utilizadas. Ficamos na torcida pelo sucesso do filme e imaginando com curiosidade o quanto a bilheteria pode influenciar nas futuras escolhas da DC Comics no cinema. Por hora, compre sua pipoca e divirta-se.

Papo de Quadrinho viu: Star Wars – A Ascensão Skywalker

A convite da assessoria de imprensa da Disney, Papo de Quadrinho assistiu a Star Wars – A Ascensão Skywalker numa sessão exclusiva para jornalistas.

Em respeito aos nossos leitores, o texto abaixo não contém spoilers.

Star Wars – A Ascensão Skywalker, que chega aos cinemas brasileiros amanhã (19), se intitula o capítulo final da saga espacial criada por George Lucas há mais de 40 anos.

O diretor J.J. Abrams sabia da responsabilidade de ter os olhos de boa parte do mundo voltados para seu trabalho e optou por seguir um caminho mais seguro, longe da ousadia de seu antecessor, Rian Johnson, em Os Últimos Jedi (2017).

Da mesma forma que transformou sua estreia na franquia, O Despertar da Força (2015), num filme-homenagem a Uma Nova Esperança (1977), agora Abrams presta tributo a outro filme da trilogia clássica (os fãs logo vão perceber as semelhanças na estrutura narrativa).

A Ascensão Skywalker trata de redenção, do conflito do Bem contra o Mal – assim mesmo, no sentido absoluto –, mas travado dentro dos protagonistas, que lutam contra o medo e o ódio que conduzem para o lado sombrio da Força – um dilema constante nos momentos cruciais da saga.

O passado de Rey (Daisy Ridley) é finalmente conhecido e, como prometeu o corroteirista Chris Terrio, a revelação não é aleatória. Em vez disso, confirma a estreita relação da protagonista com a Força e seus inimigos – entre eles, Kylo Ren (Adam Driver).

A Ascensão Skywalker é talvez o filme com mais ação de toda a saga principal. A abertura traz de cara uma perseguição entre as estrelas, seguida de cenas num campo de batalha e continua com um espetáculo de batalhas espaciais, confrontos de blasters, lutas de sabre de luz e um resgate heroico. Os stormtroopers ainda são ruins de mira, mas ganham um surpreendente recurso.

Demais personagens, como Poe Dameron (Oscar Isaac) e Finn (John Boyega), estão mais maduros e seguros de seu papel na Resistência, e protagonizam boa parte das cenas de ação.

Sob a batuta de Abrams, as mulheres continuam brilhando: as novatas Zorri Bliss (Keri Russell) e Janah (Naomi Ackie) são quem livra a cara dos heróis em momentos de apuro.

O roteiro toma alguns atalhos para fazer a trama andar, mas nada que comprometa se você mantiver em mente que se trata de um novelão ambientado muito tempo atrás, numa galáxia muito, muito distante, e que não dá para cobrar verossimilhança o tempo todo.

O que dá para cobrar é coerência, e isto J.J. Abrams entrega. Apesar de optar por um caminho mais seguro, o diretor honra não só o que começou a construir em O Despertar da Força, mas principalmente o legado de mais de quatro décadas, e presenteia os fãs com um encerramento digno.

A Ascensão Skywalker tem um tom de despedida e é um deleite rever a eterna Princesa Leia (Carrie Fisher), ainda em que cenas recuperadas, e tantos outros personagens da trilogia clássica no que talvez seja sua última participação.

Mas soa pretensioso pensar que este nono episódio fecha a tampa da saga. A riqueza do universo criado por George Lucas permite numerosas possibilidades e faz pensar se daqui a algumas décadas não veremos o início de um novo ciclo, com os heróis da atual trilogia no papel dos “veteranos”.

O tempo -e a Força – dirão…

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