A convite da Warner e da produtora Espaço ZAdri Amaral assistiu DUNA, mais recente filme do diretor Denis Villeneuve, adaptando o clássico da ficção científica de Frank Herbert.

Antes de falar sobre o filme mais aguardado pelos fãs de ficção científica do ano, gostaria de dizer que o diretor canadense Dennis Villeneuve está coberto de razão nas entrevistas de divulgação do filme, é um filme pensado, concebido e produzido para ser visto dentro da experiência da sala de Cinema.

Como dizia meu professor de Introdução ao Cinema, o saudoso Aníbal Damasceno, “o que faz o filme é a circunstância do espetáculo”. Assim, assistir à Duna em toda a sua grandiosidade na tela e no som do IMAX já nos faz sentir como um grãozinho de areia do deserto de Arrakis.

Se o cinema vai sobreviver no pós-pandemia pode ser que a adaptação do livro de Frank Herbert tenha algumas pistas sobre o futuro do chamado “cinemão”. Obviamente sabemos que as condições sanitárias ainda não são as melhores, mas para quem já tem seu passaporte vacinal verificado com as duas doses – como foi o meu caso nessa sessão para a imprensa – recomendamos todos os cuidados (use máscara, mantenha o distanciamento, não coma no cinema) de quem adentra um novo e amplo universo. E o universo de Duna é grandioso e terrível em suas disputas pelo poder. A adaptação de Villeneuve enfatiza todo esse horror que já estava presente no livro homônimo de 1965 e que se parece, infelizmente, bem atual.

Nessa nova versão (a primeira adaptação foi um fracasso retumbante dirigido e roteirizado por David Lynch em 1984), podemos observar em detalhes, mas também de forma dinâmica a constituição do universo de Duna: a força da religião, as classes sociais demarcadas, o ambiente dos diferentes planetas do Império e as relações e tensões entre as diferentes casas da nobreza.

O desértico planeta Arrakis é visto como o maior fornecedor da especiaria do Império que serve como combustível para as viagens espaciais. Assim, iniciamos a saga sendo apresentados ao modus operandi brutal e sanguinário da Casa Harkonnen que colonizou e oprimiu o planeta Arrakis e seus habitantes – os fremens que se adaptaram às condições desérticas. 

Paul Atreides (Thimotée Chalamet) e Lady Jessica Atreides (Rebecca Ferguson)

O Imperador ordena a retirada das tropas Harkonnen e a passagem do comando para a Casa Atreides, governada pelo Duque Leto Atreides (Oscar Isaacs). Assim, inicia-se o conflito político que é parte essencial da trama. Somos introduzidos ao protagonista Paul Atreides (Thimotée Chalamet) e seu caminho para a transformação, além de sua mãe Lady Jessica Atreides (Rebecca Ferguson), cujo treinamento religioso como parte da ordem das Bene Gesserit foi também transmitido a Paul.

A partir dessa premissa, o filme constrói uma narrativa que consegue de forma muito brilhante utilizando com maestria todos os recursos cinematográficos para uma adaptação que estava cercada de expectativas, e cujas adaptações anteriores (o filme de Lynch e uma série de TV) foram insatisfatórias. 

Entre a estética e o conteúdo em si da trama, são muitos pontos a destacar na grandiosidade da obra. 

O trio de roteiristas (Dennis Villeneuve, John Spait e Eric Roth) enfatiza as mensagens ecológicas e políticas – que já estavam presentes no livro – desde o casting bastante diverso até a sutileza de planos abertos quando vemos a pequenez das pessoas perto da força da natureza – o deserto de Arrakis e de seus deuses do deserto, bem como nas ações e tramas pelo poder, que não podemos esmiuçar aqui para não dar spoilers, mas que são ponto chave na trama. 

Pelo ponto de vista dos nativos fremens, podemos observar os danos do imperialismo, da colonização e da ganância. O caráter místico ganha também um tom de quase horror embora a lisergia e o onírico que são alguns destaques na obra original estejam presentes, embalados na magnífica trilha do oscarizado compositor alemão Hans Zimmer que mistura elementos clássicos e marciais com sons orientais e futuristas. O sound design é importantíssimo em muitos momentos chaves da trajetória das personagens, sobretudo nos acontecimentos em torno da experiência da Casa Atreide no planeta desértico.

A direção de arte traz uma paleta de cores não tão escuras quanto em filmes anteriores do diretor canadense, oscilando entre luz e trevas quando necessário. Nesse quesito, o figurino de Bob Morgan (que fez filmes como Malévola e Inception) e Jaqueline West (responsável por Benjamin Button) é um dos destaques, trazendo os elementos de alfaiataria, roupas marciais e cerimoniais tanto quanto os trajes de combate são elementos simbólicos centrais para a compreensão das lógicas e dinâmicas de cada grupo e seu papel nesta sociedade. O design de set em geral e sobretudo das naves também é um deslumbre visual de impacto.

Duna – Parte I é honestamente falando, deslumbrante do início ao fim, um verdadeiro épico que consegue dialogar com várias gerações – ponto que também atribuo à química entre atores como Timothé Chalamet (Paul), Sharon Duncan-Brewster (Dr. Liet Kynes) e a Duncan Idaho (Jason Momoa) em seu melhor papel até o momento.

Sem parecer corrido, o filme consegue manter o ritmo e adaptar de forma genial uma obra que é clássica e de nicho ao mesmo tempo. É a ficção-científica em seu lugar audiovisual mais nobre: entre a extrapolação do presente, elementos estéticos do passado e o desenho de um futuro apavorante. Agora é aguardar – ansiosa – a Parte II.