Um clássico de William Blake adaptado aos quadrinhos pela editora AVEC

por Julio Black

Adaptar clássicos da literatura tem sido um filão muito bem explorado pelos quadrinhos nacionais.

Quer dois exemplos? “Dois irmãos”, de Milton Hatoum, ganhou vida nas HQs pelas mãos dos irmãos Fábio Moon e Gabriel Bá, e alguns dos contos de “Ânsia eterna”, de Júlia Lopes de Almeida, ganharam cor e movimento graças à artista Verônica Berta.

E é o caso da graphic novel “O matrimônio de Céu & Inferno”, livremente inspirada na obra homônima do escritor, poeta, pintor, tipógrafo e gravurista inglês William Blake.

A obra foi lançada em 2019 pela AVEC Editora com roteiro de Enéias Tavares, autor de “Brasiliana Steampunk” e “Guanabara Real”, e arte de Fred Rubim, de “A canção do Cão Negro” e “Le Chevalier nas Montanhas da Loucura”.

Tá lá na quarta capa da graphic novel: William Blake cruzou os caminhos do coisa ruim em 1792, que aproveitou para revelar ao inglês a sabedoria do inferno e também como ela poderia ser passada de geração para geração.

Tendo como base esse encontro peculiar, Enéias Tavares constrói a história dos quatro protagonistas de “O matrimônio de Céu & Inferno”: a prostituta argentina Verônica; a pintora – e traficante por necessidade – Dani; o repugnante pastor neopentecostal Santos, líder e “maestro” da denominação Orquestra Divina; e o assassino profissional Amarante, que está na folha de pagamentos do religioso do pau oco e tem uma crise de consciência após o mais recente “serviço”.

Quatro personagens que nos contam a história de Blake

Apesar de “profissões” tão diferentes, Verônica, Santos e Amarante estão próximos desde o início, mesmo que a prostituta e o matador não estejam muito satisfeitos com isso – principalmente a prostituta, que tem uma de suas colegas morta pelas mãos de um dos pastores da seita que só é religiosa no nome. Dani, a princípio, é uma personagem relativamente marginal na história, mas fundamental para o momento em que baixa o Tarantino na dupla de criadores, bem no clímax da graphic novel.

O grande mérito de “O matrimônio de Céu & Inferno” é ter como inspiração a obra de William Blake para contar as histórias de personagens que têm suas culpas para confessar e pecados para espiar, ou que estão nem aí para essa história de “Deus castiga”. Enquanto alguns buscam redenção, outros desejam mais e mais poder e grana, não importando o preço a pagar ou os fiéis que vão ser ludibriados, numa trama marcada por violência, crime, morte, sangue aos baldes, culpa, (muitos) pecados, dramas e traumas pessoais.

Além do ótimo roteiro de Enéias Tavares que recria e transfora a temática original oferecida por Blake é preciso destacar a excelente arte de Fred Rubim, com um padrão claro, por vezes geométrico, e que sabe usar muito bem detalhes das cenas, com um poder de narrativa que trata as ações e as cores para destacar o plot de cada protagonista.

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