Revista O Grito!

Papo de Quadrinho — O Grito! Blogs – Quadrinhos

“Fashion Beast”, de Alan Moore: a moda como bandeira política e cultural

fashionbeast

Alan Moore é um dos melhores roteiristas de quadrinhos da atualidade. Ponto!

Mais que isso, é um dos fundadores da atual Era Moderna dos quadrinhos, com obras seminais como Watchmen, V de Vingança e Monstro do Pântano, todas da década de 1980.

Fashion Beast – A Fera da Moda é deste período prolífico, um roteiro que a Avatar Press desengavetou em 2012 e que, felizmente, a Panini acaba de trazer para o Brasil.

Reza a lenda que se tratava originalmente de um filme a ser produzido por Malcolm McLaren, o polêmico produtor da banda punk Sex Pistols. O projeto não foi para frente e o roteiro ficou esquecido.

Fashion Beast usa o conto infantil A Bela e a Fera como metáfora para revelar a face nada glamorosa da alta moda. Se já era atual no início dos anos 1990, é ainda mais hoje, num tempo de culto aos estilistas-celebridades.

Jean-Claude Celestine é o estilista que vive recluso em sua torre, em torno da qual gira toda a vida de uma cidade não identificada, numa época também incerta – a única coisa que se sabe é que a humanidade está à beira de uma guerra nuclear.

Os protagonistas são Doll e Jonni, ambas figuras andróginas: ela, recepcionista de uma casa noturna, é uma garota que parece um homem que se veste de mulher; ele, estilista aspirante, um cara que mais parece uma garota vestida de homem.

Alan Moore parece dizer que num mundo que vive de aparências, os transgressores são os verdadeiros motores da história. A questão da aparência também afeta Jean-Claude (a Fera): um príncipe gentil sob um suposto corpo disforme.

Ao contrário do que pode parecer, Fashion Beast não é uma crítica ao mundo da moda. Moore enxerga esse mundo e seus bastidores como instrumento de expressão política e cultural.

Pelas palavras de Jonni, as roupas do povo nas ruas são “bandeiras, tudo que esperam da vida condensado num certo corte, numa certa cor”. Para o jovem, o elitismo decadente de Jean-Claude retrata sua própria repressão sexual: “Quanto mais cetim, menos pele; mais pano, menos carne”.

Jonni, que, ao contrário de Doll, não abandonou seu passado proletário, está destinado a promover a ruptura e demolir tudo que Jean-Claude construiu. Doll, a Bela, alçada ao posto de modelo principal da Celestine, no fundo não passa disso mesmo, uma “boneca” conduzida ao sabor dos acontecimentos.

A tradução do roteiro de cinema para quadrinhos ficou a cargo de Antony Johnston, que demonstra grande domínio de sua arte, em especial na sobreposição de camadas narrativas.

A arte de Fecundo Persio caiu sob medida, com o perdão do trocadilho, sobre o roteiro de Johnston. Ora realista ora caricato, o que mais impressiona no seu traço é a composição das expressões faciais e corporais dos personagens. As caras de Doll são impagáveis.

Fashion Beast tem a marca de Alan Moore gravada no DNA. Se não pelo tipo de história, ao menos pela profundidade e simbologia de cada cena, cada diálogo. Uma obra que merece ser lida e relida muitas vezes. Imperdível.

Comentários

Previous

Ministério da Educação lança edital para compra de quadrinhos

Next

Vale o Investimento: Snoopy está de volta!

2 Comments

  1. Diego Lobato

    Realmente é tudo isso e um pouco mais, Jota!!!!

  2. REalmente imperdívele!!!! Fico impressinado com a qualidade desta história… Fico pensando no universo icônico utilizado com as referencias aos contos infantis europeus e tanto quanto medieval aplicado, vamos dizer, com uma camada de comtemporaneidade… FANTÁSTICO!!!! Valeu JOTA, grande sacada na resenha, foi oportuna… voltei a reler a obra.

Deixe uma resposta

Papo de Quadrinho é um blog da Revista O Grito!. Todos os direitos reservados. © 2013–2020