Revista O Grito!

Jazz Metal — Por Paulo Floro

Categoria: Trabalhos (Página 4 de 6)

Cyndi Lauper @ Recife

Para o JC Online.

Público aprovou reinvenção de

É um desafio para uma cantora pop buscar uma renovação por um estilo que seus fãs passam ao largo, como é o Blues. Cyndi Lauper decidiu ousar e parece ter acertado nessa sua aventura em não se deixar ser engolida por um passado glorioso, como tem feito muitos astros de sua época, que vivem de ruminar sucessos. A americana de 57 anos juntou uma banda experiente e segue ganhando a vida cantando clássicos de blues. No show que fez neste sábado no Recife, no Chevrolet Hall, os fãs decidiram embarcar nessa nova fase.

Com o carisma de Cindy é possível imaginar que ela tivesse sucesso em qualquer outro gênero, por mais ortodoxo ou esquisito à sua carreira. Tocando faixas de seu mais recente disco Memphis Blues, ela conseguiu empolgar o público que, mesmo sem saber a letra, seguiu à risca os ditames da cantora, seja para bater palmas, repetir frases do refrão, ou apenas se divertir. No primeiro bloco, ela presenteou os fãs com três hits antigos, perdidos entre as canções recentes. Destaque para a tema do filme Os Goonies, “The Goonies R Good Enough”, cantado aparentemente de forma improvisada, presente no imaginário de qualquer pessoas que viveu os anos 1980.

O primeiro bloco de músicas serviu para mostrar que nessa nova fase, Cyndi ainda sabe, sim, como se divertir. Também mostrou a virtuose de sua banda, que teve como convidada especial a percussionista Lan Lan, que já tocou com Cássia Eller e outros artistas brasileiros. No segundo bloco, descalça, deu a deixa que ali seria o momento de pura catarse e saudosismo. Um presente para quem aprovou a reinvenção da artista, mas que foi mesmo em busca de seu passado repleto de hits. Um dos maiores sucessos, “Girls Just Want To Have Fun”, de 1983, se transformou numa música de 9 minutos, com direito a interlúdios, solos e conversas com a banda. Correndo de um lado para o outro demonstrando vitalidade e boa forma para a idade, Cindy soltou ainda “Time After Time” (1983), “All Through The Night” (1984), e “Change Of Heart” (1986).

Já sozinha no palco, depois de agradecer e de se despedir da plateia ao lado de sua banda, a cantora cantou uma versão minimalista, quase ‘a cappela’ de “True Colors” (1986), uma das músicas de maior sucesso da carreira de Lauper. Terminou com mensagens positivas para os fãs, o que combinou com o momento mais emotivo do show. Cyndi parece não ter mudado nada nesses anos em que passou de uma artista de sucesso mundial para alguém à margem das paradas de sucesso. A voz, inclusive é a mesma de quando estava na casa dos 20 e se pintava como uma boneca. Com o rosto inchado fruto de sucessivas plásticas e vários quilinhos a mais, ela ainda conserva o mesmo carisma de quando estava no auge. Esse show no Recife, que dá início a uma turnê de Lauper pelo Brasil, mostrou que apenas isso basta. E os fãs estão prontos para novas aventuras artísticas de Cyndi.

CERCADINHO – Já nem adianta bater nesta mesma tecla da famigerada área VIP nos shows do Recife. De como ela é um desrespeito aos fãs que pagam ingressos caros para ficarem privados de um contato mais próximo com o artista, etc. Nesse caso, a desvantagem para quem ficou fora do Front Stage foi ainda maior. Além do espaço reservado ser muito grande, o que deixava a pista comum bem distante do palco, a apresentação de Cyndi se pautou por uma aproximação com o público. Não raras vezes ela descia pelas escadas em frente ao palco, falava com a plateia, e só faltou ir para o meio do povo. Existir área vip em eventos de música pop é um contrassenso, já que o gênero é antielitista por natureza. A questão que paira é saber se a artista sabia dessa divisão sectária dos fãs.

Bá e Moon de volta ao indie

Gêmeos famosos das HQs, e lançam HQ independente

Por Paulo Floro

Reproduzo aqui minha última sobre quadrinhos do JC Online que saiu semana passada. O assunto foram os irmãos Fábio Moon e Gabriel Bá. Eles lançam mês que vem no Rio de Janeiro a nova HQ Atelier.

Numa época em que as editoras estavam se lixando para os quadrinhos (poucos títulos chegavam às livrarias), os gêmeos paulistas Fábio Moon e Gabriel Bá tinham uma ideia bastante avançada de onde podiam chegar desenhando HQs. O fanzine 10 Pãezinhos fez bastante sucesso quando era um produto totalmente independente e foi o passaporte para os dois conseguirem mais espaço no mercado editorial brasileiro e também internacional. E é ao indie que a dupla retorna no próximo mês com Atelier.

O gibi será lançado durante a Rio Comic-Con, um dos maiores eventos do gênero no Brasil e que acontece no Rio de Janeiro entre os dias 9 e 14 de novembro. Antes, Moon e Bá fazem o lançamento no New York Comic Con e no Crack Bang Boom, convenção internacional na Argentina. Foi feito no esquema independente custeado do próprio bolso dos artistas.

Essa abertura que os dois têm no circuito internacional é fruto de muita dedicação e de uma visão muito profissional sobre quadrinhos. Em uma passagem pelo Recife, no finado festival internacional que existia por aqui, os dois revelaram que passaram muitos anos viajando aos EUA para apresentar trabalhos. Hoje, recebem convites.

As conquistas (merecidas) da dupla são muitas e dizem muito ao público não conhecedor de quadrinhos, ou àqueles que leem esporadicamente: vencedores do prêmio Jabuti, da Academia Brasileira de Letras, vencedores do Eisner Awards, maior honraria da área entregue nos EUA, entre outros prêmios, como vários HQ Mix, maior premiação nacional.

Atelier, como outras HQs de Moon e Bá falam do universo urbano, com uma dose de subjetividade e dilemas comuns a qualquer pessoa. “Pensando nos próximos eventos de Quadrinhos que nos esperam, um nos Estados Unidos, um na Argentina e um no Brasil, ficamos pensando o que cada um desses públicos diferentes conhece do nosso trabalho”, disse Moon em seu blog.

No Brasil ou fora, nunca foi um momento tão bom para descobrir Fábio Moon e Gabriel Bá.

ATELIER
Dos fanzinos xerocados para diversas obras em livrarias, o caminho foi longo. Os irmãos mantêm um blog com grande parte de seu trabalho. Eles publicam lá as tiras semanais que saem na Folha de S. Paulo. Falam também do processo criativo e antecipam novos trabalhos.

MULTIPLICADOS
O trabalho de Moon e Bá estão espalhados por diversas editoras. Aqui e nos EUA. Eles também fazem trabalhos sozinhos. Bá desenhou a HQ Umbrella Academy escrita por Gerard Way, vocalista da banda de rock My Chemical Romance.

CATECISMO DA DUPLA
Obras principais para quem quer adentrar ao trabalho da dupla. Todas podem ser encontradas em livrarias e comic-shops.

10 Paezinhos – Crítica (Devir)
Um dos mais elogiados livros da série que fez a fama dos irmãos, Crítica traz histórias de amor e desencontros e é uma bela homenagem à juventude.

10 Pãezinhos – Fanzine (Devir)
Este livro remonta os primórdios da HQ e serve pra fazer um contraponto de como a dupla evoluiu nesses mais de dez anos.

5 (Independente)
Produzido em parceria com o brasileiro Rafael Grampá, a americana Becky Cloonan e o grego Vasilis Lolos, esse pequeno gibi de histórias curtas trouxe o maior prêmio da indústria das HQs aos irmãos. À venda em lojas de quadrinhos.

O Alienista, de Machado de Assis (Agir)
Essa adaptação de uma obra literária mostrou o talento dos irmãos em ousar na linguagem imprimindo seu estilo à uma história tão conhecida. Já é usado em salas de aula brasileiras. Venceu o prêmio Jabuti.

Morar no Trianon, Centro do Recife

Matéria que fiz para o JC Online sobre os Sem Teto que moram no edifício , no Centro do Recife, onde antes funcionava um cinema. Minha editora deve saber o quanto sou fascinado pela história por trás dos e meu gosto pela arquitetura da cidade. O legal foi conhecer como vivem (e são organizados) essas pessoas que desde o mês passado ocupam o imóvel que estava abandonado.

Quem são e como vivem os moradores do Trianon

Por Paulo Floro

No último dia 9 de setembro, Edson do Nascimento, 29 anos, entrou num ônibus fretado pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Teto em direção a um lugar ainda desconhecido. Por volta das 4 horas da manhã, o veículo estacionou em frente ao Edifício Trianon, na Avenida Guararapes, e um dos líderes anunciou que ali seria o local ocupado. Edson é um dos coordenadores estaduais do movimento e organiza mais de 350 pessoas nos sete andares do imóvel, uma média de 120 famílias. Ícone da arquitetura dos anos 1940, o prédio servia nos últimos anos apenas como camarote do desfile do Galo da Madrugada, no Carnaval.

Do lado de fora, Priscila, uma menina não maior que 18 anos, faz vigília na porta do prédio. Ela se reveza com outra pessoa em turnos de 24×24 horas para que ninguém entre sem permissão no Trianon. Não-moradores também não podem andar descompanhados dos coordenadores de andar – seis ao todo – nem entrar sem serem anunciados. Há organização em diversos setores, como iluminação, limpeza, convivência e também política, ainda que muito precária. “Quando chegamos aqui encontramos muito lixo, entulho. Pessoas entravam para defecar; estava imundo”, lembra Edson, que junto com os moradores iniciou a limpeza de todos os andares.

Existe organização entre a precariedade e o improviso. Cada antiga sala se transformou num apartamento fechado com cadeado. Ao lado de antigos patrocinadores do Carnaval pintados na parede, estão os números de cada moradia. Alguns têm a inscrição com o nome atual morador e sua função. “Conceição coordenadora”, dizia um no terceiro piso. Entre as atribuições dessas pessoas, estão a de zelar pela boa convivência entre os sem-teto, mediar brigas, anotar reclamações e manter a discrição dos ocupados na vizinhança. Com eles, também ficam a chave dos banheiros. Cada andar também tem dois, sem água corrente nem chuveiro. A água do prédio estava cortada e, por isso, foi feita uma ligação clandestina, mas a água que sai é salobra. “Buscamos água em Paulista, em outra ocupação, mas é insuficiente”.

Pra ler o texto completo e a matéria vinculada, vem aqui.

Nessa galeria tem mais fotos que fiz

Comer, rezar, amar é fábula fácil sobre a felicidade feminina

Crítica que fiz para o novo filme de Julia Roberts. Saiu no JC Online.

Comer, rezar, amar, que estreia nesta sexta-feira (1º) em todo o País, traz Julia Roberts no papel de Liz, o alter-ego da autora do livro de mesmo nome que é sucesso no mundo inteiro. O longa, assim como o livro, fala diretamente ao universo feminino. É um filme para elas, e por um momento, parece mesmo uma fábula feminista sobre a busca da felicidade da mulher contemporânea.

Liz é uma mulher bem-sucedida e com um casamento estável que se vê num dilema interior após retornar de uma viagem a Bali, onde conhece um guru. Inquieta com a zona de conforto em que vive, sente-se vazia. Parte, então, já divorciada, para uma viagem pelo mundo para se reencontrar. Vai para a Itália, onde cultiva o prazer da gastronomia (e ganha uns quilinhos), em seguida para a Índia, onde mora numa comunidade para a qual seu namorado (James Franco) sempre sonhou em ir. Depois de alcançar a espiritualidade, retorna, enfim, a Bali, onde conhece um brasileiro vivido por Javier Bardem.

O filme dialoga e quer servir de inspiração para pessoas que pensam em largar tudo para promoverem uma mudança em suas vidas. Sobretudo as mulheres, sempre pressionadas a estarem ao lado de um homem ideal provedores de felicidade. Mas o sucesso de Comer, rezar, amar não está na originalidade do discurso e sim por trazer de forma fácil um pacote dramático já bem conhecido por fãs de filmes de romances. É praticamente uma liquidação em forma de cinema. Traz no mesmo bolo uma história de amor, autoajuda, paisagens de guia turístico e, claro, final feliz. Porque assim são os best-sellers: satisfação garantida ou seu dinheiro de volta.

Dirigida por Ryan Murphy (da série Glee), o filme é superficial em suas questões espirituais e também nas inquietações vividas pela personagem principal. Em Roma, onde mora por alguns meses, os clichês abundam na tela o tempo todo, mostrando os italianos de maneira estereotipada. Em Bali e na Índia, Liz mostra ser muito sortuda, já que encontra pessoas que falam inglês nos mais inóspitos. Muito conveniente…

A história do livro e do filme é uma espécie de autobiografia de , autora do best-seller que vendeu mais de quatro milhões de cópias no mundo todo. As lições de vida que ela ensina não são verossímeis no longa, nem mesmo a tentativa de soar transgressor e libertador para as mulheres. E deve ser bem mais fácil buscar a transformação espiritual quando se tem dinheiro suficiente para viajar durante um ano inteiro por países exóticos.

A tentativa do filme em ser de facílima digestão são seus personagens coadjuvantes. Todos muito simpáticos, sábios, inteligentes, bondosos, carinhosos, em nada atrapalhando a busca de Liz por sua paz. Destaque para Javier Bardem, péssimo no papel de um brasileiro. Seu português é vergonhoso e sua aparição no final é só a cereja do bolo para a telespectadora que acompanhou sua “heroína” por cenários tão belos. Já Roberts está bem como sempre, e num papel que não lhe demanda muito esforço.

A prova de como a autoajuda pode ser eficaz é a própria atriz. Julia Roberts já admitiu que o filme mudou sua vida, a fez se converter ao hinduísmo e a transformou numa mulher mais paciente e feliz. Não há propaganda melhor para um best-seller de autoajuda que um testemunho como esse.

A “Sauna Cine” está morta. Viva a Sala Cine


, num dos shows mais interessantes da Sala Cine. Foto: Caroline Bittencourt

A “Sauna Cine”, apelido carinhoso dado para a Sala Cine – também no Centro de Convenções da UFPE –, local dos shows de abertura do No Ar: , antes conhecida pelo aperto e calor, deu lugar a um novo espaço com quase o dobro do tamanho. A nova configuração faz eco com a própria música independente que o festival faz de vitrine. Bandas que se apresentaram na Sala Cine poderiam estar no teatro e vice-versa. Nos dois dias de evento, o público conheceu nomes tidos pela organização como promessas, entre eles os pernambucanos Voyeur e Massarock e Bemba Trio, da Bahia. Além dos tradicionais suecos.

Dessa leva de emergentes quem mais chamou atenção foi o Do Amor, banda carioca formada por músicos que já tocaram com Caetano Veloso e que acompanham a cantora Nina Becker nos shows. O grupo faz um rock bem-humorado sem que isso comprometa a qualidade das músicas. O público lotou o espaço para dançar ao som de forró, carimbó paraense e heavy metal, presentes no disco de estreia, como Chalé, I picture to myself e Pepeu baixou em mim. Como no ano passado a Sala Cine apostou em experiências sonoras mais experimentais, ritmos que fogem da ideia pré-concebida que se tem do Coquetel.

O Bemba Trio, um dos projetos do músico baiano Russo Passapusso foi mais um exemplo feliz da vocação da Sala Cine dentro do festival. O cantor se mostrou bem à vontade em seu reggae com hip hop. Conseguiu boa empatia com a plateia, mas o uso de alguns chavões acabaram por comprometer um interesse posterior no trio. Houve até o momento “levantem os isqueiros”.

Na mesma proposta de fundir estilos, os pernambucanos do Voyeur se saíram melhor. Formados por Ju Orange (Ampslina) nos vocais, Paulista (Candeias Rock City) nas guitarras e Pauliño Nunes (Júlia Says), todos da atual cena indie da cidade, conseguiram mostrar novas ideias para o revisionismo do electro-rock dos anos 80.

Das bandas suecas novatas ou menos conhecidas que sempre ganham vez nesse palco gratuito, a que mais chamou atenção foi a dupla Taxi Taxi!. As irmãs gêmeas Miriam e Johanna, 20 anos, fizeram um show bem delicado, com músicas tristes, o que nos leva a imaginar de onde tiram inspiração para tanta melancolia com tão pouca idade.

Simpáticas, representaram bem a fofurice escandinava que sempre aporta por aqui no Coquetel Molotov. Na mesma linha, o show de Anna von Hausswolff ao piano mostrou porque a garota está sendo comparada a Kate Bush. Com essa nova fase a Sala Cine UFPE reafirma sua vocação dentro do festival. Os indies nanicos – em projeção – agradecem.

O texto saiu na segunda-feira no Caderno C, do Jornal do Commercio.

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