Crítica que fiz para o novo filme de Julia Roberts. Saiu no JC Online.

Comer, rezar, amar, que estreia nesta sexta-feira (1º) em todo o País, traz Julia Roberts no papel de Liz, o alter-ego da autora do livro de mesmo nome que é sucesso no mundo inteiro. O longa, assim como o livro, fala diretamente ao universo feminino. É um filme para elas, e por um momento, parece mesmo uma fábula feminista sobre a busca da felicidade da mulher contemporânea.

Liz é uma mulher bem-sucedida e com um casamento estável que se vê num dilema interior após retornar de uma viagem a Bali, onde conhece um guru. Inquieta com a zona de conforto em que vive, sente-se vazia. Parte, então, já divorciada, para uma viagem pelo mundo para se reencontrar. Vai para a Itália, onde cultiva o prazer da gastronomia (e ganha uns quilinhos), em seguida para a Índia, onde mora numa comunidade para a qual seu namorado (James Franco) sempre sonhou em ir. Depois de alcançar a espiritualidade, retorna, enfim, a Bali, onde conhece um brasileiro vivido por Javier Bardem.

O filme dialoga e quer servir de inspiração para pessoas que pensam em largar tudo para promoverem uma mudança em suas vidas. Sobretudo as mulheres, sempre pressionadas a estarem ao lado de um homem ideal provedores de felicidade. Mas o sucesso de Comer, rezar, amar não está na originalidade do discurso e sim por trazer de forma fácil um pacote dramático já bem conhecido por fãs de filmes de romances. É praticamente uma liquidação em forma de cinema. Traz no mesmo bolo uma história de amor, autoajuda, paisagens de guia turístico e, claro, final feliz. Porque assim são os best-sellers: satisfação garantida ou seu dinheiro de volta.

Dirigida por Ryan Murphy (da série Glee), o filme é superficial em suas questões espirituais e também nas inquietações vividas pela personagem principal. Em Roma, onde mora por alguns meses, os clichês abundam na tela o tempo todo, mostrando os italianos de maneira estereotipada. Em Bali e na Índia, Liz mostra ser muito sortuda, já que encontra pessoas que falam inglês nos lugares mais inóspitos. Muito conveniente…

A história do livro e do filme é uma espécie de autobiografia de , autora do best-seller que vendeu mais de quatro milhões de cópias no mundo todo. As lições de vida que ela ensina não são verossímeis no longa, nem mesmo a tentativa de soar transgressor e libertador para as mulheres. E deve ser bem mais fácil buscar a transformação espiritual quando se tem dinheiro suficiente para viajar durante um ano inteiro por países exóticos.

A tentativa do filme em ser de facílima digestão são seus personagens coadjuvantes. Todos muito simpáticos, sábios, inteligentes, bondosos, carinhosos, em nada atrapalhando a busca de Liz por sua paz. Destaque para Javier Bardem, péssimo no papel de um brasileiro. Seu português é vergonhoso e sua aparição no final é só a cereja do bolo para a telespectadora que acompanhou sua “heroína” por cenários tão belos. Já Roberts está bem como sempre, e num papel que não lhe demanda muito esforço.

A prova de como a autoajuda pode ser eficaz é a própria atriz. Julia Roberts já admitiu que o filme mudou sua vida, a fez se converter ao hinduísmo e a transformou numa mulher mais paciente e feliz. Não há propaganda melhor para um best-seller de autoajuda que um testemunho como esse.