A personagem mais interessante de Nosso Lar resume a inquietação que poderá tomar muitos espectadores quando o filme estrear, na próxima sexta-feira (3). Inconsolada por ter morrido repentinamente, ela decide abandonar o mundo espiritual e diz: “Por que tudo aqui tem que ser tão moralista? Todos têm sempre um conselho pra te dar”. Troque esse plano espiritual pelas salas de cinema e Heloísa, a personagem de Rosane Mulholland se torna uma alegoria dos defeitos do próprio filme.

Nosso Lar é a mais cara produção até hoje feita no País, com R$ 17,5 milhões. Mais até do que Lula, O Filho do Brasil, que foi orçado em R$ 16 mi e tinha dinheiro público. Apesar dessa superprodução, o longa não consegue criar empatia com o público, não se torna crível e possível aos olhos de quem assiste. Isso é um requisito essencial quando se trata de criar mundos imaginários (ou imaginados, para alguns, nesse caso), e este longa dirigido por Wagner de Assis é muito deficiente nesse sentido.

O filme se veste de uma série de ideias previsíveis do que poderíamos esperar de um mundo evoluído, o ceu ou algo do tipo. Roupas esvoaçantes de tons claros, ceu azul, gaivotas voando, figurantes se comportando como um comercial de margarina. Um pós-vida cafona, pra resumir. Já o Umbral, o oposto mundo inferior, até transmite um tom de realismo, mas não se aprofunda. Fica como um painel que poderia ser melhor bem explorado.

Os efeitos especiais foram feitos pela mesma equipe que trabalhou em Watchmen. Mas, o roteiro mais uma vez foi no óbvio. Espirítos de luz que mais se pareciam com painéis fluorescentes, raios verdes para representar bons fluidos, fumaça e trovoadas para momentos de terror.

O texto complica a experiência de ver esse cenário ascético. As falas parecem saídas de um jogral teatral, falta naturalidade, realismo. Sem falar do tom professoral e austero compartilhado unanimamente por todos os habitantes do lugar. Mais uma vez, a produção optou pelo caminho mais fácil ao fazer com que todo o elenco interpretasse o mesmo personagem.

A única exceção disso é Heloísa. A personagem destoa desse mundo, veste-se como uma pessoa normal, tem expressões, e em determinado momento, tenta fugir. Para quem não é espírita, ela funciona como uma reflexão: se todos temos livre-arbítrio, ela decide que aquele mundo tão belo e seguro também representa um tipo de prisão. É um dos poucos momentos em que o filme sugere ao espectador um conflito, uma questão. De resto, tudo é entregue pronto, mastigado e explicadinho, como numa palestra.

A própria Rosanel Mulholand, que interpreta Heloísa, destoa do resto do filme, talvez beneficiada por seu papel. Ao contrário de seu protagonista, Renato Pietro, que demora a soar convincente em seu papel de homem que se regenera e muda de vida. Umbral, mundo superior. Do modo como foi retratado, Nosso Lar, o filme, deixa dúvidas do que pode ser pior.

Resenha de Nosso Lar, que escrevi para o JC.

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