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Femme Fatale — Por Luiza Lusvarghi. Séries, Filmes, Produção Latino-Americana, Relações de Gênero

Tag: Filme Ensaio

Ana. Sem título: Murat faz ensaio sobre Feminismo, Política e Arte na América Latina


Em seu longa-metragem Ana. Sem título, que estreou na 44ª Mostra, Lucia Murat volta a seus filmes-ensaio em que mescla tanto a linguagem do documental quanto a ficcional, e radicaliza a proposta que já estava presente em seu longa de estreia Que bom te ver viva (2000).

Ao criar, a partir de uma gravura, a personagem da artista plástica e performer brasileira Ana, desaparecida durante a ditadura militar, Murat se dispõe a percorrer o labirinto em que a região latino-americana se envolveu a partir da década de 1960, vale dizer, de sua geração. Ao longo do filme, por meio da jornada em busca de Ana, jovem e promissora artista negra, homossexual, revolucionária, vamos nos deparar com a presença de mulheres artistas tão distintas quanto Lygia Pape, Maria Luisa Bemberg, Antonia Eiriz, Frida Kahlo, Kati Horna, Lea Lublin e Luz Donoso.


A inspiração para produzir uma historiografia da mulher no contexto político e artístico da América Latina surgiu a partir da peça-documentário de Clarice Zarvos, Mariana Barcelos e Daniele Ávila Small, de 2017, Há mais futuro que passado. Embalada por essa encenação do real, Murat decidiu se lançar numa longa pesquisa e criou uma personagem que efetivamente existiu, mas da qual nada sabemos, e parte em longa viagem que se compara quase a um rito iniciático, uma aventura, plena de descobertas.


Os verdadeiros protagonistas do filme são a atriz Stella Rabello, que a partir da descoberta de Ana na exposição Mulheres Radicais: arte latino-americana, 1960-1985, na Pinacoteca de São Paulo, decide empreender um mergulho no período, a própria diretora e sua equipe mínima composta pelo diretor de fotografia Leo Bittencourt; e Andressa Clain Neves, a técnica de som, que acabou se envolvendo num episodio verdadeiro de racismo ao ser barrada no aeroporto do México.

A eles se somam diversas personalidades do Chile, Argentina, Peru, México, Cuba, que vão nos ajudando a compor o rosto de Ana, que é a face da arte sob a repressão de ditaduras políticas, da repressão à expressão artística, de violência contra a mulher e, acima de tudo, da mulher negra. O time conta ainda com a atriz Roberta Estrela D´Alva, em belíssima performance do poema da poeta peruana Victoria Santa Cruz Me gritaron negra.


Além de tecer esse painel belíssimo e urgente sobre a arte e a política latino-americanas, o longa é um libelo feminista e um grito de revolta contra o racismo estrutural. Não por acaso, o filme fecha com uma leitura de Um teto todo seu, de Virginia Wolf, interpretado por Stella. É impossível assistir ao filme sem sair com a sensação de que um pedaço de nós, da nossa história, nos foi roubado, mas que, ao final, de alguma forma, o cinema pode trazer de volta não somente essas imagens como mera informação, mas a experiência.

 

 

 

Tremor Iê: Revolução, Transgressão Narrativa e Feminismo

Silêncios, luzes, sombras. O filme Tremor Iê começa com um road movie que nos leva a crer que iremos assistir a um thriller ao estilo de Feminino Plural, o clássico de transgressão feminina caboclo dirigido por Vera Figueiredo. Não é isso que acontece, e o filme corta para uma cena quase bucólica numa casa em meio ao nada. Vozes sussurradas ao pé da fogueira, relatos de opressão e de dor. Num filme de pluriprotagonismos, as mulheres são as personagens principais. Janaína, presa política numa manifestação em 2013 em Fortaleza, sua amiga Cássia, e suas companheiras, clamam por liberdade, por espaços experenciados e brutalmente suprimidos, de forma arbtitrária por um governo totalitarista. Os únicos homens em cena são policiais, eles encarnam a face mais perversa da sociedade patriarcal, um Estado policial, escorado por um fanatismo religioso que lança mão de palavras de fé cristã para manter a ordem. As religiões populares surgem então como o perfeito contraponto subversivo de tamanho maniqueísmo político, baseadas em práticas e culturas populares. Essa atmosfera asfixiante é mantida pela narrativa até o final, que encena uma espécie de milícia feminista que se articula para soltar as companheiras presas, libertar esse velho mundo de suas amarras.

O que mais agride nessas novas mulheres de Atenas é que a descrição acima bem poderia se referir a um thriller gélido como Atômica (2017) estrelado pela elegante Charlize Teron, ícone de beleza anglo-saxônica que desfila figurinos impecáveis enquanto massacra de cinco a oito homens por cena no mínimo. No entanto, o que se vê são tipos étnicos bastante brasileiros, caboclos, mescla de indígenas e negros, com sandálias havaianas, roupas adquiridas em lojas populares como Torra Torra e similares, nenhuma preocupação com qualquer tipo de glamurização. A violência é sugerida, é de outra natureza, ela atinge o imaginário, a ideologia,  é plasmada em longos diálogos e monólogos, ela se apresenta menos por espetáculos de lutas marciais do que pelo medo e pela indignação, o tom de revolta e de conspiração que vai se apropriando de suas personagens constrói o filme. Decididas, elas se unem contra a ditadura e planejam sua revolução. A maioria das mulheres nas telas que representam heroínas na atualidade servem a propósitos delirantes e suspeitos, a governos cujas proposições mereceriam um olhar mais aprofundado, mas seguem suas vidas sem grandes questionamentos. Muitas, como a heroína biônica da minissérie Hanna (Amazon, 2019-2020)  sequer sabem a quem estão servindo. Só querem fugir, mas não sabem bem para onde vão, e acabam voltando para as organizações paramilitares de onde saíram. A audiência, igualmente privada dessas referências, segue desnorteada em meio a tanta pirotecnia e cenários deslumbrantes, ansiando por um final feliz, que naturalmente não virá.

A narrativa de Tremor Iê escapa literalmente dessas armadilhas, mas se ressente de sinapses longas entre as cenas, divididas entre três episódios distintos, que por vezes quebram o ritmo do filme, recurso que poderia ser usado de forma mais pontual, pois a ruptura como convenção enfraquece a sua eficácia como estratégia. A sequência em que sequestram os restos mortais do ex-ditador Castelo Branco como moeda de troca, algo que nos remete parodicamente ao ato de sequestro do cônsul Charles Burke Elbrick estadunidense pelo grupo MR-8 nos anos de chumbo brasileiros, mais precisamente em setembro de 1969, é evocada somente por palavras, o que é a tônica do filme, mas acaba soando como mera elocubração das personagens, quase um delírio e nada mais, retirando o caráter vigoroso do ato simbólico..

O filme Tremor Iê é o primeiro longa-metragem das diretoras Elena Meirelles e Lívia de Paiva, cearenses e lembra produções do coletivo Alumbramento – Guto Parente é um dos únicos personagens masculinos, ao lado de Petrus dos Bairros, que também assina o roteiro -. e de certa forma espelha as inquietações artísticas e políticas que contribuíram para que o grupo se transformasse numa referência nacional. Estreou na mostra competitiva Corpos Adiante, da 22ª edição do Cine Ceará. Sua proposta necessitaria talvez de maior elaboração no roteiro, mas é altamente promissora.

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