Revista O Grito!

Femme Fatale — Por Luiza Lusvarghi. Séries, Filmes, Produção Latino-Americana, Relações de Gênero

Tag: cinema latino-americano

King Kong en Asunción: a transamérica distópica e intercultural de Camilo Cavalcanti

King Kong é um ícone cinematográfico, hollywoodiano, surgido em 1933, com direito a diversas adaptações cinematográficas. A imagem terna do macaco monstruoso segurando com ternura na palma da mão a então estreante Jessica Lange entrou para a história do cinema fantástico. Existe uma relação entre o gorila cinematográfico e o matador de aluguel interpretado pelo ator Andrade Junior, verdadeiro símbolo do cinema candango, morto em 2019 antes do lançamento, o Velho de King Kong en Asunción, produção fantástica do pernambucano Camilo Cavalcanti que arrebatou o Kikito em Gramado nessa edição histórica de 2020. No curta gaúcho O Dia em que Dorival Encarou a Guarda (1986), de Jorge Furtado e José Pedro Goulart, podemos encontrar uma pista.

Nele, João Acaiabe interpreta um prisioneiro negro que é diariamente maltratado por um agente penitenciário de baixa patente, um cabo branquelo, o “catarina”, e ousa desafiá-lo. Seu único intuito é tomar um banho, e para isso ele desafia hierarquias, é cruelmente espancando, valendo-se do seu tamanho e de sua massa muscular, do medo que inspira, para ter direito a um privilégio básico que ele sabia que não obteria por meios formais. Ele está proibido de tomar banho, e ninguém sabe explicar o motivo. E ao final, ele consegue realizar seu intento, que quase lhe custa a vida.

Pois bem, o Velho, esse matador de aluguel solitário, decide abandonar sua carreira de assassino profissional para reencontrar o amor de sua vida, com quem teve uma filha, que ele desconhece. Sabe que ela vive em Asunción, no Paraguai. Brasileiro expatriado, ele abandona tudo para ir atrás de seu último desejo. Nessa trajetória ele realiza uma autêntica imersão nessa América do Sul que insistimos em ignorar, ela abre mão de sua identidade nacional e mergulha na noite, na dimensão mais trágica de sua existência, percorre estradas, becos, bairros, bares.

Entre hotéis luxuosos e pousadas fétidas, ele está sempre perambulando em busca de um sentido. No trajeto, reencontra velhos amigos como o barbeiro João  (o paraibano Fernando Teixeira, outro ícone de sua geração). O itinerário inclui festas em bordeis baratos, orgias. Ao final, ele encontra sua redenção, de alguma forma. O King Kong imaginário, que  no curta gaúcho só existe na imaginação do amedrontado cabo, mas é instigada pelo astuto prisioneiro, no filme de Cavalcanti é o artifício do personagem que nos impede de arrancar a sua máscara de homem violento e perigoso, de refletir sobre a solidão da velhice, a inevitabilidade da morte de cada um.

Ele consegue ter nos braços a amada, por um momento fugaz, e reencontrar amigos importantes. Mas tudo isso agora é inútil. Desesperado, ele se envolve com um grupo de trambiqueiras que tentam se aproveitar dele em sua miséria afetiva. Seu grito ecoa como um último sinal de luta pela vida.  Seu King Kong enjaulado irrompe como um grito de dor no meio da noite, expressão de um animal ferido que sabe que está agonizando, não há mais refúgio possível. A inspiração real de Cavalcanti, revelada na coletiva de Gramado, se deu na verdade por meio de um encontro dele com o próprio Andrade, em 2007, ao compartilharem um quarto de hotel em um festival da Baixada Fluminense. Andrade fez uma performance encarnando o legendário gorila que encantou o cineasta e se fixou em sua memória.

As imagens finais ao som de Volver a los 17, emblemática canção escrita pela chilena Violeta Parra, que muitos atribuem ao seu amor por um rapaz mais jovem, e que foi celebrizada na voz da índia argentina Mercedes Sosa, trazem ainda outra referência, e falam da importância da memória e do resgate das emoções vividas na adolescência das paixões para a idade madura. A canção foi sucesso no Brasil interpretada por Sosa em parceria com Milton Nascimento.
King Kong em Asunción é repleto de referências cinematográficas e culturais que remetem à América Latina, e mais especificamente à América do Sul. O Brasil sempre se sentiu à parte dessa região, numa espécie de auto-exclusão, afinal fomos uma monarquia portuguesa, a sede do império. É como forasteiro que o Velho viaja e cumpre seu destino, sempre se expressando em portunhol em suas poucas falas. Ele não é reconhecido como um igual nesse mundo que fala guarani, dialeto que perpassa a produção, e que é recorrente em diversas regiões do Brasil, Bolívia, Argentina e Paraguai nas comunidades mais pobres e marginalizadas.

A produção do filme registra ainda créditos para Colômbia, mas na verdade toda a ação do filme se passa entre Paraguai e Bolívia, com exceção da cena da chacina da família do protagonista, feita no Brasil. O Velho, desde então, é sempre um estrangeiro, por onde quer que passe. Ele se sente parte de tudo, mas não pertence à nada. Só lhe resta a estrada, eterno peregrino.  A narração over em guarani de sua jornada se dá pela voz da atriz paraguaia Ana Ivanova, conhecida entre nós pelo filme As Herdeiras (2018). No roteiro original, ela seria do próprio ator, mas Cavalcanti intuiu a força da narrativa feminina para falar da vida e morte do Velho, e esse é mais um acerto do filme. E aí entra a questão do feminino. Para o Velho, a mulher é sempre uma grande incógnita.

Seu mundo é o dos homens, e por esse mundo as mulheres transitam ora como interesse amoroso, ou apenas como sexo pago e orgia, umas mais honestas, outras menos. Ele não consegue dialogar com elas em nenhum momento. Não é episódico que a Morte seja uma voz feminina. A excelência dessa narração e de seu texto, que transcende em muito a voz over de narrativas policiais, documentais, lhe dá um caráter antológico, essencial.

No cinema, o formato que antecede os documentários são os travelogues, relatos pessoais documentais que remetem aos diários, e que embora sejam originalmente de não-ficção, vão influenciar a produção ficcional. Tanto o documentário quanto as formas ficcionais híbridas, que fazem uso dessas referências, trabalham tanto com a viagem quanto com a questão da experiência, enquanto argumento e também estética, integrando-se livremente ao ambiente, permitindo uma articulação de planos que pode ser aleatória, lúdica e poética.

O longa King Kong em Asunción se propõe a ser uma obra ficcional experimental, mesclando realidade e ficção, explorando hibridismos de linguagem, e utilizando personagens e paisagens reais. Segundo seu diretor declarou em entrevistas anteriores, o filme segue os passos do “cinema marginal, cinema de guerrilha com várias citações ao gênero western” para distanciar-se de referências europeias, tão frequentes em abordagens cinematográficas locais, postulando uma “nova gramática cinematográfica”. Filmado com uma equipe compacta e uma estrutura de produção enxuta que lhes permitiu viajar por 3 mil quilômetros, o baixo orçamento proporcionou aqui total liberdade criativa e artística.

King Kong en Asunción tem ritmo de estrada e acompanha a jornada do personagem principal pelas artérias da América do Sul, expondo o interior e seu povo, sua multiculturalidade  com suas tradições, folclore e formas locais de expressão social. A obra se propõe a refletir sobre uma possível integração cultural entre Bolívia, Paraguai e Brasil, abolindo fronteiras, na busca de uma possível identidade comum, vivendo sob uma realidade economicamente perversa e um contexto cada vez maior de exclusão.

Fantasias eróticas na terceira idade: a insólita saga romântica de Ripstein

O Diabo entre as Pernas é um título clichê para designar grande potência sexual, uma libido incontrolável. Há muitos filmes com títulos semelhantes, que tratam da toxidade do amor carnal, como Entre Las Piernas (1998), de Manuel Gómez Pereira. Mas a obra em questão pertence ao mexicano Arturo Ripstein, artífice do improvável romantismo de casais insólitos como o de Vermelho Sangue (Profondo Carmesi, 1996), personagens esculpidos a partir de sua longa e profícua parceria com a roteirista e companheira Paz Alicia Garciadiego.

E a libido a ser explorada aqui é a de Beatriz, uma senhora já idosa, aparentemente indiferente ao marido e à vida em geral, que embora inicialmente nos dê a sensação de ser apenas uma vítima das fantasias concupiscentes de seu marido, vai se revelando insaciável e manipuladora.

O cartaz do filme é o desenho de uma vagina, com grande destaque para o clitóris. O filme, totalmente em preto e branco, se por um lado não tem a menor preocupação em ocultar os corpos já macilentos, carnudos e flácidos, não está voltado para explorar os mesmos detalhes que o cartaz insinua. Certamente não é uma obra pornô emblemática. Essa dificuldade de rotular a experiência desse casal, e da mulher em especial, é que prende a atenção do espectador pouco habituado a essa exploração do sexo de forma naturalista, despojada, e ainda mais tendo como objeto de desejo a sexualidade de um casal de idosos, que deveriam provavelmente estar cuidando de netos em vez de se preocuparem em transar obsessivamente.

A obra narra a vida erótica de um casal já maduro, que parece abandonado pela família e pelo mundo. As cenas demonstram que tiveram filhos, mas que já não vivem com eles,  com os quais possuem uma  relação distanciada e fria.  “Todo mundo odeia os filhos”, diz o marido, nomeado simplesmente como o Velho (Alejandro Suárez).

A casa toda parece abandonada, como se fizesse parte do cenário decrépito de um lugar que já viveu dias melhores, repleto de objetos embolorados que perderam a sua função, mas dos quais o zeloso proprietário, acumulador, evita desfazer-se. A mesa de refeições, os bibelôs, tudo em excesso, os manequins antigos do farmacêutico que queria exercer a medicina, mais parecem memorabilia de uma feira de bric a brac., com antiguidades que necessitam de algum reparo para voltarem a ser o que eram. Mas são itens de colecionador, pertencentes a uma época perdida, o tempo da memória.

Quem se movimenta pela casa como dono absoluto é ele, o Velho, sua mulher, Beatriz nos dá sempre a impressão de uma moradora eventual, que a qualquer momento pode partir. Espelhos pontuam as cenas, na casa do casal, da amante, remetendo aos famosos versos de Cecília Meireles – em qual espelho ficou perdida a minha face?

A casa passa tal impressão de desmazelo e sujeira que chega a parecer supérflua a presença da empregada.  A única a zelar por ambos, porém, mantendo a ordem da casa e apaziguando os conflitos de seus ocupantes, é justamente a empregada Dinorah (Greta Cervantes) que é continuamente humilhada por Beatriz, suportando todas as ofensas estoicamente, e que subitamente começa a comportar-se como se fosse uma filha, de forma tão tocante que chega a nos sugerir essa possibilidade. Essa postura sofre uma reviravolta no final inesperado, mas Dinorah é a personificação da serva num universo patriarcal, em que as mulheres como ela se comportam, de uma forma ou de outra, de modo submisso aos patrões, defendendo o lar como se fosse o seu.

O Velho vive um jogo perverso de rejeição e erotismo com Beatriz, que o ignora para melhor seduzir, seus ciúmes exalam um machismo tóxico, componente que, aliás, permeia a vida de muitos casais, velhos e novos, e serve de combustão ao sexo. Entre misoginia e um amor profundo, que vai aos poucos se revelando, o Velho tem ainda uma amante, interpretada pela incrível Patrícia Reyes Spindola, também casada, que surge em cenas íntimas totalmente desglamurizada, liberada pela permissividade de um marido conivente com as escapadelas da mulher, que trata com adoração.

As duas atrizes já fizeram outros trabalhos com ele, que começou a carreira como assistente de Buñuel, e as imagens do filme parecem pouco se importar em desnudá-las de forma realista e sem retoques, matronais mas sempre sensuais. Pasqual e Reyes parecem muito mais velhas em cena do que na vida real, e exibem-se para a câmera sem muito pudor, o que por si só já seria um diferencial do filme.

Não existe voyeurismo, nem corpos jovens sendo exibidos aqui. A câmera se detém sobre os aspectos mais improváveis, como a cena longa em que o Velho acaricia a bunda repleta de celulite de sua amada. O que se destaca em cena, além da imprevisibilidade da relação, é a abordagem realista e crua do sexo na terceira idade, sem nenhuma concessão visual. As cenas eróticas são quase felinianas, mas se detêm no limite do racional. O desejo aqui não requer catarse.

Descobrimos na verdade que a rejeição de Alicia é um jogo sensual, em que ela o rechaça e sai para dormir com outros homens, o que o deixa mais apaixonado do que nunca. Sua tentativa de ficar com o jovem parceiro nas aulas de tango, Daniel Gimenez Cacho, o Zama de Martel, beira o patético, mas, ao mesmo tempo nos sensibiliza. Ela deveria se colocar em seu lugar de senhora (qual mesmo?), não ser tão vulgar, e, no entanto, se expõe a isso de forma corajosa.

Em mais da metade do filme a ideia de que ela é uma sedutora parece improvável, apenas uma fantasia fetichista dele, mas ao final compreende-se que a personagem de Beatriz vai muito além de qualquer expectativa formal sobre o tema. O clímax do final parece trazer uma reviravolta, e nos faz pensar, equivocadamente, que estamos diante de um drama trágico, ou ainda de uma narrativa criminal, como tantas outras. Nada mais enganoso.

Mas quem disse que a vida e o amor são fábulas melodramáticas?  A expressão piegas entre tapas e beijos faz valer aqui todo o seu sentido. A obra é uma reverência, ainda que passional e doentia, ao desejo feminino, e à necessidade que o patriarcalismo tem de se apoderar dessa força que não consegue subjugar ou compreender na totalidade. O filme de Ripstein e seus longos planos se inscreve claramente na linhagem das obras malditas que arrastavam os cinéfilos para ver a Mostra no passado, pois jamais seriam vistas novamente em telas brasileiras.

Roma: o imaginário mexicano no cinema sensível de Cuarón

O filme Roma, do diretor mexicano Alfonso Cuarón, belíssima obra autoral, surgiu em 2018 deflagrando polêmicas.  Lançado pela Netflix em dezembro de 2018, levou estatueta de melhor filme no Festival de Veneza. Foi indicado em 10 categorias do Oscar 2019, uma conquista, levando em conta o boicote da indústria às produções cinematográficas do grupo de streaming. Acabou sendo premiado no Globo de Ouro como melhor direção, e no Oscar deste ano apenas com Melhor Direção e Fotografia – assinada pelo próprio Cuáron –  nas categorias principais, e como Melhor Filme Estrangeiro, algo que demonstra claramente a indisposição da indústria hollywoodiana com a filmografia estrangeira e com a produção de streaming, considerada ainda uma ameaça. Desde a indicação de Cidade de Deus (2002) que a academia vem sinalizando uma abertura com relação às premiações de produções estrangeiras e à diversidade étnica, mas sempre a passos de caranguejo. Afinal, Roma foi um dos 10 lançamentos originais Netflix para a América Latina, produção que vem se expandindo rapidamente. O grupo Netflix vem fazendo lançamentos em algumas salas de cinema e circuitos de arte desde a primeira produção original, Beasts of No Nation (2015), mas em geral com estreia simultânea no catálogo. Foi o que aconteceu com outra produção mexicana, A Cuarta Compania (2018).

Apesar da beleza invulgar da obra há divergências sobre o lugar de fala da protagonista, Cleo (Yalitza Aparício), empregada doméstica de ascendência indígena e bastante submissa aos patrões. A história se passa a partir do ponto de vista de Cleo, mas o olhar da câmera se faz presente.Em preto e branco, e longos planos-sequência,  a obra remete à estética do neorrealismo italiano, e não apenas pela fotografia em preto e branco, encontrada em outras realizações do circuito de arte de caráter nostálgica, mas pelo som ambiente, pelas locações, pela forma de produção e pela narrativa.  Essa tendencia estética parece ser característica de obras do chamado circuito independente de cinema, que inclui diretores como o filipino Brillante Mendoza, de cunho social e político, ao qual se filiam parte dos originais Netflix.

Cleo (Yalitza Aparicio) com Pepe (Marco Graf), ao fundo, e o Sr. Antonio (Fernando Gradiaga) e a Sra. Sofia (Marina De Tavira). Imagem de Carlos Somonte.

O filme retrata a vida da jovem babá de uma família no bairro de elite Colonia Roma na capital mexicana, e sua relação apaixonada com as quatro crianças da casa, Toño (Diego Cortina Autrey), Paco (Carlos Peralta), Pepe (Marco Graf) e Sofi (Daniela Demesa). Há cenas poéticas que se destacam como um autêntico tributo ao cinema, a única diversão de Cleo em sua rotina entediante de empregada doméstica.  E momentos de pura magia e de afeto nas cenas com as crianças.

Pepe, Sofi, Cleo, Sofia,  Toño e Paco, a família reunida, em cena emocionante durante um passeio na praia.  Imagem de Carlos Somonte.

No começo, acompanhamos a primeira experiência amorosa de Cleo com Fermín (Jorge Antonio Guerrero) um rapaz que ela descobre mais tarde estar envolvido em operações paramilitares do grupo Los Falcones. Na cena em que se conhecem, no entanto, os indícios de que o jovem, encantado com artes marciais possa ser uma figura violenta são sutis, delineados somente pela exibição de suas habilidades. Os homens são fugazes e frios. A figura paterna, representada pelo sr. Antonio (Fernando Grediaga), por vezes é somente um plano detalhe de mãos ao volante. Trata-se de uma família de mulheres, e nela a figura da babá é mais importante para as crianças do que a da mãe, Sofia (Marina de Tavira) que aparece como uma vítima da sociedade machista, abandonada pelo marido sedutor, porém distante.

Marina de Tavira, a Señora Sofía de Roma, escrito e dirigido por Alfonso Cuarón. A atriz foi indicada ao Oscar na categoria de atriz coadjuvante. Imagem de Carlos Somonte.

O diretor Cuarón teria se inspirado na própria infância para traçar esse retrato sensível dos conflitos domésticos e da exclusão social em seu país durante a década de 1970, quando o  Partido Revolucionário Institucional (PRI) promove uma guerra sem tréguas contra a esquerda e os movimentos populares. Na cena em que Cleo entra numa loja de móveis com a avó, a sra Teresa (Verônica Garcia), estudantes são mortos a tiros durante o Massacre de Corpus Christi, também conhecido por El Halconazo, símbolo da desigualdade da pseudodemocracia mexicana. Um filme de impacto, uma homenagem à família, mas também ao México, e praticamente uma volta a obras que marcaram a carreira do diretor, como E sua mãe também (Y su Mamá también, 2001), que alçou os atores e também produtores Diego Luna e Gael Garcia Bernal ao estrelato.

Cuarón se empenhou em trabalhar com a maior autenticidade possível, refazendo a casa em que viveu com móveis da família. O elenco tem forte composição de muitos atores não profissionais, caso de Yalitza Aparicio, que sofreu retaliações de colegas por conta disso em sua indicação ao Oscar.

Cleo com Pepe, Paco (Carlos Peralta Jacobson), e Sofi (Daniela Demesa). Imagem de Alfonso Cuarón.

Os atores,que recebiam o roteiro apenas no momento das filmagens,  tiveram liberdade para compor as personagens a partir de suas próprias memórias familiares. A belissima fotografia, sempre a cargo do colega de faculdade nas obras do diretor, Emmanuel Lubezki, o Chivo, desta vez ficou com o próprio Cuáron, que começou a vida profissional como diretor de fotografia. O amigo não pode participar deste projeto, mas foi mencionado com carinho pelo diretor.

 

Desconstruindo as narrativas hollywoodianas de gênero: o thriller El Mate

Imagens iniciais lembram Tarantino e Cohen, mas o humor negro acaba sendo a tônica.

Thriller de suspense e ação, comédia de humor negro bilíngue em português e espanhol, El Mate (Brasil, 2017), o longa-metragem de estreia do ator e diretor Bruno Kott, engana à primeira vista. O assassino de aluguel Armando (o portenho Fábio Markoff), vive em São Paulo, a grande capital multicultural da América Latina, nossa cidade global.  O filme se inicia com Armando em casa, na garagem, onde mantém um homem russo sob custódia, enquanto aguarda um telefonema de um mandante que virá resgatar a “encomenda”, interpretado pelo diretor Mauro Baptista Vedia. Ele é surpreendido pela chegada de Fábio (Bruno Kott), um jovem evangélico que bate a sua porta para levar a palavra de Deus, e que acaba por mudar o rumo da vida da dupla.

No imaginário cinematográfico contemporâneo, a primeira cena remete a Cães de Aluguel (Reservoir Dogs, 1992), obra emblemática de Quentin Tarantino, na medida em que aborda um universo alternativo e violento, de assassinos e matadores, banalizados como pessoas comuns, em seu dia a dia. Seu diretor, o também ator e personagem Bruno Kott, que ganhou um prêmio como melhor ator coadjuvante pelo filme em Gramado no ano passado, reconhece a referência, mas diz preferir “os Irmãos Cohen”. A ideia era partir de uma cena que lembrasse uma fórmula clichê e desconstruir aos poucos a ideia de um thriller de suspense, surpreender. O roteiro é aberto, a frustração interna dos personagens é na verdade o estopim da ação,  e a estrutura narrativa lembra algumas situações a comédia de erros. Um tiro disparado por acaso é o gatilho para narrar uma história de busca de identidade e de sentido para a vida de ambos os personagens que não deveriam estar ali.

Na medida em que a trama avança, as referências estéticas e de humor se afastam de Hollywood e vão se tornar cada vez mais latino-americanas, a começar pela trilha, que na verdade não é argentina, e foi criada para o filme pelo músico e compositor brasileiro, Marcos Romera. A canção Para que tu vuelvas é cantada pela cubana Alba Sants, Estoy perdida pela espanhola Irene Atienza, e Olvidate de mi por Gustavo Filipovich. Todos eles vivem em São Paulo. Na primeira versão, exibida em Gramado, as músicas eram cumbias selecionadas por Kott em função do desenvolvimento da história. Como eles não conseguiram os direitos sobre as músicas, refizeram a trilha com canções originais. El Mate, que foi lançado no dia 31 de agosto de 2016, o dia do golpe, em Gramado, em um contexto de manifestações e repúdio ao impeachment, fecha com uma interpretação em cena do icônico tango Cambalache (1935),  de Luis César Amadorie Enrique Santos Discépolo, imortalizado por Carlos Gardel, interpretado pelo uruguaio Cesar Cantero, que Kott descobriu no You Tube, e que deixa no ar a ideia de um final em aberto, de uma história entre outras  : Que el mundo fue y será una porquería, ya lo sé/En el quinientos seis y en el dos mil también/Que siempre ha habido chorros/Maquiávelos y estafáos/Contentos y amargaos, valores y dublé/Pero que el siglo veinte es un despliegue/De maldá insolente ya no hay quien lo niegue/Vivimos revolcaos en un merengue/Y en el mismo lodo todos manoseaos.

O thriller de ação se transforma em em festa embalada por músicas latinas.

O roteiro também é assinado pelos dois, que foram elaborando os personagens baseados em experiências anteriores, e na sua relação profissional. Kott e Markoff, atores de formação, vêm do teatro. Durante três anos, fizeram um programa de televisão No Divã do Dr. Kurtzman, com três temporadas, exibido pelo Canal Brasil, e criaram uma “escada” para se relacionarem, com palavras e chistes. O filme tem legendas para as falas do personagem argentino, que ao se relacionar com as vizinhas, interpretadas pelas divertidíssimas Carlota Joaquina e Mochele Boesche, acaba descambando naturalmente para o portunhol.

A ideia de produzir uma obra bilíngue aqui é a de provocar o público, mas sem experimentalismos, e a iniciativa não partiu de nenhuma demanda de coprodução, e sim do envolvimento do diretor com esse imaginário.  O Dr. Kurtzman do programa é interpretado por Marcoff, que já atuou nas séries 9 mm (Fox) , Passionais (Globo), Família Imperial (Futura), Magnífica 70 (HBO), e no filme O Roubo da Taça (2016, Brasil). Kott, que na trama usa o nome verdadeiro de Markoff, atuou ainda em O Jogo das Decapitações (2013), de Sergio Bianchi.

Os diálogos, repletos de alusões à infância, melancolia, conferem empatia aos dois personagens, e verossimilhança à trama. Portanto há muito improviso. Bruno faz um garoto de subúrbio que pertence a uma igreja pentecostal, e vende Bíblias. A facilidade com que ele ingressa no mundo do matador de aluguel, totalmente sádico e amoral,  o que aparentemente seria muito contraditório, se dá, como vamos perceber, por serem ambos totalmente desajustados. Nada é o que parece ser. O estranhamento inicial e um acontecimento imprevisto abrem espaço para a aproximação entre ambos, e propiciam uma cumplicidade insólita. A atmosfera híbrida do filme se inicia com algumas fórmulas consagradas de narrativa criminal, mas se consolida na verdade a partir da intensa relação de camaradagem que surge entre os dois, num clima de quase bromance – a locação era a casa de Fábio, e eles cozinhavam no set -, em que as diferenças se diluem rapidamente nos jogos de cena criados pelos atores. O orçamento é baixo, o filme custou cerca de R$ 300 mil, e foi coproduzido pelo Canal Brasil, que deve exibir o filme após sua estreia nos cinemas. As cenas eram gravadas, e depois editadas, com no máximo três tomadas por cena. O filme entra em cartaz no dia 17 de agosto.

 

 

 

 

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