Revista O Grito!

Femme Fatale — Por Luiza Lusvarghi. Séries, Filmes, Produção Latino-Americana, Relações de Gênero

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Miss Marx: uma feminista do século 19

A cinebiografia, ou a biopic, como prefere Hollywood, da filha mais nova de Karl Marx, Eleanor, Miss Marx, é um dos filmes imperdíveis da 44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Produção da diretora italiana Susanna Nicchiarelli, e uma coprodução Itália e Bélgica falada em inglês, terra natal da protagonista. Eleanor, também chamada pela família e pelo pai de Tussy (porque tossia muito quando criança), era inteligente, sagaz e livre demais para a época, embora sempre contasse com o apoio do pai. Extremamente devotada ao pai,  e ao seu ideário,  ela rapidamente transforma-se em uma espécie de secretária e assessora do filósofo e jornalista cuja obra é fundamental para compreender a sociedade capitalista, mas é interessante ver como o apelido doméstico é utilizado com frequência para diminuir a sua importância pelos aliados políticos e pela família.
Eleanor fuma,  dança, estuda, se diverte, até que em 1883 conhece Edward Aveling, socialista como ela, boêmio, autor e teatrólogo, por quem se apaixona, e com quem vai construir uma relação tórrida e destrutiva. Mas Aveling é irresistível, e reconhece em sua mulher o brilho que ela tem, e sabe como envolvê-la com esse tipo de sedução. Como tantos outros homens com esse perfil, ele se sente atraído por essa mulher tão entusiasmada e repleta de energia, e não consegue lidar com essa realidade, a de ser o companheiro de uma mulher intelectualmente tão arrojada, o que socialmente cobra dele uma postura mais firme perante a vida. Os companheiros socialistas não o vêem com bons olhos, ele naõ consegue lidar com limites sociais de nenhum tipo, expõe a companheira a situações politicamente delicadas. Ela por sua vez acolhe esse sujeito inseguro e galanteador que, inicialmente, a trata como uma rainha, e asume a relação com um homem casado, um escândalo para o período, disposta a encarar as consequências.
Eleanor Marx foi uma das primeiras mulheres de seu tempo a associar o socialismo à luta das mulheres, sempre participando dos movimentos de reivindicações e dos direitos das mulheres trabalhadoras, se posicionando contra a exploração do trabalho infantil, uma barbárie que contribuiu para a riqueza de tantos empresários.
O papel cai como uma luva em Romola Garai, atriz britânica que consegue lidar na tela com essa mescla de determinação, coragem e fragilidade da personagem. É impressionante como ela veste, literalmente, Eleanor. Não é sua primeira personagem de época, em Desejo e Reparação (2007) ela interpreta Briony Tallis na adolescência, mas aqui ela é uma mulher madura, extremamente sensível. Patrick Kenndey contribui com o seu Edward de personalidade instável, e transmite essa fragilidade.
Susanna Nicchiarelli - WikipediaEsta não é a primeira cinebiografia de Nicchiarelli, que nos brindou com outra obra sobre uma mulher marcante, Nico, 1998 (2017, 41a Mostra) que narra a história de uma das estrelas mais atormentadas da música pop no mundo, e que foi seu terceiro longa-metragem –  Cosmonauta (2009)  e La Scoperta Dell’Alba (2013) foram os primeiros filmes. Christa Päffgen ganhou o nome de Nico de Andy Wharol, por ser um anagrama da palavra ICON. Nico foi vocalista do Velvet Underground e teve uma vida marcada pela tragédia e pelas drogas.
Além da trilha punk que compõe o longa, esse é talvez o traço em comum entre as duas. Bonitas, inteligentes, e à frente do seu tempo, tiveram ao seu redor homens brilhantes e inteligentes, mas bastante autoritários, e tiveram de lidar com esses conflitos em meios que não eram adversos a essas mudanças. Nico, belissima, dizia que odiava sua beleza, e que preferia o seu rosto marcado pelas overdoses e pela vida. Eleanor, nossa Miss Marx, nos enternece com seu jeito adolescente e irresistível, porque se recusa a aceitar o papel de mero suporte para grandes homens, e de provedora, que a família tenta lhe imputar, para viver sua trajetória singular, com muita ternura. A narrativa começa em primeira pesssoa, com a personagem olhando para a câmera, e contando a sua história , mas rapidamente se libera desse ar falsamente testemunhal e deixa a trama fluir. Sempre com um pique muito pop. É  punk marxista, afnal a música de Miss Marx é da autoria da banda Downtown Boys que gravou Full Comunism.

 

 

 

 

 

 

 

O inferno das boas intenções: a punição como pedagogia

O teatro de marionetes é o recurso utilizado pelo documentário autobiográfico As Boas Intenções para nos relatar de forma lúdica um profundo trauma familiar ocorrido na infância da diretora e protagonista Beatrice Segolini.  O longa, codirigido com Maximilian Schlehuber, foi realizado para discutir a relação entre os irmãos, ela e a mãe, e as primeiras cenas acompanham sua visita à família com a equipe. A violência do patriarca da família criou profundas lacunas de relação entre os irmãos Michi, Stefi e Beatrice, perceptíveis nos primeiros diálogos e, sobretudo, nos silêncios. Os problemas giram sempre em torno do pai e de sua conduta, que a família não questiona, e que é defendido como sendo normal, o que faz do questionamento insistente de Bea  algo bastante inconveniente.

Outro dado importante que Beatrice vai revelar ao longo dos encontros é a extrema dificuldade do pai em lidar com a filha mulher, que pouco aparece nos videoteipes que ele fez sobre as crianças, como vamos descobrir ao longo do documentário. O excelente material de arquivo mostra cenas dos filhos quando eram bebês e os jogos em que o filho Michi, que é atleta profissional, participa. Os irmãos de Beatrice e sua rotina são o grande destaque das filmagens domésticas. A maior parte das locações se dá num apartamento de classe média, e aparentemente nada de incomum ocorre lá. Ao longo das refeições, entretanto, e na cozinha, surgem os diálogos mais tensos. A um dado momento, sua mãe retruca que ela não tem o direito de falar do pai sem que ele participe da conversa, que não é justo.

Assim, Bea, a diretora protagonista,  decide visitá-lo em seu habitat solitário no trailer de um haras. O ponto alto do filme é a conversa após tantos anos entre pai e filha. Só então percebemos de fato a ausência dele com relação ao processo de educação dos filhos e sua relação afetiva com a família e com o mundo. Ao isolar-se naquele pequeno universo bucólico, em companhia de um cachorro e um gato – os animais não têm nome -, o patriarca  pode exercer seu domínio, treinando e domando os cavalos, e o documentário cresce. Fica clara a dificuldade do pai de Beatrice em distinguir treinamento de educação, o que é habilmente demonstrado pelas cenas.  Animais são punidos fisicamente para serem adestrados.

Até a produção do documentário, os irmãos de Bea evitavam tocar no assunto abuso doméstico infantil. É como se fosse um tabu, e de fato ainda é. Em geral os jornais tratam da violência doméstica como se fosse um problema que ocorresse sempre na periferia por falta de educação, de dinheiro, e não uma regra, uma tradição cultural. Não faz tanto tempo assim que a palmatória foi abolida da sala de aula. Segundo dados da Unesco, 102 países proíbem o castigo corporal na escola. No Ocidente, as exceções são a França – e quem não se lembra de Os incompreendidos de Truffaut? -, alguns estados australianos – e 19 estados americanos, em que as crianças ainda apanham na escola. O direito de um pai ou mãe castigar fisicamente uma criança era considerado no Brasil, por exemplo, como salutar até 2014, quando finalmente foi aprovado um projeto de lei, que na prática, sabemos, não funciona. É comum ver mães e pais castigando seus pimpolhos publicamente.

É deste inferno que se alimenta As boas intenções. Todo o tempo a família de Bea, mãe, irmãos, defendem as atitudes grotescas e violentas do patriarca, calando-se diante de seus abusos. Eles assinalam sempre que ele fez o que fez por amor, que ele sofria com isso, que apenas queria educar. Esse talvez seja o maior limite deste documentário biográfico, que, ao final, acaba se traduzindo em uma briga entre pai e filha, que é suavizada pela teatro inicial de marionetes, em que os pais são representados como lagartos jurássicos. A verdade é que a maioria das famílias oculta esses acontecimentos, sem admitir problemas de abuso ou de violência. E quanto mais rica a família, mais impenetrável esse mundo de transgressão. Outro documentário da mostra que vai tratar de relação traumática entre pai e filha é Construindo Pontes, de Heloisa Passos, no qual ela resgata sua relação com o pai, um engenheiro que fez carreira durante a ditadura militar. No entanto, o filme de Beatrice, que não por acaso estudou Antropologia Visual, é singular por tratar do tema que a assombrou durante anos evitando a armadilha dos perfis biográficos, deixando que cenas e diálogos falem por si. O que está em pauta são as relações familiares dentro da família pequeno burguesa, e o conceito de educação como punição.

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