Quando decidiu converter o livro Um aprendizado ou o Livro dos Prazeres em filme, há quase 10 anos, a diretora Marcela Lordy se propôs a encarar um desafio e tanto. Não é fácil adaptar a enigmática Clarice Lispector para a tela grande. Suzana Amaral cometeu essa proeza e subverteu o texto da escritora que foi em vida chamada até mesmo de bruxa, e compareceu a um evento de feitiçaria na Colômbia munida de um texto em espanhol, o poético e onírico O Ovo e a Galinha – a maior celebração da vida – em A Hora da Estrela, transformando a singela Macabéa numa protagonista que nos arrasta num turbilhão de emoções e revolta, tendo ao seu lado a maravilhosa Marcélia Cartaxo.

Lordy, entretanto, foi além, e quis mergulhar de fato no universo da escritora, que era praticamente a protagonista de toda a sua literatura, e chamou para isso a atriz perfeita, Simone Spoladore, que pode encarnar a obsessão, a sensualidade e o fatalismo dessa mulher que fascinou o seu tempo, e nos deixou romances absurdamente angustiantes e originais.

O Livro dos Prazeres não é um filme sobre Clarice, mas a partir de Clarice. Para acompanhar a professora Lorelei, a Lori, temos a figura do filósofo e professor Ulisses, personagem do argentino Javier Drolas, do longa Medianeras (2011) que faz aqui seu segundo professor no Brasil  – o primeiro foi o professor assediado sexualmente por Bianca Comparato na excelente série A Menina sem Qualidades, na extinta MTV Brasil. A química entre os dois, Spoladore e Drolas, funciona bem, ele com seu ar cético e irreverente, fazendo o gênero sexualmente libertário, pansexual e de estudada indiferença, o que atrai imediatamente a Lori.


Por sua vez, ela entra em cena com seu ar sensual e perdido de musa existencialista,  que não consegue se entregar sexualmente e afetivamente a ninguém, por medo de se perder do seu verdadeiro eu, de se entregar a uma paixão que não consiga preenchê-la. Dilema típico de Lispector.


Para felicidade de quem assiste, essas questões não são nunca reduzidas ou estereotipadas em nenhum momento. O filme tem ainda excelentes coadjuvantes como a amiga taróloga interpretada por Vivida por Martha Nowill. O filme agrada tanto a quem espera um filme intimista que expõe de forma lírica e feminina a mulher e seus dilemas contemporâneos, coisa rara nos filmes brasileiros, quanto aos fãs de Clarice, que Lordy atualiza.

Os problemas de Lori com seu irmão Davi, interpretado por Felipe Rocha, e com o pai bolsonarista caem como uma luva no ambiente naquele apartamento de frente para o mar que ela não consegue decorar. O crochê que ela desfia como uma Penélope sem rumo e o vídeo que ela assiste do filme Terra em Transe, com Glauce Rocha recitando que gostaria de se casar, como qualquer outra mulher, tudo é parte do calvário que ela terá de trilhar para realizar seu desejo, o que ela mais teme.


Nessa mudança interminável, de casa e de vida, repleta de relações inconsequentes – amantes de ambos os sexos entram e saem do apartamento – Lori se apaixona por Ulisses, o que não acontece no livro. Assim, a personagem cumpre seu destino, saindo do casulo e batendo as asas de borboleta. A fotografia do filme, belíssima, não nos deixa margem para um cochilo, e nos mantém acesos diante dessa saga intimista e inquietante. Como Clarice. O roteiro é uma colaboração de Lordy com a argentina Josefina Trotta.