O longa português Mosquito não é a estreia de seu diretor João Nuno Pinto, nascido em Moçambique, de onde saiu para Lisboa com 5 anos. No entanto, essa coprodução Portugal, Brasil e França é considerada o primeiro grande filme de guerra português a tratar com densidade da participação do país na Primeira Guerra Mundial e a investigar de forma crítica a relação com as colônias africanas.

O personagem Zacarias foi baseado no avô de Pinto. Frágil, com apenas 17 anos, ele é enviado a combater pelo exército português em Moçambique, para defender a pátria de uma invasão alemã. Uma vez desembarcado, contrai malária e é deixado à própria sorte por sua companhia. Sozinho, desesperado, Zacarias se embrenha pela selva, a princípio com dois escravos, e termina só e febril, buscando voltar para os seus companheiros.


Sua jornada mata adentro é totalmente surreal, delirante, e mal se percebe o que é imaginação ou realidade. A ideia é essa, provocar, colocar Zacarias em conflito permanente com a sua presença de homem branco, colonizador, de encarar a desumanidade da guerra e a forma como seu país trata seus súditos, escravos. Na abertura do filme, uma voz grita que eles podem desembarcar se agarrando à carapinha dos negros que foram designados para sua recepção. Sempre amarrados, tratados como animais, os colonos negros desfilam pelo filme em andrajos humilhantes. Em seus delírios, Zacarias aos poucos vai se colocando no lugar deles. Afina, o que o diferencia daqueles homens e mulheres? Sua roupa de expedicionário se converte em trapos,  e ele é confundido com um andarilho.

Em uma das passagens do filme, a mais lisérgica, ele cai prisioneiro de uma tribo de mulheres africanas, e é colocado em regime de trabalho forçado, mas mais uma vez, o limiar entre realidade e imaginário é posto à prova. Na verdade, Zacarias está entregue a suas alucinações e a sua culpa.


A saga do personagem pelas terras moçambicanas tem o prenúncio de um rito iniciático, e traz um processo de auto-descoberta. Afinal, o que é que ele defende? Um povo brutal que mal se importa com a sua condição?

Os alemães surgem em cena personificados por um soldado tão vulnerável quanto ele, não há tropas. Zacarias aos poucos vai se modificando, se sentido mais identificado com os oprimidos do que com os opressores. Talvez seu maior inimigo esteja mesmo em solo pátrio, ali, entre os companheiros.

Quando ele acorda num hospital de campanha, ao final, e pergunta há quanto anos está ali, o médico responde três semanas. Sua incredulidade é a nossa, então foi tudo um delírio tropical? Pouco importa, Zacarias não é mais o mesmo, os minutos finais deixam isso claro. Agora, sim, ele tem um lugar no mundo.

O filme teve excelente repercussão em seu país, e abriu o Festival de Roterdã no ano passado. O ator João Nunes Monteiro é o protagonista absoluto do filme, tem atuação sensível e intensa, e sua angústia nos remete a outros personagens puros que são lançados em conflitos de extrema crueldade, como o jovem camponês Florya (Aleksei Kravchenko) em Vá e Veja (1985), obra-prima de Elen Klimov.

Aqui, a tragédia desse libelo contra a guerra, vem com acento lusitano e nos faz pensar, como brasileiros, para além das guerras, nas relações de poder de Portugal com suas colônias, e no desprezo pela África e seus habitantes, no racismo estrutural que se coloca de modo permanente, e que nós em alguma medida herdamos. João Nuno Pinto tem vivido entre Lisboa e São Paulo. Dirigiu os curtas Don’t Swim (2015) e Skype Me (2008). Seu primeiro longa-metragem, América (2010), foi exibido na 34ª Mostra. Mosquito é seu segundo longa, e ele vem afirmando em entrevistas que é  sua forma de se redimir do lado sombrio da colonização, e defender a sua origem moçambicana.