Revista O Grito!

Femme Fatale — Por Luiza Lusvarghi. Séries, Filmes, Produção Latino-Americana, Relações de Gênero

Categoria: Séries (Página 1 de 2)

Watchmen: a apoteose de Sister Night


Os super-heróis são de modo geral justiceiros. E portanto, alimentam o mito do bandido romântico, do Robin Hood, do marginal com causa. São também, historicamente, sempre homens brancos.  Esse é o imaginário fascinante e sedutor em torno do qual é construída a personagem Sister Night, a policial Angela Abar, interpretada por Regina King de forma magistral e densa em Watchmen (2019), a minissérie produzida pela HBO que venceu como melhor minissérie e que deu à sua atriz o prêmio Emmy deste ano na categoria melhor atriz de minissérie.

Ela é uma mulher negra em meio a personagens masculinos de HQ, e esse detalhe por si só já seria suficiente para ser um marco enquanto referência no universo do super-heróis. No entanto, os quadrinhos, e a minissérie ainda mais, vão agregar novos ingredientes a essa questão mais óbvia. Os Watchmen, criação genial de Alan Moore, representam uma espécie de subversão nas histórias de HQ, pois dão visibilidade a heróis que estão longe do padrão ético de um Batman ou Superman.

Totalmente amorais, David Veitz/Ozymandias (Jeremy Irons) e até mesmo o Jonathan Osterman, o Dr Manhattan (Yahya Abdul-Mateen, também vencedor na categoria coadjuvante), e sua representação humana Calvin “Cal” Jelani, não representam mais o que poderíamos classificar de mocinhos ou marginais românticos. Alheios à sua própria essência, eles seguem suas vidas como semideuses, que podem causar catástrofes em nome da moral e dos bons costumes, dos quais abdicaram.

Em 1985, ano em que se inicia a ação da minissérie, os justiceiros foram banidos, e não podem se apresentar publicamente. Por sua vez, a policial Angela, nascida em um Vietnã em que os Estados Unidos ganharam a guerra, casa-se com o investigador Calvin, a versão terrena do Dr Manhattan,  que abdica de sua imortalidade para estar ao lado da amada. Quando criança, em Saigon, Angela vê o cartaz do filme Sister Night, da onda blackexploitation (a grande onda do cinema independente negro e moderno  nos Estados Unidos), e a personagem a inspira. Angela se torna policial ainda em Saigon, e se casa com Calvin.


O casal vai morar em Tulsa, Oklahoma, na década de 1990, em um tempo em que os policiais devem andar disfarçados, para não serem identificados e mortos. O chefe de Angela, o policial Judd Crawford (Don Johnson), possui uma esposa e três filhos. Angela é a descendente direta de duas vítimas do massacre de Tulsa, conhecido ainda como Massacre da Black Wall Street, (conflito racial verídica e histórico,  ocorrido em 1921), e tem direito a uma indenização por parte do governo do presidente Robert Redford (sim, ele mesmo) como uma espécie de reparação. Seu avô, negro e homossexual, foi o primeiro justiceiro mascarado e se chamava Justiça Encapuzada Discriminado mesmo por seus companheiros, ele tem um caso com outro super-herói, o capitão Metrópoles.

A ação da série transcorre durante os eventos envolvendo as tensões raciais em Tulsa, Oklahoma, em 2019. Um grupo supremacista branco chamado Seventh Kavalry (Sétima Kavalaria), que lembra em demasia a Klu Klux Khan, pretende instaurar a sua Noite Branca, eliminando os negros.

Uma das sessões deliciosas de encontro do grupo é para assistir, com direito a pipocas, à sessão especial do filme Birth of a Nation (Nascimento de Uma Nação, 2015), de David Grifith, autêntico libelo racista em favor da um nacionalismo branco e considerado pelo próprio Alan Moore como o primeiro filme de super-herói da história estadunidense. Desta forma, a série narrando a trajetória de Abar e sua descoberta de que é descendente daquele que teria sido o primeiro justiceiro negro ganham ainda mais relevância.


Há outras personagens femininas de peso na minissérie, como Laurie Blake (nascida Juspeczyk), interpretada por Jean Smart, anteriormente Silk Spectre,  que se torna agente do FBI e membro da Força-tarefa Anti-Vigilante; ou ainda Hong Chau como Lady Trieu, a dona da Trieu Industries, uma corporação que comprou a Veidt Enterprises seguindo notícias de sua morte, e mais tarde revelada como a filha de Veidt por inseminação artificial.

Nenhuma delas tem o brilho e a unicidade de Abar. No processo de sua transformação em Sister Night, uma monja justiceira, ela se redescobre como mulher negra e se afirma como uma anti-heroína, em meio a uma luta de disputas raciais e de poder, em uma nação distópica que já foi considerada como a mais poderosa do planeta. Aqui, não há comunistas a serem combatidos, os demônios e os conflitos são todos domésticos.


A cena final, com Angela colocando o pé na piscina, rumo a um destino que poderia bem ser o de Jesus caminhando sobre as águas, é de arrepiar.

O projeto da minissérie é de Damon Lindelof, de Lost, mas os episódios foram dirigidos por Nicole Kassell, que fez o piloto e assina a produção executiva. Watchmen arrebatou os Emmys de melhor atriz e ator, que já citamos, além de melhor minissérie, mas também foi lembrado nas categorias técnicas de Melhor Fotografia em Minissérie ou Filme; Melhor Figurino de Série de Fantasia ou Sci-Fi; Melhor Mixagem de Som para uma Série ou filme Limitado; Melhor Edição de Imagem Com uma Única Câmera em Minissérie ou Filme Limitado. O autor de sua trilha é Trent Reznor do Five Inch Nails).

I May Destroy You: o mal estar da civilização


Parceria da BBC com a HBO, a minissérie I May Destroy You  – literalmente ‘eu posso te destruir’ – confirma a genialidade da atriz, roteirista e diretora negra Michaela Coel, britânica de ascendência ganesa. E também a importância do lugar de fala, termo tão em voga.

Na série, que estreou em junho, ela abandona o humor rasgado da sitcom Chewing Gum (2015) seu primeiro trabalho, baseado na sua peça teatral Chewing Gum Dreams, paródia com esquetes que giravam em torno de uma garota negra suburbana, filha de pastora, que tenta desesperadamente perder a virgindade. Coel segue trabalhando com a questão da sexualidade, mas lança um olhar mais aprofundando sobre o painel multiétnico em que se converteu o reinado de Elizabeth II nas últimas décadas, e seus protagonistas são claramente os afrodescendentes.

Desta vez, ela vai ainda mais fundo, abandonando o humor corrosivo para discutir com sensibilidade questões como estupro e violência sexual, e a ilusão do sucesso nas redes sociais.

Em I May Destroy You o tempero autobiográfico aparece na protagonista Arabella Essiedu (Coel), jovem pobre que se converte da noite para o dia em famosa escritora com um livro sobre a geração millennial, e se sente insegura com a continuidade da sua carreira. Bella resolve a maior parte dos seus problemas em intermináveis baladas regadas a drogas, sempre ao lado de seus amigos inseparáveis, Terry (Weruche Opia) e Kwame (Paapa Essiedu).


O tom adotado pela narrativa é mais sóbrio, o alivio cômico surge em alguns (poucos) momentos, e embora os conflitos em cena sejam sempre pesados, as performances chegam a resvalar para o poético, como na cena final do episódio 8, em que ela amanhece na praia de Ostia, na Itália, logo após ser repelida pelo seu amante italiano, o traficante Biaggio (Marouane Zotti) de forma grosseira.


As cenas do estupro que motivam a história são meros flashbacks na mente dividida de Arabella, que após ser vítima de um golpe ao estilo de “boa noite cinderela” passa por todos os estágios de descontrole emocional de uma pessoa que sofreu abuso sexual – do apagão da memória que ela confunde com ressaca no dia seguinte, passando pela negação do fato, ao sentimento de culpa.

A forma naturalista como Bella vivencia cada uma dessas etapas faz com que ela seja capaz de performar a dor e o constrangimento de toda e qualquer mulher que passou por situações semelhantes nesse mundo moderno e virtual.

A destruição do título se justifica nessa tomada de consciência que permite perceber que não podemos confundir a possibilidade de acesso ao consumo e a liberalização de costumes como a verdadeira emancipação da mulher e, em última análise, do direito à livre expressão sexual. Nós mulheres obtivemos diversas conquistas nos últimos 50 anos, mas a fragilidade destes avanços é assustadora. Ainda não há respaldo legal e nem condições de segurança efetiva.

E afinal, qual o limite entre abuso e estupro?  Tentar retirar a camisinha antes do sexo sem que o parceiro descubra, pode ser considerado violência? Nas relações homossexuais tampouco essas questões se resolvem, elas estão presentes o tempo todo, e é Kwame quem coloca essa perspectiva em cena. Afinal, se não há consentimento, não pode existir prazer.

Há pouco espaço para os personagens brancos nessa minissérie, protagonizada por um excelente elenco negro, mas mesmo assim vale a pena observar a atuação da personagem Theo (Harriet Webb), ex-colega de escola de Bella, que ressurge do passado para convidá-la a participar de um grupo de apoio de mulheres vítimas de abuso sexual.


Theo carrega um fardo pesado por relações familiares tóxicas tanto na maturidade quanto na adolescência, em que é brilhantemente interpretada pela jovem atriz Gaby French. O elenco adolescente da escola de ensino médio é extremamente talentoso e equilibrado, com as eternas amigas Bella e Terry vividas por Danielle Vitalis e Lauren-joy Williams.

Sexo, segundo Coel, mais do que magia e sedução, é respeito mútuo, compartilhar intimidade, sonhos e leituras, e, portanto, nada mais natural do que mesclar fantasias eróticas com OB, flores, hip hop italiano e pizza.

A minissérie foi baseada em uma experiência real da atriz, que neste trabalho abre mão de alguns  estereótipos que caracterizavam seu trabalho anterior, para entregar uma mulher que inicialmente se deslumbra com a possibilidade de sucesso nas redes sociais, e que aos poucos vai adquirindo uma visão mais realista sobre o mundo que nos cerca, seus valores e seu papel dentro dele.

Ao discutir sexualidade, violência e traumas a partir da visão de alguém que vem dos subúrbios, de outra etnia, a autora evidencia que algo não vai assim tão bem no austero e civilizado Reino Unido. A polícia metropolitana londrina, mesmo contando com uma dupla de mulheres especializadas em violência sexual, uma negra, a policial Funmi (Sarah Niles) e outra branca, a policial Beth (Mariah Gale), para legitimar o discurso antirracista e de isenção, nada pode fazer por ela. Mesmo sendo Bella cidadã britânica.

I May Destroy You está disponível no HBO GO.

 

Paris, a capital multicultural da música em The Eddy

Saudado como o novo projeto de Damien Chazelle, o diretor de La La land (2018), a minissérie The Eddy é mais do que um tributo a Paris e ao jazz – seu formato é uma hibridação de gêneros e de etnicidade pouco vista em obras audiovisuais. O cadinho cultural que ferve na capital francesa está posto, e cada cena imprime novas sonoridades e ambiência a essa realidade. A história de Elliot Udo (André Holland), um astro do jazz em crise, e sua relação com a filha Julie, a problemática e dilacerada adolescente interpretada por Amandla Steinberg, a Rue de Jogos Vorazes, vai se desenrolando ao som de melodias entaodas por músicos argelinos, croatas, cubanos, estadunidenses, afrodescendentes de diversas origens todos girando em torno da casa noturna The Eddy e de suas banda.  O endereço da clube é o 18º arrondissement, também conhecido como Montmartre, reduto boêmio da cidade freqüentado por Picasso, Dali, que abriga a Catedral de Sacre Coeur, e em sua parte baixa, o Moulin Rouge, em parte tranqüilo e sofisticado, e em parte, agitado, e caracterizado por profunda diversidade cultural.

O grupo da série é composto por atores e músicos de verdade, Maja, a polonesa que é vocalista da banda é Joanna Kulig, atriz mais conhecida por Guerra Fria (Cold War, 2018), e que faz ponta na séria Hanna (2019-2020) da Amazon. Jude é o cubano Damian Puerta Nava, renomado baixo acústico. A trilha da obra é de Randy Kerber, o pianista da banda, e de Glenn Ballard, mais conhecido por sua produção do histórico álbum Jagged Little Pill, de Alanis Morrisette. Embora o grupo tenha sido formado para compor a série, a trilha é interpretada por eles como banda, e está disponível no Spotfy.

Mas o que surpreende na minissérie não é exatamente essa heterogeneidade, embora para muita gente, certamente, esse fato constitua uma surpresa – poucos conhecem e usufruem dessa Paris que reúne hoje artistas com esse perfil, músicos de vanguarda.  Somos levados pela mão de Udo, o anfitrião, a nos envolver com os meandros do submundo parisiense em que o clube é mergulhado, a partir do envolvimento de seu sócio Farid, que acaba por envolver-se com gângsteres buscando uma saída econômica para a crise do local, ameaçado de fechar. A trama policial, no entanto, é mais um subterfúgio para narrar a história de cada um dos músicos e expor suas origens culturais. Como variações sobre o mesmo tema, recurso que é tão especifico do jazz, à guisa de improviso, a história flui sem preocupação nenhuma de fechar finais. A história do clube e sua banda são como um arco principal e estruturam a narrativa, em que os músicos são os protagonistas. Em Katerina, título do episódio 7, a baterista croata interpretada pela atriz, musicista e compositora Lada Obranova, da mesma nacionalidade, introduz de forma crua a questão da imigrante pobre que tem de cuidar do pai enfermo, e sonha com a fama. No episódio Jude, a ascendência afro do baixista e seu vício em heroína expõem outra face da mesma questão , a inserção na sociedade francesa e europeia desses novos imigrantes que a partir do final da década de 1960, foram alterando a imagem daquele país europeu para sempre. Os episódios foram dirigidos em conjunto por Chazelle, Alan Poul, e pelas diretoras Houda Benyamina, responsável pelos episódios Jude e Amira,  e Laïla Marrakchi, por Sim e Maja.

É visível a intimidade com a cultura muçulmana de ambas, mas também o seu cosmopolitismo e a facilidade de retratar as angústias de um estrangeiro em busca de nova identidade.   O ritual do enterro, a jam session promovida pelos músicos, e o reencontro inesperado de Maja com sua mãe opressiva que representa um passado do qual ela quer se libertar são exemplares nesse sentido.

A minissérie foi lançada como um drama musical, e esse dado é o que mais é polemizado pela critica. A banda ficcional passa a existir na realidade, mas foi formada em função do projeto, e embora a música ocupe função de destaque na trama, dando um ar documental aos registros de gravações e performances, é improvável que sobreviva à série.  Apesar de ter um contexto até mesmo policial, que funciona como um falso plot, seus episódios lembram obras como Short Cuts, fragmentadas. No streaming, isso desobriga a audiência de maratonar a série, que pode assistir a cada episódio de forma independente.

Ao final, prevalece a magia da Cidade Luz. Udo e sua filha não são os primeiros estadunidenses a experenciar Paris como uma imersão na criatividade artística e musical, e uma redescoberta de suas subjetividades amorosas e vínculos familiares, mas certamente não há muitos personagens negros no cinema e nas séries que explorem essas características.

Imagens: Lou Fauloun/Netflix.

La Casa de Papel 4: e começa o matriarcado!

Estocolmo, Nairóbi, Liscoa e Tóquio em clima de sororidade.

La Casa de Papel, a série espanhola mais famosa do mundo, e o produto de  ficção de língua não-anglófona mais bem-sucedido da Netflix,  estreou sua quarta temporada neste último dia 3 de abril. Muito mais tensa do que a anterior, com mortes e reviravoltas, algumas previsíveis, outras nem tanto, a série volta a mostrar sua eficiência como thriller de ação e drama, deixando as cenas românticas em segundo plano. A ascensão das mulheres na trama, com Tóquio à frente é um traço que lembra a famosa frase de Nairóbi na terceira temporada: começa o matriarcado. A julgar pela última cena, contudo, com a inspetora Alicia Sierra (Najwa Nimri) descobrindo o esconderijo do Professor (Alvaro Morte), não vai terminar por aqui.

O Professor e seus novos alunos, os mineiros asturianos.

O bando de nove ladrões liderados pelo nerd Professor (Alvaro Morte), que sabemos agora chamar-se Sergio, alçou a fama não somente por conta do esmero de seu roteirista e criador, Alex Pina, e de diretores e produtores, mas por aquela máxima que Eric Hobsbawm observava em seu clássico ensaio Bandidos – os ladrões mais populares do mundo são quase sempre os assaltantes de bancos. Basta lembrar-se de Dillinger.

Para completar tudo isso temos a irresistível trilha sonora puxada por “Bella Ciao”, considerada hino partigiano da Segunda Guerra, música contagiante que regravada pela dupla formada pelo Professor e seu irmão Berlim numa das cenas mais antológicas da série, se tornou um sucesso e teve diversas regravações até com versão de música eletrônica.

A máscara de Dalí, símbolo do surrealismo, usada pelo bando, chegou a ser alvo de disputas por parte da Fundação Dali, pois se tornaram corriqueiras em Halloween, Carnaval, partidas de futebol. E pior, ladrões de verdade se esconderam atrás dessas máscaras para realizar assaltos na Argentina, Chile e Brasil. A máscara lembra Salvador Dalí, mas não é uma reprodução fiel, diz a produção. Muita gente que usa a máscara, que se converteu, assim como “Bella Ciao”, num símbolo de reivindicações sociais em diferentes países do mundo, provavelmente não a associa ao artista catalão. Os próprios assaltantes, como mostra a série, não sabem quem foi Dalí, esse “jeca do bigode?” na visão de um deles.

Juntamente com a nova temporada chega o documentário La Casa de Papel, o Fenômeno, revelando os bastidores das gravações e entrevistando equipe, roteiristas, atores. A série produzida pela Atresmedia em parceria com Vancouver, estreou no canal Antena 3, de Espanha, e como revelam as entrevistas, teve êxito moderado em seu país de origem. Acabou entrando para o catálogo da Netflix sem grandes pretensões. Os números dispararam em todo o mundo, e a Netflix entrou no projeto. Hoje, seus atores são tão famosos que mal podem sair às ruas.

A partir da entrada da Netflix, surgiu um novo plano de assalto, desta vez ao Banco da Espanha. O documentário nos deixa entrever conflitos e angústias de seus criadores, dos atores e atrizes, que centram a fala no antes e depois que a série estourou, e mostra ainda como foram filmadas as famosas cenas aquáticas do cofre, e até mesmo detalhes sobre os lingotes de ouro. Mas não vai fundo na questão que não quer calar. Os ladrões de Casa de Papel são a versão mais contemporânea do que Hobsbwam chamava de “bandidos sociais”, panteão ocupado por gente de todos os rincões do planeta, de Robin Hood ao bandido Giuliano, passando pelo nosso Lampião.

Rio, traumatizado pela tortura, vai se tornar ícone de campanha de Direitos Humanos.Foto: Divulgação/Netflix.

O bando liderado pelo enigmático Professor só rouba os poderosos, é contra a tortura – fazem campanha na última temporada contra a prisão injusta de Rio-Anibal Cortés (Miguel Herran), e saem às ruas, apoiados por populares e cidadãos que passam a usar a máscara. Os populares fazem plantão em frente ao banco para apoiar os assaltantes, agora milionários, em seu articulado discurso antissistema e anticapitalista. Além disso, fazem chover notas de euros em plena Madri, jogadas de um zeppelin. E existe algum tipo de instituição mais odiada do que os bancos?

Sim, na verdade sim. As democracias estão ruindo, desmoronando, solapadas por denuncias de corrupção. A hipocrisia dos discursos de direitos humanos, os estados policiais que governam para a elite, são questões que afligem não somente a Espanha, mas o mundo inteiro. Os personagens são sempre conscientes da sua função dentro desse jogo.

“Muito cuidado”, diz o Professor logo na primeira temporada, “porque se houver uma só gota de sangue vamos nos transformar de Robin Hoods em filhos da puta”. Gênio do crime, ele arrebata o coração de Lisboa-Raquel Murillo, e é um modelo de comportamento ético, em contraponto a seu antagonista no amor, o investigador forense Alberto Vicuña (Miguel Garcia Borda), abusivo e machista.

Na verdade, eles se parecem não com audaciosos ladrões, mas sim com qualquer cidadão comum, que não encontra mais perspectiva de participação naquele mundo de benefícios que ele vê na televisão, nos realities, nas novelas, nas revistas de fofocas, e decide dar um basta. Todos sonham em viver bem com a família em algum lugar, encontrar o verdadeiro amor, casar-se, ter filhos, após dar o grande golpe. Não são profissionais do crime, são aventureiros.Tão  românticos que acabam seduzindo reféns, como se vê pelo caso do amor entre Denver (Jaime Lorente)  e Estocolmo (Esther Acebo).

Toda a ambiguidade da relação entre Berlim e Palermo vêm à tona.

Até mesmo os sádicos e doentios como Berlim (Pedro Alonso) – aliás,  um dos mais populares personagens da série -, ou o medíocre Arturito (Enrique Arce), em algum momento, são humanizados. A função de Berlim, que agora só vive em flashback, dentro do grupo é de certa forma substituída pelo seu parceiro sudaca Palermo (Leopoldo de la Sierra). Homossexual assumido e misógino, ele mostra o lado ambíguo dessa idealização, e não teme arruinar todo o plano por pura vaidade e, certamente, porque afinal é um bandido.

A série é narrada por uma mulher, assaltante, delinquente, a impulsiva Tóquio (Ursula Corberó), que finalmente deixa de representar apenas uma jovem rebelde para assumir papel de comando. E embora o cérebro do assalto seja o Professor, esta quarta temporada assinala a ascensão ao matriarcado que era profetizada por Nairobi (Alba Flores), na terceira temporada, e que também se tornou meme,  mas que infelizmente deixa a série. Sua morte é um dos pontos altos da trama.

 Tóquio assume papel protagônico, deixando a atuação masculina em segundo plano.

Tóquio arrebata a liderança deixada a cargo de Palermo, e não hesita em tomar atitudes. Estocolmo, a Monica Gastambides, evolui de mocinha apaixonada que se une ao grupo por amor, e faz jus a sua participação no grupo.  Lisboa, a ex-inspetora Raquel Murillo, interpretada pela atriz basca Itiziar Ituño, reafirma seu papel de mulher forte, mas não é mais a única mulher na polícia, onde agora a inspetora Alicia Sierra ocupa o papel de vilã, uma máscara de frieza e perversidade personificada por uma mulher grávida com franjinha e falso ar de adolescente.

Com ares de vilã, a inspetora Alícia Sierra interroga a ex-comissária Raquel Murillo

Sem falar na personagem transexual Julia, que se converte em Manila, interpretada pela atriz Belen Cuesta. Após a atuação traíra e misógina de Palermo, que solta o vilão Gandia (José Manuel Poga), o chefe de segurança do Banco de Espanha, responsável pelos momentos mais densos e trágicos desta temporada, por não suportar a ideia de perder a liderança para Tóquio, tudo indica que as mulheres vão crescer ainda mais. A série reafirma seu fascínio em tempos de pandemia, de recessão absoluta, de caos, porque justamente representa a falência de um projeto neoliberal.

A Casa de Papel está disponível no Netflix.

Bandidas por acaso: Irmandade expõe protagonismo feminino no crime

Imagens de Aline Arruda

A nova série brasileira da Netflix, Irmandade, dirigida por Pedro Morelli, poderia ser apenas mais uma série sobre o desenvolvimento de uma facção criminosa dentro de uma penitenciária no Brasil, tema muito atual e com recentes episódios de violência. A trama se passa na década de 1990, o contexto de surgimento do PCC (Primeiro Comando da Capital) em São Paulo, fevereiro de 1994. No entanto, a obra se destaca justamente por não se preocupar em apresentar um histórico preciso do surgimento dessas organizações, tema que ainda deve merecer algo à altura, mas por destacar o papel das mulheres dentro desses episódios e sua participação no crime. O acento carioquíssimo de Seu Jorge quase atrapalha, mas a atriz Naruna Costa, a Cristina, de Taboão da Serra, São Paulo, e o goiano Lee Taylor, o Ivan, não deixam esse aspecto predominar. Essa é uma história que não se passa numa favela carioca.

A sinopse menciona Cristina (Naruna Costa), uma advogada honesta, que enfrenta um dilema moral ao descobrir que seu irmão, Edson (Seu Jorge) é o líder de uma facção criminosa em ascensão. O resumo é sincero, mas Cristina não se resume exatamente a um modelo inatingível de bom comportamento, e seu conflito é real e compreensível. Ela aspira uma posição melhor no mundo real, dentro do sistema, fora do crime, e aí surge naturalmente o maior problema. Ela nasceu pobre, na periferia, é negra, e tem de cuidar da família, como muitas outras mulheres na sua condição. Em uma sociedade tão corrompida, em que a polícia serve de suporte para a corrupção e todo tipo de politicagem, talvez não seja possível que ela realize seus sonhos.

O maior trunfo da série é a composição desta personagem, na verdade a protagonista, tarefa que a atriz cumpre com talento. Os teasers e a publicidade da série acabam por disseminar a ideia de que Seu Jorge, o Edson, é quem domina a cena. Não é bem assim, e quem brilha encadeando a narrativa é ela. Cristina está longe do estereótipo de mulher negra e favelada que vigora na maioria das produções de gênero. É atuante, ousada, e quer conquistar um lugar ao sol e seu quinhão de felicidade.

Na tentativa de escapar ao estigma de discriminação racial, de gênero e social, Cristina acaba se envolvendo com um dos parceiros de crime de seu irmão, Lee Taylor, o Ivan, sempre uma presença forte e densa em sua atuação, que compartilha os sentimentos de Cristina, mas não consegue escapar da inevitabilidade de seu destino. Cristina vive em estado de tensão permanente para dar conta desse conflito eterno entre a lei e a ordem em um país assolado por desigualdades sociais e um sistema legal corrupto. E seu envolvimento com o irmão dificulta a ela a tomada de decisão.

Ela não está sozinha nessa composição elaborada, e tem como coadjuvante nada mais nada menos do que Hermila Guedes, que interpreta a mulher de Edson, Darlene, e chefona do tráfico. Essa função é exercida sem que ela perca, em nenhum momento, a sua característica de mãe e dona de casa, uma dupla jornada bastante peculiar. Esse detalhe, que pode ter desagradado à audiência que preferiria um thriller de ação mais focado em cenas de embate entre Edson e o sistema penitenciário e a corporação policial, é um diferencial que deveria ser melhor explorado, mas que está colocado de forma bastante satisfatória.

Hobsbawn, em seu ensaio emblemático sobre o banditismo, Bandidos (2015), incluiu um capítulo sobre as mulheres. Ele mencionava sempre o fato de que o Brasil foi um dos poucos  países no mundo em que as mulheres assumiam um papel dentro dos bandos, e citava Maria Bonita. Havia indícios da presença de mulheres nas organizações criminais em outros lugares da América Latina, como, por exemplo, Peru e Argentina, mas de fato, não é traço comum. Hobsbawn, contudo, não foi muito  além de nomear as exceções, e conclui dizendo que provavelmente um estudo mais aprofundado deveria investigar as relações ao redor da constituição das organizações criminais, pois em geral as mulheres não integravam o bando de forma direta, mas exerciam funções de coadjuvante em outras esferas.

O elenco principal tem origens diversas. Mas artistas locais, como os rappers curitibanos Hauly, Menthor, Betinho Celanex e Mano Cappu fazem parte da série Irmandade, que estreou no dia 25 de outubro, na Netflix. As cenas de presídio da série de oito episódios foram rodadas na Penitenciária Central do Estado (PCE), em Piraquara (região metropolitana), para onde o elenco todo se deslocou por meses, para dar mais autenticidade ao relato. Um dos diretores é Aly Muritiba, baiano radicado no Paraná que tem os presídios como locação frequente, certamente por ter trabalhado como agente penitenciário antes de fazer cinema.

A série já possui uma segunda temporada anunciada, mas vale a pena sobretudo por arriscar-se a abordar um tema tão presente na cinematografia brasileira de todos os tempos, desde o advento do cinema mudo, mas com um enfoque diferenciado que corre o risco de desagradar a amantes do gênero criminal. Ao introduzir a presença feminina na narrativa, o ponto de vista passa a ser o da família, e o lugar de fala é da mulher, que na verdade é quem ocupa o espaço do patriarca nas decisões cotidianas. O desafio da segunda temporada é encontrar um desfecho que não reproduza todos os clichês conhecidos sobre essa temática.

 

Sabrina, a jovem bruxa má: dos cartoons para as telas da Netflix

A série O Mundo Sombrio de Sabrina (Chilling Adventures of Sabrina, 2017-2019), baseada na HQ homônima, é produção original da Netflix voltada para o público adolescente. Sua protagonista é Sabrina Spellman (Kiernan Shipka), prestes a completar 16 anos, data fatal, pois sua família, vinculada à Igreja da Noite,  possui uma tradição segundo a qual, em seu aniversário, ela teria de optar por um pacto com Satã, tornando-se feiticeira. Orfã criada por duas tias, Zelda (Miranda Oto) e Hilda (Lucy Davis), ela vive ainda com o primo Ambrose (Chance Perdomo), bruxo pansexual, segregado por ter tentado explodir o Vaticano.

Sabrina hesita entre a vida normal de adolescente, ao lado do namorado Harvey Kinkle (Ross Linch) e a vida de bruxa, imposta pela tradição familiar, e seu convívio com os amigos mortais. A personagem Sabrina, criada originalmente em 1962 pela dupla George Gladir e Dan DeCarlo, não era protagonista, e sua aparência era a de uma pin up do período, totalmente rock and roll e curvilínea. A história já teve outra versão televisiva , que se intitulava  Sabrina, a Aprendiz de Feiticeira (1996-2003), e narrava o descobrimento das habilidades mágicas da protagonista com seu amadurecimento, mas sempre em tom debochado por conta dos comentários irreverentes do gato Salem (Nick Bakay), seu familiar, presente na atual versão mas sem direito a falas.Sabrina também  já foi personagem da série A turma de Archie,  como a bruxa de Greendale,  pois a cidade é vizinha à Riverdale, título de outra série dos mesmos criadores. O tom ingênuo dos quadrinhos de estreia ganhou tons de noir na adaptação seriada, dirigida pelo seu autor, Roberto Aguirre-Sacasa, com arte de Robert Hack, e inspirada nas aparições de Sabrina na série da dupla, bem mais violenta do que a original, em que a personagem surge ora como uma garota possuída pelo demônio, ora como o próprio Anticristo.

A série foi totalmente produzida em Vancouver, Canadá, considerada a Hollywood North, com as duas temporadas produzidas em paralelo. Todas as características do imaginário anglo que compõem as fantasias sobre as bruxas, de influência europeia estão presentes – gatos pretos, o sacrifício de animais, o bode, identificado com o diabo, o canibalismo. Os chifres, os pés de bode e o rabo, são características do deus Pã e costumam personificar a figura do Diabo sob o cristianismo, simbolizando a cultura pagã. Outras referências ao culto estão presentes no trio das Irmãs Estranhas, liderado por Prudence (Tati Gabriele).

A história mescla elementos que são encontrados em outras séries e filmes que abordam o sobrenatural e o fantástico, mas tem o foco centrado nos valores cristãos, no diferencial representado pela cidadezinha do interior dos Estados Unidos. Dentro da trama, a Igreja da Noite simboliza claramente uma ordem mais antiga, antiquada, reacionária. Sabrina representa o garota estadunidense típica da década de 1960, em que se passa a série, afirmando as diferenças entre o Novo Mundo e a sede da Colônia, a velha Inglaterra, de onde vem a tradição de sua casa, mas vivendo dentro do contexto de reivindicações dos direitos civis que marcou a década de 1960 no país, assombrado ainda pelo movimento hippie e pela Guerra do Vietnã. No entanto, é visível a bricolagem entre os tempos da brilhantina e a  vida contemporânea, sobretudo na abordagem das relações de gênero e de orientação sexual, extremamente mais discretas naquele período como se pode conferir pelo documentário  She´s Beautiful when she´s angry (Ela fica bonita quando está brava, 2014), sobre o surgimento do movimento feminista nos Estados Unidos. A transição de Susie Putnam (Lachlan Watson) para Theo, seria impensável naquele momento, em que um dos grupos mais atuantes se chamava exatamente Witch (Women´s Feminist International Conspiracy from Hell). A associação entre feminismo e bruxaria é, portanto, antiga.

 

Esse caráter atemporal da temática e o sotaque mais anglo-saxônico dos personagens mais  velhos e pertencentes ao culto da Igreja da Noite, liderado pelo Padre Blackwood, é acentuado pela seleção do elenco, caso da atriz australiana Miranda Oto, interpretando a tia Zelda, que não consegue romper com os ritos da Igreja Satânica, ou a escocesa Michelle Gomez, a Madame Satã. A outra tia, Hilda, sempre rebelde, porém incapaz de romper com o culto, é a atriz britânica Lucy Claire Davis, mais conhecida como a Etta Candy de Mulher Maravilha, e considerada inconsequente pela comunidade de feiticeiros. Na dublagem, essa questão do acento se perde.

Uma das personagens mais interessantes é, sem dúvida, a Madame Satã, interpretada pela escocesa Michelle Gomez, responsável por algum dos momentos mais fortes em cena, como antagonista de Sabrina. É a partir dela que as situações vão se desenvolvendo. Ela se apodera do corpo e da voz da professora favorita de Sabrina, Mary Wardwell. É também uma das personagens que crescem na trama, pois ao longo da narrativa nos damos conta de que mais do que uma vilã clássica, ela também é uma mulher que foi seduzida por Lúcifer, e aprisionada a um pacto que não admite mais, mas não consegue se libertar, e acaba por se identificar com Sabrina. Sua inserção na série também é interessante, uma vez que ela é originária de outra série de quadrinhos , pertence a outra estirpe de mulheres, e é um personagem antigo da Archie, que foi atualizada pelos atuais criadores, como descendente do mito Lilith. Gomez, no entanto, acrescenta uma complexidade a ela que rompe completamente com a estereotipia da HQ, inclusive na versão atual, em que a professora é uma mulher jovem e bombada.

Para Sabrina, é perfeitamente possível conciliar a existência de Deus e a vocação de feiticeira, sem assinar pacto com o demônio, e ser uma espécie de heroína romântica. Apesar desse traço conciliador, a série é bastante ousada, e não faz concessões a outras séries teen do gênero, que acabam resvalando para a sitcom ou drama romântico.  Sob essa perspectiva conservadora, o romance de Sabrina com Harvey está, naturalmente, fadado ao fracasso.

 

Na atualidade a questão da caça às bruxas é discutida como feminicídio, pois a maioria das vítimas eram mulheres, que por algum motivo destoavam de seu tempo. Embora Sabrina seja uma produção ancorada nos cânones do gênero horror fantástico,  e de época, ela abre espaço para todas essas questões por meio de seus personagens, e até mesmo para se pensar no conceito de ecofeminismo. Os feitiços são o instrumento perfeito para viajar no tempo sem compromissos com o realismo histórico e propor reflexões que vão além desse momento. Certamente impactada por essas questões, e pressionada pelos leitores mais conservadores, a Archie acabou lançando em paralelo uma versão mais amenizada em cartoons da adolescente Sabrina, roteirizada pela autora da Capitã Marvel, Kelly Thompson. Não se sabe se eles possuem planos de levar a garota para as telas. Mas a terceira e quarta temporadas da sombria Sabrina estão a caminho. 

 

Clichês, distopia e horror na fábula neogótica de Sion Sono

Mix de série de horror com narrativa distópica, a série Tokyo Vampire Hotel, assinada pelo polêmico poeta e diretor japonês Sion Sono, configura-se como uma das mais importantes obras produzidas para streaming dentro do que se convencionou nomear como a Era de Ouro das séries, sendo a contrapartida perfeita para obras de referência da indústria do entretenimento como Game of Thrones. A despeito das inúmeras diferenças estilísticas, Sono segue uma seara aberta por outros realizadores importantes do cinema europeu como Rainer Werner Fassbinder, Kristopher Kieslowski e Peter Grenaway que utilizaram formatos tradicionalmente televisivos para construir obras críticas e autorais. Sono criou sua minissérie da ficção seriada para criticar de forma dura e indigesta o Japan Way of Life que caracterizou o Pós-Guerra, e seu deslumbramento com a sociedade estadunidense de consumo, e  ironicamente usou como instrumento o grupo global Amazon.

A sinopse nos remete a um clichê das histórias de vampiros: a luta entre descendentes do Conde Drácula, conhecido como Vlad, o empalador, e do oponente de seu pai, o príncipe húngaro Matei Corvin (1458-1490), pelo poder sobre a vida humana no planeta. O castelo de Corvin, na Romênia, é totalmente cercado por tuneis misteriosos, e é um dos mais antigos da Europa. Vlad teria sido feito prisioneiro no castelo de Corvin, também conhecido como Casteli de Hunyadi, como parte de um  acordo feito com seu pai, Vlad II – ao menos é o que consta da “história oficial” – para conseguir o apoio de Corvin na luta contra o império Otomano. Foi em uma masmorra no castelo de Tokat, localizado na região centro-norte da Turquia, que o jovem Drácula ficou encarcerado por cinco anos, até 1447. Os cenários suntuosos da România incluem o Castelo de Drácula, the Bran Castle, as minas de sal Salina Turda, além dos estúdios Nikkatsu no Japão. Os atores romanianos, creditados apenas em japonês, são do Teatro Nacional daquele país, e a obra usou parcialmente investimento público.

Para Sono, essas nuances históricas entre Dracula e Corvin  são exploradas apenas superficialmente. Somos confrontados com um Drácula que sonha vingar-se de Corvin, na verdade outro vampiro. A história se passa entre a România, lar de Drácula, e o Japão, para onde teriam migrado os integrantes do clã Corvin, os neovampiros. A mocinha da história é Manami, um dos três bebês que teriam nascido numa data especial, e que foram alimentadas com sangue de Drácula por seus seguidores, e mantidas em lares especialmente organizados para acolhê-las. É divertida essa encenação da família perfeita para as jovens vampiras predestinadas a vingarem seu mentor, do qual não possuem a menor recordação. As jovens sentem-se acolhidas em suas famílias artificiais e é de um humor negro os episódios em que se ferem ou têm algum problema em sua trajetória humana, com todos os demais personagens que compõem o ambiente “natural”, todos integrantes do clã, movimentando-se de maneira robótica, em seus esforços para proteger as jovens cobaias de Drácula dos azares de uma vida normal. As cenas evidenciam o caráter ambíguo da sociedade contemporânea japonesa, colocando suas personagens em display como peças de um jogo virtual.

As famílias são incrivelmente ocidentalizadas, dos trajes a forma como se comportam, e as principais datas de comemoração do mundo bíblico cristão propagado pelos EUA estão lá – o Natal, cujo cumprimento é Merry Christmas, com todos os pratos natalinos convencionais, e o aniversário, que no Japão é efetivamente comemorado com o Happy Birthday cantado em inglês. Sono dá uma visibilidade muito grande a essas datas comemorativas, e é interessante como elas contribuem para compor o clima de ilusão e armadilha, que preparam a audiência para o choque da descoberta da verdadeira natureza das meninas.

Manami vai ser a única sobrevivente das três, e será enviada para confrontar o clã Corvin no período que antecede a comemoração dos seus 22 anos, marco de sua transformação. Em busca dela está a agente vampiro K, a serviço do Drácula, à qual somos introduzidos de forma sombria no primeiro episódio, uma visão perversa da primeira cena de Pulp Fiction, que se passa num pub em um assalto que se transforma num banho de sangue. Essa visão do sangue jorrando é uma constante ao longo da série, e a esse jorro o diretor dedica cenas inteiras, a um ponto em que perde totalmente o significado, confundindo-se com o jorro da vida, e com o próprio fluxo menstrual feminino. Afinal, o hotel em que se passa a outra metade da série é estruturado a partir da vagina de uma mulher, uma vampira ancestral. A um determinado momento, as performances banhadas de sangue convertem-se em algo tão banal, que não é mais possível sentir nada.

As mulheres possuem um papel fundamental nessa alegoria de horror composta por Sono. O mito da vagina dentada perde espaço para o da vagina pulsante, como um coração, em que as mulheres pontuam a narrativa o tempo todo, sedentas de vingança e de reconhecimento. São poderosas, e seus machos vão sendo decapitados como os parceiros da viúva negra, a aranha que destrói o amante após a cópula. Aquelas que desconhecem seu verdadeiro papel, como Manami ou K, perdem rapidamente o posto para as predadoras. A morte da mãe e de sua representação como mantenedora da ordem familiar, o alvo principal do autor aqui, é imprescindível para cumprir todas as profecias. As mães são o sustentáculo desse mundo em desalinho que requer uma nova ordem, e que para isso, precisa ser destruído. As festas de copulação promovidas pelos neovampiros para fornecer alimento saudável para o novo mundo mostram a que vieram antes que a última tomada encerre esse pesadelo kitsch.

A produção foi lançada em 2017 em diversos festivais de cinema mundiais, a partir de um promo condensado em formato de filme de 2 horas e 22 minutos. Foi a primeira produção original japonesas da Amazon Prime, que diferentemente da Netflix, não vem apostando suas fichas principais numa estratégia de criação de um circuito transnacional e intercultural de exibição e produção. Na ocasião que antecedeu a sua produção e lançamento, foam anunciadas a produção de outras séries japonesas como  Kamen Rider AmazonsHapimari (Happy Marriage), Businessmen vs AliensFukuyado Honpo (Kyoto Love Story), Harumi’s KitchenHitoshi Matsumoto Presents Documental series, Ultraman Orb The Origin Saga, Hidehiko Ishizuka’s Sake Tour e do reality The Bachelor Japan. Sua abertura é composta pelo trio indie japonês tricot, formado pelas três guitarristas Ikumi Nakajima (Ikkyu), Motoko Kida (Motifour) e Hiromi Sagane (Hirohiro), originárias de Kyoto, com batidas que celebram o pós-punk mesclado a sons eletrônicos num ritmo classificado como math rock (ou rock matemático), vanguardista e experimental ao extremo, totalmente apropriado ao estilo Sion Sono.

Carmen, das chamas da Inquisição para a Cartagena moderna

A maioria das bruxas retratadas nas séries e filmes que mencionam a feitiçaria reproduz o imaginário celta, ou anglo. Outro é o contexto histórico e cultural da personagem Carmen Eguiluz (Angely Gaviria) de Siempre Bruja (Always Witch, 2019), produção original da Netflix, série colombiana que explora a tradição de feitiçaria na América Latina, e se passa em Cartagena, cidade que foi o grande centro da inquisição espanhola, em 1646. A série é voltada para a audiência adolescente, e além de Carmen envolve um grupo de jovens colegas de escola vivendo as agruras da passagem para a vida adulta, com todas as incertezas e indefinições características desse momento.

Carmen é uma jovem bruxa, que vive no século XVII, que se enamora de Cristobal de Aranoa (Lenard Vanderaa), o filho de seus senhores. Sua mãe, Isabel de Aranoa (Cristina Warner), entra em desespero, e denuncia Carmen para os inquisidores espanhóis, e ela é assim condenada à fogueira. Mas seu destino trágico acaba sendo modificado por conta de um bruxo condenado à morte, Aldemar (Luiz Fernando Hoyos) que necessita dela para recuperar sua liberdade e eliminar um oponente, o jovem bruxo maligno Lucien. Em troca dessa missão, Aldemar lhe promete a possibilidade de ter de volta o seu grande amor e a envia para a Cartagena moderna. A série é baseada no best seller “Yo, Bruja” (Eu, Bruxa), de Isidora Chacón, criada por Ana Maria Parra, produzida por Juliana Barrera Pérez e a direção geral é de Liliana Bocanegra, que traz no currículo diversas produções audiovisuais, a maioria seriadas, com protagonistas femininas fortes.

No lado de baixo do Equador, os demônios e bruxas acabavam sendo sempre encarnados pelos escravos, notadamente as mulheres, pois eram objeto de atração sexual para seus senhores e alvo da ira de suas senhoras. Esse é um dos motivos pelos quais  a questão da caça às bruxas na Idade Média, na Europa e nas colônias,  é discutida como feminicídio, pois a maioria das vítimas eram mulheres. Embora a maioria dos curandeiros fossem homens, a figura da mulher como parteira, como vidente, reforça o seu papel de feiticeira, que disputa o poder da cura.Erotismo e feitiçaria erótica, contudo, sempre foram associados, e essa tradição vem da Europa. Promiscuidade sexual e bruxaria era o tipo de associação comum, e essa relação é anterior às colônias, mas encontra terreno fértil na América colonizada. Carmen, em sua nova vida, vai se interessar fortemente pelas aulas de biologia, ministradas pelo professor Estebán (Sebastian Eslava), e vai poder aprimorar seus conhecimentos sobre plantas medicinais, pois é um traço cultural que está presente desde sempre em sua formação.

O primeiro amigo que ela vai conhecer é Jhony Ki (Dylan Fuentes), jovem nerd com habilidades de hacker, responsável por introduzir Carmen a esse mundo moderno. Afetuosa, sociável, ela logo conquista um grupo de amigos na escola, Alicia (Sofia Bernal Araujo), Daniel (Dubán Andrés Prado), Leon (Carlos Quintero) e Mayte (Valeria Henríquez),  que vão proporcionar a ela uma experiência totalmente inovadora para uma garota que emerge dos tempos coloniais, a de ter um grupo de colegas de sua idade, viver sua adolescência.

A série Siempre Bruja se alimenta desse caldo cultural. Inserida na Cartagena moderna, Carmen perde bastante de seus poderes mágicos ao adentrar a civilização contemporânea, em meio a smartphones e novas tecnologias, aplicativos de namoro. Como conciliar esses universos aparentemente tão distintos? A questão da bruxaria e dos feitiços não remete necessariamente ao demonismo nem à possessão dentro da cultura latino-americana, ou ainda afro-caribenha. Ainda mais na Cartagena atual, que convive com serial killers como o “Assassino do Fogo”, cuja identidade vai ser revelada ao final, e contribui para atualizar o discurso machista e patriarcal que também ronda o universo da feitiçaria. O assassino executa suas vítimas em um ritual equivalente à fogueira moderna, vitimando as mulheres que não consegue subjugar.

É fato que a série se perde ao contextualizar sem grande aprofundamento essas questões mais complexas. Para uma audiência local e regional, com estruturas sociais caracterizadas por forte sincretismo religioso, toda essa discussão aparenta ser mais simples e justificável à luz da cultura, então nos resta o aspecto sentimental e afetivo. Não há luta contra o demônio no mundo latino, em que até pentecostais arriscam um descarrego, mas o discurso feminista está presente em Carmen, que não se conforma mais com a sua posição social numa sociedade colonial, e nem mesmo com a sua condição de escrava. Ela é negra, e sente orgulho de suas raízes. E não quer resolver sua vida com um casamento, embora preze o amor romântico, como nos deixa mais claro o final.

A série, entretanto, faz concessões à moral e aos bons costumes, e transforma um personagem assumidamente gay em hetero, em nome do amor verdadeiro, por exemplo, esse regenerador dos maus hábitos que ao final acabam sempre em casamento, mesmo que a cerimônia não seja exatamente cristã. O tema seria até interessante se não estivesse tão deslocado na trama. Há também a exploração de clichês de filmes de terror, como a cena do tabuleiro Ouija. No entanto, o final aberto à exploração do novo, e essa Carmem tão sensual desabrochando como mulher, valeriam uma segunda temporada, e há indícios de que isso possa ocorrer. Cartagena, ademais, é o cenário perfeito para uma ficção com essa temática. A associação entre feitiçaria, emancipação das mulheres e Inquisição é forte tanto na trama quanto nos teasers disponíveis na rede.

 

A Casa de Papel: Marginal, Latina e Global

A série espanhola La Casa de Papel (2017-2019) está conquistando o público brasileiro com uma trama que mescla policial, suspense e melodrama, elementos tão característicos das série criminais latinas. Façanha rara. A história de um grande golpe efetuado por um grupo de amadores que se mesclam a especialistas em suas áreas –  estrategistas da web, assaltantes de bancos e matadores de aluguel-, organizados por um criminoso extremamente talentoso, conhecido apenas como O Professor (Álvaro Morte) poderia ser o pretexto perfeito para discutir a sociedade moderna e a democracia neoliberal. A discussão, entretanto, está subjacente ao roteiro, que está mais preocupado em divertir e entreter do que aprofundar qualquer dessas questões. Aqui o que importa é seguir “el plan“. Boa parte da empatia que a série desperta vem do fato dos personagens serem pessoas comuns, e que, ao contrário das séries hollywoodianas que reúnem gênios do crime num golpe fantástico, nunca deram certo na vida. Os oito membros da equipe adotam nomes de cidades do mundo com as quais eles se identificam para manter anonimato: Tókyo (Úrsula Corberó),  Nairóbi (Alba Flores),  Berlin (Pedro Alonso), Moscou (Paco Tous), Denver  (Jaime Lorente), Rio (Miguel Hérran), Helsinque (Darko Peric) e Oslo (Roberto García).

Em sua segunda temporada, o suspense se coloca em segundo plano para deixar entrar em cena o drama romântico, colocando ainda mais em evidência os conflitos da inspetora Raquel Murillo (Itziar Ituño) com a lei e a ordem, mas sem jamais abandonar totalmente o clima de mistério. E deixa o gancho perfeito para uma possível terceira temporada, ainda não confirmada. A produção estreou primeiro na televisão espanhola, no Canal Antena 3, e somente então foi parar no catálogo da plataforma de streaming.

A série fortalece sem dúvida o mito do marginal romântico, tão marcante também na cinematografia latino-americana, borrando as linha entre o bem e o mal, porém com muito mais poder de sedução e de apelo popular do que as narcosséries, por exemplo. Não é difícil entender essa reação, afinal, as corporações policiais, ao longo da nossa história, representaram o braço armado de ditaduras políticas. Há corrupção na polícia, no governo. Então, a identificação com os bandidos, que  são francamente os protagonistas, os oprimidos, os bonzinhos, não é de se admirar. Os criminosos usam máscaras de Salvador Dali, um anarco-monarquista e um tímido patológico que se ocultava por trás de um comportamento excêntrico. Elas são outra marca da série, metáfora interessante que remete ao Anonymous de V de Vingança (2005) e às insurreições individualistas.

O motivo de tanto sucesso, no entanto,  não deve ser visto somente por esse lado tão óbvio. O historiador inglês Eric Hobsbawn, em sua obra Bandidos, frisa a popularidade do assaltantes de bancos em diferentes períodos. Dillinger era idolatrado pela imprensa e pelo povo dos Estados Unidos como um autêntico Robin Hood. No período da Depressão, na década de 1930, muitos cidadãos estadunidenses culpavam os bancos pela  crise. Durante os assaltos, Dillinger adorava frisar que estava ali para levar dinheiro da instituição, e não dos clientes. Essa é, em poucas palavras, a grande argumentação do mentor do assalto de 2 bilhões de euros à Casa da Moeda espanhola, o Professor, para justificar seu ato criminoso.Há muito pouco de verdade nessa vocação social dos bandidos, ainda mais quando se confronta essa afirmação numa sociedade moderna. As organizações estatais pós-modernas, cada vez mais autoritárias e policialescas, entretanto, vêm atualizando esse discurso com a sua incitação ao medo e ao ódio sob o pretexto de promover a segurança e combater a corrupção.

A ambiguidade moral de todos os personagens, bandidos e policiais, é a deixa para que o público comece a torcer pelos assaltantes. O fascismo do Coronel Prieto (Juan Fernández), que a todo momento tenta impor a extrema violência  como único método para manter a ordem , e seu empenho em desestruturar a carreira da inspetora Murillo pelo simples fato de ser mulher, rapidamente fazem dele um vilão. Sem falar no ex-marido da inspetora, o investigador Alberto (Joseba), que a espancava , e que não poupa esforços para desestabilizar sua trajetória profissional e pessoal, disputando a guarda da filha de forma inescrupulosa. Tudo isso faz com que o personagem de Murillo seja o personagem feminino mais complexo e, aparentemente, o mais frágil. Ela ocupa uma posição de poder, e ao mesmo tempo, tem de lidar com o machismo no dia a dia, em casa, no trabalho, e com suas próprias fragilidades emocionais. O que está totalmente em desacordo com as regras de uma corporação que impõe um modelo praticamente assexuado de policial bem-sucedida, ao menos nas séries estadunidenses que consagraram o gênero na televisão e no cinema.

As mulheres e seus dilemas representam um capítulo à parte. As reféns se destacam para compor, ao lado das integrantes do grupo, um painel extremamente diversificado da participação feminina na sociedade contemporânea. Temos a garota rica e mimada que é vitima de bullying em Alison (María Pedraza), a funcionária pública Monica Gaztambide (Esther Acebo) que acaba se envolvendo com o chefe casado que prefere continuar com a mulher tradicional e submissa. Ao longo da série, algumas reféns acabam se identificando com os bandidos.

São duas as mulheres do bando. Nairóbi, codinome da personagem mais maternal e sensível do bando, que busca redimir-se de uma adolescência pobre e inconsequente,  e é uma perita em falsificações. E temos a impulsiva e rebelde Tókyo, inspirada por Mathilda, o personagem de Nathalie Portman em O Profissional (1994), de Luc Besson. Tóquio e seu amado, o gênio da deep web  Rio, formam o par romântico no qual qualquer adolescente poderia se espelhar. Aliás, hackers e a perversidade do sistema financeiro são outra associação fatal que sempre dá certo. O fascínio exercido pela hacker sueca Lizbeth Sallander, criação de Stief Larsson para a trilogia Millenium, também reverbera o dito popular que diz que “ladrão que rouba ladrão tem 100 anos de perdão”.  Na era do roubo cibernético, se você está roubando quem vive de espionagem financeira global, está contribuindo para a redistribuição de renda, está na verdade fazendo justiça e inclusão social.

É Tóquio quem vai narrar a história, e é por meio dela, a ovelha negra, que vamos sendo familiarizados com o bando de assaltantes que se comportam como aplicados estudantes durante o treinamento para o “maior assalto do século”, e acabam se envolvendo como uma autêntica família. A canção Bella Ciao, canção popular italiana , composta no fim do século XIX, é o grande marco da série, e garante aura contestadora para o grupo que dá um golpe fabricando dinheiro, em vez de roubar. Suas origens são controversas. Era um canto de trabalho das mondine, trabalhadoras rurais temporárias das plantações de arroz italianas, uma canção de protesto contra a Primeira Guerra Mundial, mas sua versão final a  tornaria um símbolo da resistência italiana antifascista, durante a Segunda Guerra Mundial. Na série, ela é um elemento importante que relaciona o Professor com o psicopata do grupo, Berlin, o único com quem ele demonstra intimidade familiar, a despeito de sua norma  contra o envolvimento afetivo dos integrantes. Regra que ele é um dos  primeiros a violar.

Uma ressalva: a série é endereçada a intelectuais, à classe média que teme perder o poder, às mulheres emancipadas que lutam para afirmar-se num universo patriarcal, mas evita cuidadosamente abordar qualquer assunto polêmico que possa resvalar em conflitos étnicos e raciais, por exemplo. O mapeamento cognitivo dos personagens se resume aos membros mais tradicionais da potência espanhola que estruturou a maior colônia geocultural da América.

A mulher como gênero na trama policial de O Mecanismo

É muito raro que uma série policial brasileira tenha protagonismo feminino. O Mecanismo é um desses casos. A delegada Verena Cardoni, interpretada por Carolina Abas, inspirada por Erika Marena, que teria criado a alcunha de Lava Jato, é uma personagem com densidade, nuances,  que é capaz de ser rígida, cumprir seu papel profissional com eficiência, e se apaixonar, preferencialmente pelo homem errado, interpretado no caso por Claudio Amadeu (Lee Taylor). É ela quem brilha ao lado de Selton Mello, o Ruffo, que se torna uma referência para a amiga Verena.

Os filmes noir consagraram a femme fatale como um novo modelo de protagonismo feminino, deixando a imagem de vilã para trás. Eram elas os objetos de desejo dos mocinhos-galãs em conflito com seu papel tradicional numa sociedade patriarcal. O filósofo Fredric Jameson cita o surgimento da mulher parceira, em geral amiga, assexuada, e funcionária exemplar da corporação como outra vertente possível dentro das narrativas policiais. Essa nova mulher é ameaçadora, daí essa dificuldade de representação. A delegada Verena tem um pouco de cada característica, mas é de carne e osso.

Os delegados da Polícia Federal e a própria ambientação da delegacia, as cenas de ação, mescladas à vida de cada um, são bem delineadas.  E lembram os melhores momentos das duas sequências de Tropa de Elite, e Narcos, trabalhos anteriores do diretor.

A expressão de Ruffo no INSS,  perplexo e revoltado diante de uma aposentadoria que deixa  a desejar, ao final de uma árdua carreira, traduz com propriedade não somente o seu drama pessoal, mas o cotidiano de milhares de brasileiros, e evidencia a falência de instituições que supostamente deveriam contribuir para amparar seu cidadãos nesse momento. O doleiro Alberto Youssef/Roberto Ibrahim composto por Enrique Diaz tampouco compromete, e sua habilidade de seduzir  políticos pouco empenhados em fazer algo mais do que desfrutar de uma situação de foro privilegiado é adequada. Nada de espetacularização ou rigidez estereotipada. O bandido de colarinho branco, quem diria, é um bom pai.

Os problemas surgem quando a série decide mostrar os bastidores do poder. A representação de Lula e Dilma, realmente, é patética, capaz de deixar qualquer estudante ruborizado. O aviso de que qualquer semelhança com os fatos reais é mera coincidência também soa estranho, uma vez que o roteiro foi baseado no livro-reportagem O juiz Sergio Moro e os bastidores da operação que abalou o Brasil, do jornalista Vladimir Netto, lançado em 2016. Os personagens de Lula e Aécio Neves, na série José Higino (Arthur Kohl) e Lucio Leme, respectivamente, são caricaturais. E a presidenta precisava se chamar Janete? 

Segundo os cânones do cinema nacional, é nome de piriguete, condição realçada pela interpretação quase satírica de  Sura Berditchevsky.  O que de resto afeta a composição das demais personagens femininas da série que personificam os demônios de Padilha: a marqueteira vivida por Maria Ribeiro, as prostitutas de Ibrahim. Mas essas opções se prestam a um roteiro que vê governos e grandes empresários de forma totalmente maniqueísta, e a mídia como a grande culpada pelos transtornos de um país que não consegue atingir a maturidade. E os nomes fantasia das corporações não ajudam muito a desfazer o imbroglio. A Polícia Federal se torna Polícia Federativa; o Ministério Público é chamado de Ministério Federal Público; a Odebrecht, de Miller & Bretch; e a Petrobras se torna PetroBrasil. Os personagens dos policiais e a ambientação das delegacias mereceram sorte melhor, são mais verossímeis.

O final da sequela de Tropa de Elite deixava entrever esse problema, mas ali Brasília funcionava como a criança recém-nascida de O Bebê de Rosemary. Tudo que é sugerido, imaginado, é mais instigante. As séries e filmes brasileiros possuem escassa tradição de representar o poder de forma convincente. Generais, presidentes, são quase sempre sombras fugidias. Na hora de discutir o governo e a  política nada como um bom e, por vezes,  enfadonho filme histórico que remeta à monarquia, à colônia e ao inimigo comum – no caso Portugal. A narrativa se dá sempre a partir do ponto de vista do oprimido, do vencido. O thriller de George Moura Getúlio, dirigido por João Jardim, é um dos raros exemplos recentes de uma obra ficcional que busca retratar um estadista popular com mais complexidade.

Os problemas da  plataforma de streaming Netflix, considerada a oitava maior empresa de audiovisual do mundo, quando se trata de produzir séries e filmes regionais e ao mesmo tempo, transnacionais, são conhecidos. A série de Padilha, pela sua repercussão entre setores da esquerda e da crítica de cinema brasileiros – Lula chegou a declarar que iria processá-los e houve mobilização para uma campanha pelo cancelamento de assinaturas -, é um dos exemplos. Desde o anúncio do veto de Cannes às produções da Netflix pelo festival, entretanto, vem pipocando notícias diversas sobre as agruras da rede em desenvolver produtos interculturais sem ofender ninguém ou causar polêmicas. Difícil. Na verdade, o problema vai um pouco além. Não são os desvios ideológicos derivados da (má)  ficcionalização da realidade que contam, nem os diálogos trocados, que colocam a fala de Romero Jucá na boca do ex-presidente de mentirinha. Afinal ninguém se preocupou com o pastiche de Rio de Janeiro exibido pela trilogia de vampiros adolescentes Crepúsculo e por Velozes e Furiosos 5, regiamente pagos por essas inserções.  Nem mesmo as ridículas lojinhas anticorrupção espalhadas pelos aeroportos a título de campanha.  Trata-se de sua insipiência ao retratar a elite política e empresarial e do carácter reducionista de sua trama. Quanto mais a série tenta aprofundar a questão do processo de lavagem de dinheiro e da corrupção no Brasil, pior fica.

O que falta para termos obras como Z (1969), de Costa Gavras, O Caso Mattei (1972) de Francesco Rosi, ou Investigação sobre um cidadão acima de qualquer suspeita (1970) de Elio Petri?  Os seriados brasileiros já conseguem retratar a favela sem parecer que é cidade cenográfica. Os policiais deixaram de ser aqueles sujeitos que entram pelas portas dos fundos para limpar a sujeira dos ricos e dos quais a gente mal se lembra, mérito que na televisão nacional começou em O Rebu e que no cinema é mais claudicante, mas se faz sentir cada vez mais em produções como Operações Especiais (2015) Alemão (2016), minissérie e filme, e Polícia Federal – a lei é para todos, que se prepara para lançar o segundo filme da trilogia, na mesma linha da série de Padilha. A série O Mecanismo não consegue ir além dos trabalhos anteriores do diretor ao abordar a corrupção e a política no Brasil. Apenas um bom thriller de ação. Em que pese a inclusão de personagens (reais, diga-se de passagem) que não costumam integrar as narrativas do gênero, como o investigador japonês “China” (Fáio Yoshihara), que representa o policial Milton Ishii, Wilma Kitano (Alessandra Colassanti) é inspirada em Nelma Kodama. O único funcionário negro da PF, Vander (Jonathan Haagensen), aparentemente foi criação ficcional. Mas é interessante, sobretudo por colocar em cena um ator quase sempre relacionado ao mundo das drogas, por seu papel de Cabeleira em Cidade de Deus.

 

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