Revista O Grito!

Femme Fatale — Por Luiza Lusvarghi. Séries, Filmes, Produção Latino-Americana, Relações de Gênero

Categoria: Mulheres na Mostra

O legado de Chico Rei e o resgate da memória afetiva


Premiado como melhor documentário pelo público 44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, com Menção Honrosa do júri, o documentário Chico Rei entre nós foi uma grata surpresa para a maioria dos cinéfilos que costumavam se acotovelar nas filas neste período e que agora disputam um aluguel temporário de uma sala virtual, sujeita a no máximo duas mil visualizações, na internet.

O longa de  estreia de Joyce Prado sobre a história do rei congolês ora reputada como verdadeira, ora como lenda, coloca em primeiro plano um país que até então se desconhecia, ou melhor, uma versão da história da escravidão e dos afrodescendentes que é quase sempre ignorada ou mistificada em favor da versão colonialista e branca.

Galanga era o rei do Congo, mas acabou capturado com sua família para ser vendido como escravo no Brasil. No trajeto, sua esposa e filha são atiradas ao mar. Galanga sobrevive com seu filho Muzinga e ao chegar ao Brasil, em 1740, é batizado como Francisco. A construção da Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos é atribuída a ele, que também era devoto de Santa Ifigênia, que trabalhou por anos na Mina da Encardideira, em Vila Rica (atual Ouro Preto) economizando dinheiro para concretizar esse sonho.

Essa não é a única façanha do rei Chico. Alforriado, ele vai comprar a liberdade de seus antigos súditos. Essa história de vencedores e não de vencidos, de um personagem que veio da África com um legado cultural e ético é a alma do documentário de Prado.


As irmandades criadas em torno dessas igrejas dos Homens Pretos, que eram proibidos de frequentar o culto católico com os homens brancos, surgem como uma manifestação de cultura afetiva e cultural de extrema importância para a comunidade negra, ainda que fruto de uma religiosidade imposta pela colônia, e o filme sabe explorar  em essa questão, por meio dos depoimentos de pessoas relacionadas a essas confrarias e das imagens de devotos e santos. O documentário não se limita a falar de Minas, e adentra São Paulo e os bairros de Santa Ifigênia e Liberdade, locais em que a memória da herança africana foram apagados.

Outro resgate importante que o longa faz é sobre a origem das congadas,  decorrentes precisamente do mito criado em torno de Chico Rei, do Congo, rito folclórico normalmente exibido como curiosidade turística de forma totalmente descontextualizada e sem nenhuma preocupação histórica e popular.


A maior riqueza do documentário é buscar nos personagens da atualidade os nossos Chico Reis, reavivando por meio das imagens e das falas a importância do sentimento de pertencimento à comunidade e a um coletivo, e o papel transformador que esse lugar pode trazer. Afina, a imagem do preto velho que é descartado pelo seu senhor com a abolição da escravidão, sem nenhuma utilidade, tem de ser desmistificada. A contribuição cultural da comunidade africana ao Brasil, e a diversos países latino-americanos, é prova inconteste de que essa visão do homem negro e escravo que nada tinha a oferecer além do seu suor é apenas mais uma faceta perversa do colonialismo que insiste em negar esse legado.

Os prazeres de Clarice, segundo Marcela Lordy


Quando decidiu converter o livro Um aprendizado ou o Livro dos Prazeres em filme, há quase 10 anos, a diretora Marcela Lordy se propôs a encarar um desafio e tanto. Não é fácil adaptar a enigmática Clarice Lispector para a tela grande. Suzana Amaral cometeu essa proeza e subverteu o texto da escritora que foi em vida chamada até mesmo de bruxa, e compareceu a um evento de feitiçaria na Colômbia munida de um texto em espanhol, o poético e onírico O Ovo e a Galinha – a maior celebração da vida – em A Hora da Estrela, transformando a singela Macabéa numa protagonista que nos arrasta num turbilhão de emoções e revolta, tendo ao seu lado a maravilhosa Marcélia Cartaxo.

Lordy, entretanto, foi além, e quis mergulhar de fato no universo da escritora, que era praticamente a protagonista de toda a sua literatura, e chamou para isso a atriz perfeita, Simone Spoladore, que pode encarnar a obsessão, a sensualidade e o fatalismo dessa mulher que fascinou o seu tempo, e nos deixou romances absurdamente angustiantes e originais.

O Livro dos Prazeres não é um filme sobre Clarice, mas a partir de Clarice. Para acompanhar a professora Lorelei, a Lori, temos a figura do filósofo e professor Ulisses, personagem do argentino Javier Drolas, do longa Medianeras (2011) que faz aqui seu segundo professor no Brasil  – o primeiro foi o professor assediado sexualmente por Bianca Comparato na excelente série A Menina sem Qualidades, na extinta MTV Brasil. A química entre os dois, Spoladore e Drolas, funciona bem, ele com seu ar cético e irreverente, fazendo o gênero sexualmente libertário, pansexual e de estudada indiferença, o que atrai imediatamente a Lori.


Por sua vez, ela entra em cena com seu ar sensual e perdido de musa existencialista,  que não consegue se entregar sexualmente e afetivamente a ninguém, por medo de se perder do seu verdadeiro eu, de se entregar a uma paixão que não consiga preenchê-la. Dilema típico de Lispector.


Para felicidade de quem assiste, essas questões não são nunca reduzidas ou estereotipadas em nenhum momento. O filme tem ainda excelentes coadjuvantes como a amiga taróloga interpretada por Vivida por Martha Nowill. O filme agrada tanto a quem espera um filme intimista que expõe de forma lírica e feminina a mulher e seus dilemas contemporâneos, coisa rara nos filmes brasileiros, quanto aos fãs de Clarice, que Lordy atualiza.

Os problemas de Lori com seu irmão Davi, interpretado por Felipe Rocha, e com o pai bolsonarista caem como uma luva no ambiente naquele apartamento de frente para o mar que ela não consegue decorar. O crochê que ela desfia como uma Penélope sem rumo e o vídeo que ela assiste do filme Terra em Transe, com Glauce Rocha recitando que gostaria de se casar, como qualquer outra mulher, tudo é parte do calvário que ela terá de trilhar para realizar seu desejo, o que ela mais teme.


Nessa mudança interminável, de casa e de vida, repleta de relações inconsequentes – amantes de ambos os sexos entram e saem do apartamento – Lori se apaixona por Ulisses, o que não acontece no livro. Assim, a personagem cumpre seu destino, saindo do casulo e batendo as asas de borboleta. A fotografia do filme, belíssima, não nos deixa margem para um cochilo, e nos mantém acesos diante dessa saga intimista e inquietante. Como Clarice. O roteiro é uma colaboração de Lordy com a argentina Josefina Trotta.

Ana. Sem título: Murat faz ensaio sobre Feminismo, Política e Arte na América Latina


Em seu longa-metragem Ana. Sem título, que estreou na 44ª Mostra, Lucia Murat volta a seus filmes-ensaio em que mescla tanto a linguagem do documental quanto a ficcional, e radicaliza a proposta que já estava presente em seu longa de estreia Que bom te ver viva (2000).

Ao criar, a partir de uma gravura, a personagem da artista plástica e performer brasileira Ana, desaparecida durante a ditadura militar, Murat se dispõe a percorrer o labirinto em que a região latino-americana se envolveu a partir da década de 1960, vale dizer, de sua geração. Ao longo do filme, por meio da jornada em busca de Ana, jovem e promissora artista negra, homossexual, revolucionária, vamos nos deparar com a presença de mulheres artistas tão distintas quanto Lygia Pape, Maria Luisa Bemberg, Antonia Eiriz, Frida Kahlo, Kati Horna, Lea Lublin e Luz Donoso.


A inspiração para produzir uma historiografia da mulher no contexto político e artístico da América Latina surgiu a partir da peça-documentário de Clarice Zarvos, Mariana Barcelos e Daniele Ávila Small, de 2017, Há mais futuro que passado. Embalada por essa encenação do real, Murat decidiu se lançar numa longa pesquisa e criou uma personagem que efetivamente existiu, mas da qual nada sabemos, e parte em longa viagem que se compara quase a um rito iniciático, uma aventura, plena de descobertas.


Os verdadeiros protagonistas do filme são a atriz Stella Rabello, que a partir da descoberta de Ana na exposição Mulheres Radicais: arte latino-americana, 1960-1985, na Pinacoteca de São Paulo, decide empreender um mergulho no período, a própria diretora e sua equipe mínima composta pelo diretor de fotografia Leo Bittencourt; e Andressa Clain Neves, a técnica de som, que acabou se envolvendo num episodio verdadeiro de racismo ao ser barrada no aeroporto do México.

A eles se somam diversas personalidades do Chile, Argentina, Peru, México, Cuba, que vão nos ajudando a compor o rosto de Ana, que é a face da arte sob a repressão de ditaduras políticas, da repressão à expressão artística, de violência contra a mulher e, acima de tudo, da mulher negra. O time conta ainda com a atriz Roberta Estrela D´Alva, em belíssima performance do poema da poeta peruana Victoria Santa Cruz Me gritaron negra.


Além de tecer esse painel belíssimo e urgente sobre a arte e a política latino-americanas, o longa é um libelo feminista e um grito de revolta contra o racismo estrutural. Não por acaso, o filme fecha com uma leitura de Um teto todo seu, de Virginia Wolf, interpretado por Stella. É impossível assistir ao filme sem sair com a sensação de que um pedaço de nós, da nossa história, nos foi roubado, mas que, ao final, de alguma forma, o cinema pode trazer de volta não somente essas imagens como mera informação, mas a experiência.

 

 

 

Adaptação de romance húngaro, Pilato emociona ao falar de mãe e filha


Magda Szabó foi uma escritora húngara que sofreu perseguições políticas na Hungria comunista. Sua obra contundente, no entanto, está voltada para o terreno árido dos dramas pessoais.  Pilatos, adaptada para o cinema por Linda Dombrovszky,  com a colaboração dos roteiristas György Somogyi e Sándor Szélesi, trata mais especificamente das relações entre Anna (Ildikó Hámori), a mãe, dona de casa provinciana, e sua filha, Iza (Anna Györgyi), médica e profissional bem-sucedida.

É também uma trama que aborda a forma como lidamos com a morte e a velhice, com a nossa mortalidade. A narrativa está dividida, assim como o livro em terra, fogo, água e ar. O outro título em inglês, Iza´s Ballad, coloca a filha Iza num papel central, enquanto Pilatos remete à figura do governante romano Pôncio Pilatos, conhecido por ter sido o juiz que não interveio contra os fariseus na condenação de Jesus Cristo a morrer na cruz. Desta forma, o ato de Iza de  lavar as mãos, ao início do filme e ao seu final,  eximindo-se de sua responsabilidade, está envolto em culpa e dor.

A abertura do filme, com a mãe recebendo a notícia da morte de seu amado marido, com a câmera em close, funciona como uma introdução ao belo trabalho de Dombrovszky, em seu primeiro longa. Não há diálogos, o  médico é apenas uma voz, a relação se estabelece a partir da expressão facial de Anna – ela entra como uma mulher feliz, empoderada, e a partir da notícia, seu rosto se apaga, como se ela estivesse entranto em transe.

O que é importante não são os detalhes, as imagens do hospital são muito rápidas,  são as emoções de Anna que nos conduzem. Para a viúva, que conversa com o marido e companheiro como se jamais houvesse partido ao longo de todo o filme, o tempo não passou.


A partir dali, vamos acompanhar as duas em sua conflituosa jornada que se inicia com Iza decidindo, de forma autoritária, que a mãe irá morar com ela, na cidade. O apartamento elegante e moderno em tons de cinza contrasta de forma impactante com a casa ampla e iluminada do campo, com artefatos simples, e um coelho de estimação, o Capitão.

Iza decide o que é melhor para sua mãe naquele momento, porque não consegue entender a importância afetiva de uma panela velha, de um quadro roto, que para ela são apenas elementos decorativos. É preciso inovar, ela diz. Para Anna, tudo é memória, e sua expressão vazia e dilacerada antecipa a tragédia.

O filme é excepcionalmente maduro para uma autora estreante, não apenas pelos lindos planos, pela fotografia, e pelo trabalho de atores, mas pelo tema escolhido e pelo recorte preciso que ela faz dos dois mundos que jamais se encontram, o da mãe e o da filha.  Não se trata aqui apenas de mais uma história abordando as relações nem sempre fáceis entre mãe e filha, mas também de uma reflexão sobre a morte e a vida. Anna representa um passado antiquado, Iza a cidade moderna e nem sempre acolhedora, e elas travam aqui um embate duro e fatal.

O filme deve estrear na televisão húngara em novembro.

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